Foto: Henrique Kardozo

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É possível fazer uma viagem com “Interior”. Você sai do espetáculo com a impressão de que esteve em algum lugar diferente e não no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil. Com esta peça, e mais duas no repertório, o Grupo Bagaceira comemora 15 anos de produções teatrais de formatos originais.

Vindos de Fortaleza, os integrantes imergem por dois anos no universo cultural de quatro cidades do Ceará e creditam em duas velhas personagens a capacidade de sustentar histórias vividas e não vividas. Elas tratam de falar, do seu jeito particular, sobre vida e morte, sobre aqueles vivos que já estão mortos há muito tempo, sobre gente morta enterrando gente morta. Falando sobre o não aproveitamento da vida, as duas senhoras nos confiam seus aproveitamentos em um tom que parece confessional pela intimidade, mas que é honesto pela simplicidade.

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O texto de Rafael Martins é quente como café da tarde da avó que acompanha muito bem obrigada o bolo dividido com o público. Como ser convidada a estar naquele espaço tão somente delas, através da dramaturgia nos tornamos próximos daquelas avós – até quem não conviveu com a sua avó resgata um clima familiar que se perpetua ao longo da peça.

Yuri Yamamoto consegue uma direção natural e ao mesmo tempo visceral. Natural porque é fluido e leve, rimos das histórias das velhas, rimos da singela sabedoria passada. Visceral porque acessa o âmago do espectador, que é convidado a dividir suas histórias de infância e a refletir sobre o tempo futuro – o que seremos e o que estaremos fazendo daqui a cinquenta anos. O autor também assina a direção como assistente, o que denota mais propriedade, caráter coletivo e entranhado da obra.

A coletividade presente se confirma na disposição espacial da cena – duas arquibancadas vazadas de frente pra outra com fitinhas coloridas e arranjos de flores, lâmpadas enfileiradas por cima, quatro focos de luz na vertical e lâmpadas led azul rente ao tapete estampado no chão. As cores são quentes, o ambiente é simples e está em clima de festa. A autenticidade se encontra na comemoração íntima com o público sobre a vida; recai sobre as palavras – as que são do texto e as que não são – o valor acolhedor das avós, o valor afável do espetáculo.

O que está intrínseco nessa produção, além do tema morte e vida, é a memória, a recordação que permanece mais presente, mais viva do que muita realidade próxima de nós. As atrizes Samya de Lavor e Tatiana Amorim, nordestinas, trazem a legitimidade dessas senhoras com seus trejeitos, seu vocabulário, suas particularidades (uma é “pidona”, a outra é “sovina”). Como extensão da captura dessas personas, a indumentária é excepcional na defesa arquetípica das senhoras, além dos elementos como o rádio, a planta, a vela, os sacos, o próprio bolo e, obviamente, a máscara no avesso da blusa.
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Somos direcionados sem saber, mesmo com a ambientação das fitinhas e das lâmpadas, a uma festa! A musicalidade do espetáculo é singular – com instrumentos, com música em off ou através dos sacos plásticos- , já que não tem como falar do interior sem sua identidade artística. Porque os artistas, segundo elas, fazem a gente sair das regras e a música de “Interior” desvirtua a própria regra de uma peça: no final a confraternização que se instaura subverte a distância atriz-espectador, personagem-plateia, eu-outro. No final somos todos felizes e, assim como aquelas senhoras, não queremos morrer nunca.

Serviço:

Interior – Grupo Bagaceira de Teatro 15 anos
Temporada : Interior – 17 de setembro a 4 de outubro

A Mão na Face – 7 a 25 de outubro

Fishman – 28 de outubro a 15 de novembro

Horário: 19h30 – Quartas e quintas
17h30 e 19h30 – Sextas, sábados e domingos
Local: Teatro III – Centro Cultural Banco do Brasil
Ingresso: R$ 10,00 (inteira)
Classificação: Livre

Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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