Em um triste momento de eleições no qual as opções são inválidas e no qual se diz haver a possibilidade do exercício da democracia, após o inverno de 2013 quando se queria acreditar que a população vivia um momento de aprendizado politizado nas ruas, trago uma reflexão acerca do museu enquanto espaço onde processos de aprendizado ocorrem com o conceito de mediação se apresentando contundentemente. O termo “mediação” parece bastante arraigado no trabalho da instituição, que enfaticamente corrige qualquer tentativa de emprego da antiga expressão “visita guiada”, repelida como impositiva, hierárquica e de conotações turísticas, não dando conta de expressar o trabalho educativo do museu. Assim, somos apresentados a outra possibilidade de nomenclatura – “mediação educativa” – considerada redundante, pois segundo as teorias, mediação pressuporia educação, sendo, portanto, dispensável a palavra “educativa”, reduzindo-se a expressão à “mediação”.

 

A instituição parece compreender um caráter educativo em uma atividade que varia entre uma e duas horas e cujos desdobramentos tendem ao desconhecido. Os grupos, invariavelmente observados como uma massa única, têm suas singularidades e seus conhecimentos prévios desconsiderados por quem conduz o processo de mediação. O nome da educação e sua aura de coletividade parecem justificar o discurso institucional de benefícios à sociedade, quando as individualidades deveriam ser percebidas com respeito ao coletivo e não negligenciadas pelo discurso daquilo que sugere o politicamente correto.

 

O revigoramento da instituição que se busca imprimir através de suas atividades educacionais se assemelha às mudanças sugeridas pelo artista francês Daniel Buren a respeito das transformações no campo social da arte – “a vocação daquilo que está na superfície é ser incessantemente transformado; e, enquanto a base não é afetada, é óbvio que nada é fundamentalmente – basicamente – transformado”. A compreensão de haver um certo ou um errado em se tratando de arte se revela no discurso de seus guias, como quando ao adentrar o salão principal de um museu como MAC-Niterói, diante de uma exposição temporária, o guia sugeriu que o grupo passasse livremente pela exposição e, ao final, recorressem aos encartes que se encontravam nos bancos no centro do salão para saberem se haviam pensado “certo ou errado”.

 

Nesses processos educativos, parece se tomar por empréstimo o nome educação, suas ideias e seus conceitos, em prol de um vago desenvolvimento humano, fundamentado em discursos inconsistentes de supostos benefícios para a sociedade. A aplicação desses conceitos se apresenta frágil e inconsistente, se não fictícia, na tentativa de assentar sua relevância no campo da arte e da educação, buscando banir palavras como “guia” e “guiada” de um repertório conceitual, as quais, no entanto, permanecem francamente presentes nas práticas institucionais.

 

O conceito de mediação empregado por instituições museológicas, entre as quais o MAC-Niterói, se define como uma espécie de ponte entre artista/obra de arte e público. Essa ponte pretensamente constituída pelo museu viabilizaria o acesso a bens culturais. O setor educativo promoveria e facilitaria a relação entre obra e público através de seus “educadores”, aqueles que personificam em palavras e gestos o projeto de mediação da instituição. Ao conjeturar sobre mediação, é prática corrente dos setores educativos dos museus de arte recorrer, em sua fundamentação teórica, a Lev Vygotsky, conforme pudemos verificar no MAC-Niterói. Contudo, esse conceito proveniente da educação parece ser aplicado a partir de uma compreensão dicionarizada do termo, absolutamente distante dos processos de aprendizado relacionados à ciência cognitiva, conforme preconizado por Lev Vygotsky.

 

O (re)batismo de mediação não apaga a atividade das visitas guiadas, mas busca conservar a ordem da instituição e revigorar seu funcionamento e sua posição com aquilo que se nomeia de diálogo com a sociedade. As concessões feitas à sociedade, os elogios ao momento de junho/julho de 2013, as promessas de aproximação entre políticos e sociedades não passam de um ledo engodo a premiar seja com R$10,oo diários para quem distribui panfletos ou com uma consulta médica ou com um lata de leite ou com um salão de festas no bairro daqueles que pouco tendo, oferecem seu voto em troca de uma suposta aproximação a partir de tais benefícios que longe de serem vitais, parecem conferir uma importância a um povo com uma autoimagem tão destruída e que vê no seu voto um momento de sua valorização, em plena era do Big Brother, crendo que tem o poder eliminar ou de eleger alguém.

 

Farta de processos “mediativos”

Farta de eleições como esta

Com 1 ano a mais na identidade

Caroline Alciones

 

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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