Dia desses vendo a novela das nove eu me dei conta de que o perfil do brasileiro é de empreender, mesmo. Sem partir pra análises de estrutura novelística, vale destacar que, normalmente, o esperado dos mocinhos é sua proximidade com a galera que assiste à novela. É importante ver as Helenas e afins parecerem “gente como a gente”. E nada mais “a gente” que a protagonista da Camila Pitanga, uma mulher que batalha pelo seu lugar ao sol.

Mesmo quem não acompanha religiosamente a novela consegue perceber na mocinha que seu destino é receber mais do que esperava da vida. Tudo graças ao seu trabalho duro e à sua honestidade. Tendo que trabalhar desde nova pra ajudar no orçamento da família, conquistou seu próprio negócio – uma barraca das que aluga cadeiras e vende petiscos na praia – e vivia muito bem dele, obrigada, até se deparar com intempéries típicas de novela das nove e perder a fonte de seu sustento. Desenrolada a trama, nossa mocinha foi parar num antiquário, trabalhando como faxineira ou algo assim e, mais uma vez, depois de provar competência e sagacidade, subiu outro degrau. Ela mesma, conhecendo suas competências e habilidades, sugeriu que fosse aberto um restaurante no antiquário. O local, além de servir irreverências culinárias – tipo coxinha de pato, também poria à venda toda a mobília disposta. As donas gostaram da ideia inovadora e a puseram em prática. Além disso, pra ganhar destaque na inauguração usaram uma carta na manga: a amizade de uma delas com a cantora Gal Costa proporcionou um belo show de estreia do espaço e várias notícias na mídia (da ficção e da realidade, afinal era uma participação da Gal).

Mas esse não é um artigo sobre a novela das nove. É um artigo sobre empreendedorismo. E sobre como os brasileiros sabem, mesmo, se virar.

Já parou pra pensar em quantas coisas poderiam ser melhores ou diferentes no lugar onde você trabalha/na empresa que você mesmo fundou? E já pensou, também, que você pode ajudar a mudar esse panorama se puser à disposição as suas competências e habilidades? É da nossa natureza, tudo o que a gente sabe fazer – e gosta – a gente faz muito bem.

Ainda seguindo o exemplo da mocinha da novela das nove, podemos destacar nela um perfil empreendedor nato; uma mulher empoderada, que sabe que é capaz de ir mais longe, apesar das barreiras que a sociedade a impõe (além de mulher, é negra e mora no Morro da Babilônia. Sofre todo tipo de discriminação e não se deixa vencer. Ela é um exemplo de superação em todos os âmbitos de sua vida. Uma “guerreira”, como gostamos de dizer); uma pessoa que já se conhece o bastante e sabe quais habilidades e competências pode colocar pra jogo a fim de impulsionar sua carreira; ela não tem medo de sair da zona de conforto, de arriscar ou de realizar tarefas “menos dignas” – quem gostaria de trabalhar na faxina já tendo sido seu próprio chefe? – até que possa voltar a uma posição de destaque.

E você? Quantas vezes você parou pra olhar pra si mesmo e botou em prática aqueles exercíciozinhos de autoconhecimento? E, tendo feito isso, quantas fraquezas você buscou trabalhar para que se tornassem pontos fortes na sua personalidade? Já pensou em observar se o rumo que a sua empresa tomou é realmente o melhor pra ela? Já fez alguma pesquisa de mercado pra ver se o seu negócio oferece, mesmo, algum diferencial pro seu público?

Se você ainda não fez nada disso (ou se acha que não precisa), tire um tempinho pra avaliar a si mesmo e ao seu negócio. Repito aqui que o autoconhecimento é a chave do empreendedorismo, a gente só oferece o que tem de melhor quando sabe o que tem pra oferecer. E também é preciso estar atentos a tudo o que nos cerca pra saber até que ponto podemos continuar com o modelo de negócio atual e quando é preciso renová-lo.

Mais que isso, esteja sempre ligado no ambiente que te cerca e perceba a hora de inovar. Inovação nem sempre tem a ver com novidade, mas com uma forma diferente de solucionar um problema. No exemplo da novela, o restaurante no antiquário serviu tanto para colocar a mocinha na sua área de atuação, exercendo suas competências da maneira mais eficaz, quanto para impulsionar as vendas de móveis e objetos antigos. A grande sacada está em vender a mobília em uso pelos clientes. Se você gostou de uma cadeira, uma bandeja ou um lustre basta acrescentá-lo à conta e levar pra casa no fim da noite. Restaurantes e antiquários, em sua essência, não conversam e não tem nada de novo. Mas a união dos dois no mesmo ambiente já é suficiente pra impulsionar esse novo negócio.

Saia da zona de conforto. Misture elementos inesperados. Una suas qualidades, competências e habilidades em prol de uma nova maneira de solucionar os problemas expostos pelo mercado. Não tenha medo de inovar. Esse sim é o verdadeiro jeitinho brasileiro.

A foto da capa é do Artur Meninea/Gshow e veio daqui.

Renata Coelho Soares de Mello
Produtora cultural. Fotógrafa. Metida a poetisa. Exploradora. Curiosa. Criativa. Renata é daquelas que faz tudoaomesmotempoagora. Uma de suas maiores paixões é cair no mundo. Aproveita suas viagens pra absorver outras culturas e aprender como as pessoas se relacionam com suas cidades. Formada em Produção Cultural pela UFF, atuou em diversos segmentos até descobrir que seu caminho era empreender. Hoje, pós-graduanda em Turismo na UFF (sua segunda casa), está à frente do projeto Explore Niterói e vai compartilhar um pouco das suas pesquisas sobre turismo cultural, cidades e pessoas. Prontos pra fazer as malas?

2 COMENTÁRIOS

  1. […] Tudo isso me fez pensar que tipo de ação permanente se faz necessária numa cidade que recebe mais de 6 milhões de turistas por ano, como é o caso do Rio de Janeiro. Temos muito o que aprender com os gringos. Temos que identificar as demandas, conhecer nossa matéria prima, eleger elementos memoráveis, resignificar nossos ícones e ter orgulho deles. Temos que valorizar nossos artesãos e artistas. Temos que melhorar a sinalização e os mapas de turismo. Temos que criar apps que facilitem a visita de pessoas que nunca estiveram por aqui ou que querem conhecer mais a cidade. Temos que mostrar alguns segredos escondidos e ensinar os visitantes a preservar, como nós fazemos. Temos que ensinar alguma expressões em português a quem vem de longe, mas é bom, também, treinar nossos profissionais pra atender melhor os gringos. Tudo isso sem perder nossa identidade, nossa simpatia, nosso jeitinho brasileiro. […]

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