Henri Cartier-Bresson, Kids, Magnum Photos, Masters of Photography, Street Photography

E quem pode de fato dizer – “Eu tenho amigos”? Não estou me referindo aos amigos das redes sociais, do Facebook. Não. Não me refiro aos amigos que você adiciona à sua rede de contatos para posteriormente se comprazer de seu alto grau de popularidade ou para exibir sua ultra-felicidade regada de viagens a lugares exóticos, as inúmeras super-refeições e as tantas frases de efeito que sua capacidade intelectual for capaz de detectar na internet e atribuir à autoria a Chaplin, Clarice Lispector, William Shakespeare, Mandela, mas afinal, já nos perguntou o filósofo – “O que é o autor?”. Antes, falo de amigos de verdade. Amigos de carne e osso, que existem no dia-a-dia, no gozar das banalidades mais boçais as risadas que a vida não permite no duro do dia-a-dia e que, mesmo assim, a gente teima em dar.

 

Refiro-me aos amigos, conselheiros, aos amigos segredeiros, aos amigos dos cochichos como àqueles de Henri Cartier-Bresson – Kids. Seis crianças que examinam um carrinho no Preto e Branco do artista e no seu instante decisivo. O que há naquele carrinho – bonecas? Um novo amiguinho? Um novo segredo, um mundo por vir? O que de tão interessante se encontra ali que fez a perninha direita de uma das crianças se dobra em um “L” invertido em relação às suas costas? O que faz as pequenas crianças olharem na mesma direção, tão compenetrados, tão unidos, tão sincrônicos?

 

Henri Cartier-Bresson, Kids, Magnum Photos, Masters of Photography, Street Photography
Henri Cartier-Bresson, Kids, Magnum Photos, Masters of Photography, Street Photography

Não interessa. Não é da conta de ninguém que ali não está. Quase a lembrar o conto de Kafka que se eram cinco e um sexto membro não permitiriam aderir ao grupo, na fotografia, são seis e nenhuma permissão ao observador da fotografia o permitirá aderência ao grupo dos pequeninos de forma tal que fosse possível compartilhar de seus segredos. Eles são seis, ou talvez sete, ou ainda seis e meio, mas não deixarão que um outro alguém, um alguém bisbilhoteiro tome parte daquilo que ora dividem.

 

Também os tijolos da rua, o concreto das construções parecem invejar as crianças. Eles quase se disfarçam de peças de lego para ver se as crianças se animam a com eles brincar também. Nem as tantas bicicletas estacionadas constituem objeto de interesse dessas crianças. Tampouco a linha da rua, a reta da rua, em direção norte, em direção em que não vejo o corte são capazes de distrair a criançada.

 

Crianças que vivem. Crianças que brincam. Crianças que são inocentes. Crianças que se reúnem. Crianças que se unem. Crianças que estão à margem de um tempo onde crianças não podem ser crianças. Crianças que ignoram o desejo que umas tantas outras crianças acreditam ter de serem adultas, de não serem mais crianças, de pular a infância. Crianças que ignoram todo o mundo, se não aquele que lhes interessa. Crianças que estão na esquina, na curva feita pelo vento. Crianças que compartilham no real e não no virtual a liberdade de se formarem crianças, amigos, de uma vida inteira, de infância, de rua, de bairro, de brincadeiras de meninice. Crianças que são amigas. Amigos que são crianças e que se permitem a ciranda sem se questionarem o que se pode ganhar para além do melhor – o instante decisivo.

 

Mais do que ser um instante decisivo para o fotógrafo cuja experiência, paciência e olhar atento permitem a obra de arte, pensemos no instante do Presente e pronto e ponto e três pontos e reticências. São essas crianças na curva, demarcando o reto, eliminando o concreto, dando vida e sentido à dureza de uma cidade, à incompreensão da vida. São essas crianças que deslocam meu olhar, no aqui e no lá, da curva, da roda, da reta, das janelas, das pedras para pensar no artista.

 

Como Bresson decidiu esse instante? Como as crianças decidiram por Bresson? Não me importa. Importa ver. Importa sentir que, como aquele grupo tão entrosado de crianças a vida nos dá nossas rodas, nossos amigos. De uma roda à outra, o sujeito vai se transformando, vai se constituindo em quem ele é e, de repente, um dia cresce. O que lhe resta? Caráter? Dinheiro? Dívidas? Amigos? Lembranças?

 

As estruturas que brotam das paredes me fazem lembrar as peças de lego e o tal do minimalismo e sua relação com o espaço. A potência que há no exato, no objetivo do minimalismo, pelo menos, no meu minimalismo, me move a crer que as crianças da fotografia são as mais felizes do mundo. E você, leitor, somente você poderá integrar este grupo, caso se permita se aventurar a sentir a obra, a viver a obra pelo seu redor e também pelo seu através. O que você decide neste instante?

 

No horário de verão

Caroline Alciones

 

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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