Quando perguntaram ao imortal da ABL, João Ubaldo Ribeiro, o que ele achava do prêmio Camões recém-recebido, o mais importante em língua portuguesa, ele foi categórico: – Eu mereço.

Alguns acharam falta de modéstia, uma indelicadeza. Qualquer avaliação honesta, porém, só pode concordar com João Ubaldo. Ele merece, e merece até mais. Schopenhauer, o filósofo mal-humorado, afirmava que a modéstia nada mais era do que um homem pedindo desculpa por suas qualidades àqueles que não têm nenhuma. João Ubaldo era tudo: contador de história, jornalista,  romancista, contista, baiano, boca suja, gênio… Um homem desses não tem motivos para pedir desculpas.

Pelo contrário, João Ubaldo começou a escrever – ou melhor, a brincar de escrever – aos sete anos de idade, ao ficar sabendo da morte de Monteiro Lobato. Sua brincadeira era uma espécie de homenagem: o menino copiava as histórias, os maneirismos e expressões de Lobato, em uma tentativa de construção estilística típica dos artistas. Como disse em uma coluna passada (http://tagcultural.com.br/quem-escreveu-o-que/), essa prática não tem nada de incomum ou imoral. O que surpreende é a precocidade.

Esse misto de  apropriação e pastiche não foi apenas uma prática. Um dos trechos mais memoráveis de Viva o povo brasileiro nada mais é do que uma homenagem à Ilíada, de Homero, usando personagens iorubás.

Ogum soltou um grito superior à canhonada e suas lágrimas quentes, de dor pelo filho morto, regaram o chão, tornando mais fumegante o sangue dos caídos. (…) E logo, como um redemoinho, como um catavento de aço, como vinte mil facões esfarinhando o ar, o grande Ogum, invencível no combate, cercou seu filho Cabo Arimatéa, enquanto ele suspendia bem alto o pavilhão, imune às balas e estocadas do inimigo.

Viva o povo brasileiro é, sem dúvidas, uma das mais importantes obras da nossa literatura. É uma história épica e paródia ao mesmo tempo, uma homenagem ao Brasil e uma galhofa. Não se trata de um patriotismo cego, pelo contrário, o livro escracha nossas vergonhas, desmente o mito de uma democracia racial, expõe nossas elites. Os dominantes já contaram a nossa história, dessa vez João Ubaldo Ribeiro houve a voz dos dominados.

Outras obras de João Ubaldo Ribeiro merecem igualmente destaque. Sargento Getúlio é uma obra de tirar o fôlego, sobre o banditismo sertanejo. O estilo corrido, em tom de monólogo lembra outro grande autor nosso, Guimarães Rosa, apesar das diferenças explícitas entre a obra dos dois. Casa dos budas ditosos, famoso pela adaptação levada aos teatros por Fernanda Torres, foi escrito sob encomenda. Assim como Dostoiévsky, Ubaldo não se constrangeu em escrever por causa de uma troca econômica. Ele tinha talento para transformar qualquer coisa em literatura – e das boas. E ele mais do que ninguém sabia disso.

É por isso que a sua morte abre um vazio inestimável na nossa literatura. Não só a cadeira da Academia Brasileira de Letras sentirá sua falta. João Ubaldo Ribeiro era uma das poucas vozes desbocadas e lúcidas, tanto em sua coluna no jornal carioca, quanto em seus livros eternos.

*Escrito por Yago Barbosa – Fã de literatura desde pequeno, obcecado por ciências sociais e cognitivas, amante de fotografia e design gráfico, Yago Barbosa transita entre a multidisciplinaridade e um interesse genuíno de entender como os meios de comunicação operam e quais são as consequências de um mundo midiático. Estudante de Comunicação Social, na Escola de Comunicação da UFRJ, se especializando em Produção Editorial, em sua breve história como gente grande já atuou como designer em uma grande empresa de logística; participou de projetos de iniciação científica; na organização do Seminário Internacional de Fotografia e Experiência, em 2012 no Centro Cultural da Justiça Federal; e atualmente é estagiário de Ficção Estrangeira no Grupo Editorial Record, o maior conglomerado editorial da América Latina. Espantado com os poucos sites e materiais publicados no país sobre o mercado editorial, pretende compartilhar dados, informações e tendências do mercado de forma crítica e acessível.

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Literatura de 02 de abril à 02 de agosto de 2014.

Yago Barbosa
Fã de literatura desde pequeno, obcecado por ciências sociais e cognitivas, amante de fotografia e design gráfico, Yago Barbosa transita entre a multidisciplinaridade e um interesse genuíno de entender como os meios de comunicação operam e quais são as consequências de um mundo midiático. Estudante de Comunicação Social, na Escola de Comunicação da UFRJ, se especializando em Produção Editorial, em sua breve história como gente grande já atuou como designer em uma grande empresa de logística; participou de projetos de iniciação científica; na organização do Seminário Internacional de Fotografia e Experiência, em 2012 no Centro Cultural da Justiça Federal; e atualmente é estagiário de Ficção Estrangeira no Grupo Editorial Record, o maior conglomerado editorial da América Latina. Espantado com os poucos sites e materiais publicados no país sobre o mercado editorial, pretende compartilhar dados, informações e tendências do mercado de forma crítica e acessível.

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