Em 2004, eu estava fazendo 18 anos com muita leitura inútil de super-herói na cabeça. Já não aguentava o mesmo gibi, com o mesmo herói enfrentando um vilão até, inevitavelmente, muitas revistas e dinheiro gasto depois, vencer. Ao mesmo tempo eu queria continuar lendo super-heróis. Mas queria algo novo, mais ousado, que fosse além da ação fácil. Precisava disso. Então saiu por aqui a Marvel Max, uma linha adulta da Marvel Comics (a do Homem-Aranha e Hulk). E foi nela que eu conheci Jessica Jones.

Jessica Jones foi algo realmente de outro mundo pra mim na época. Primeiro, ela era uma personagem feminina original, e não a versão de um personagem masculino como Supergirl e Mulher-Hulk, ou seja, coisa rara. Segundo, apesar de ela ser um personagem novo, era como se ela tivesse sempre existido naquele universo.

Explicando melhor: Jessica Jones é uma ex-super-heroína que virou detetive particular. Quando o leitor a conhece, ela já deixou a fantasia há décadas, é como se para ela fosse uma dessas coisas loucas que você fazia na década de 80 quando era jovem. Ao mesmo tempo que Jessica é uma pessoa normal, sem identidade secreta, e que resolve casos de infidelidade conjugal, ela também conhece o mundo dos super-heróis.

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Jessica Jones sendo interrogada por um policial sobre o seu passado.

 

É como se a série tratasse justamente dos bastidores do mundo dos super-heróis, sobre como influi na vida das pessoas a existência de indivíduos que podem fazer o impossível. Quer dizer, se alguém aparece para você dizendo que seu marido foi recrutado para uma batalha contra uma raça alienígena, bem, isso pode ser muito bem verdade. Pelo menos tanto quanto a pessoa ser maluca e o marido só ter fugido com a amante. É com esse tipo de coisa que Jessica Jones tem que lidar.

O banal e o fantástico estão misturados em cada história. A própria Jessica é assim. A gente nunca sabe a extensão dos poderes dela. E, na maior parte do tempo, ela evita brigas. Então é sempre uma surpresa vê-la usando superforça ou dando algum salto bizarro, ou mencionando que sabe “voar mais ou menos”. Isso, para depois de algumas páginas, se deparar com ela enchendo a cara, ou cagando na privada, ou transando de um jeito cru, direto e mundano, que não é muito comum nesse gênero de heróis altivos e corretos.

Momento de reflexão.
Momento de reflexão.

Mas o que eu mais gosto da Jessica Jones é o fato de ela procurar ser o típico detetive noir, o cara cínico, impessoal e niilista. Mas isso só dura nos primeiros segundos. No final ela sempre se envolve com os personagens, fica emotiva, perde a cabeça, xinga todo mundo e procura fazer o certo. No final do trabalho, atrás do cigarro, da jaqueta, e debaixo das sombras da persiana, Jessica Jones ainda é uma heroína. O que sempre levanta a pergunta: o que a levou a abandonar o uniforme?

Para quem nunca leu a série de quadrinhos Alias, onde a personagem foi criada por Brian Michael Bendis e Michael Gaydos, vai ter a segunda chance de descobrir a resposta para essa pergunta na adaptação para as telinhas. O Netflix, depois do sucesso de sua versão do Demolidor, vai lançar uma temporada de 12 episódios da Jessica Jones. Acho que tem tudo pra chacoalhar a visão que o grande público tem do gênero e sair dessa água parada que ficou os super-heróis no audiovisual.

Confesso que não curti muito a escolha da atriz. Espero ser surpreendido.
Confesso que não curti muito a escolha da atriz. Espero ser surpreendido.

Mas vale a pena gastar um tempo procurando o quadrinho nos sebos ou na internet. Até porque muita coisa vai ficar de fora com certeza. Como o racismo contra mutantes, que sempre permeia as histórias de Alias. Como a Marvel (Disney) está em guerra contra seus próprios personagens dos X-Men, cujos direitos de adaptação estão com outro estúdio de cinema (Fox), os mutantes estão sendo retirados do universo Marvel tradicional. Então nem deve rolar referência a eles, ou vão inventar preconceito contra super-heróis, que não é a mesma coisa. Também acho que não vai ter a aparição do J. Jonah Jameson, editor do Clarim Diário. Na melhor história de Alias, Jameson contrata Jessica pra descobrir a identidade secreta do Homem-Aranha, e ela aceita o trabalho apenas para enrolar o Jameson e usar todo o dinheiro em caridade. (Se fizerem essa história, eu tenho orgasmo).

Um pastor fazendo discurso antimutante.
Um pastor fazendo discurso antimutante.

O que pode se esperar da série do Netflix com certeza é a aparição de muitos heróis desconhecidos e interessantes, como Luke Cage; menções aos filmes da Marvel; discussões sobre clichês de quadrinhos; humor negro; mistério; e muita sombra de persiana. Porque noir sem sombra de persiana não pode. Não tá certo, não vai. O resto é esperar até 20 de novembro, quando a série estreia, para comprovar.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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