Cildo Meireles, Inmensa, aço, 400 x 810 x 445 cm, 1982 - 2002. Foto: Tibério França

Após a imensidão do céu de nossa última crônica, nesta semana proponho uma reflexão sobre a imensidão em outras esferas da vida. Algo que parece maior do que eu e você. Aquilo que, sendo imenso, é capaz de nos engolir, nos subjugar de tal forma que muitas vezes parece não haver escapatória? Parece.

O artista falou que sobre seu trabalho não é fácil falar, que os críticos nunca acertam, por mais que tentem. E o que é isso de falar do trabalho do artista? Mas o trabalho do artista não fala da vida? Mas de que vida? O que é esse trabalho? Por que tanta gente querendo tirar foto com ele? Mas por quê? Fazer o quê com a foto? Ah, sim… lembrei, vai para o álbum da vida perfeita que todos possuem virtualmente. Essas mesmas pessoas também queriam escalar o trabalho do artista. Mas por quê? Talvez pelo simples do fato de que, conforme contava o Bruxo do Cosme Velho nas memórias póstumas de Brás Cubas, as pessoas parecem buscar sempre pela troca de posição no sistema no qual estão inseridas em caso de sua posição não ser a superior. Assim que, estando em baixo, estando por baixo, querem mesmo é subir. Ir lá em cima. Tal qual o escravo que Brás Cubas que sendo liberto, subiu na vida. Comprou um sapato, um escravo, um chicote e pôs-se na lida de chicotear.

Parece ocorrer que, estando por baixo e mirando que há um alto, um em cima, as pessoas teimam por lá chegar. Teimosia essa que parece sustentar no alto aqueles que ao alto pertencem. No alto, a lei da gravidade é mais grave. O sustento do peso e das dimensões daqueles que lá estão dominam com maestria e doutoramento as leis da física. A física de pisar e de se equilibrar sobre os médios que, por sua vez, se apoiam e pesam mais e mais sobre os menores. Leis tão certas, tão óbvias que mais e mais parecem pertencer à natureza, à gênesis da vida.

Mas o trabalho do artista se apresenta. O trabalho do artista se coloca. O trabalho do artista representa. Alguém olha. Outro compra. Alguém vê. Outro tira foto. Alguém enxerga. Alguém pensa e não compreende. Não o trabalho, mas como a vida pode passar assim, desse jeito. Alguém pensa: mas há o artista, há o dissenso. E se as leis da corrompida física objetivam, por manutenção de ordem, o estabelecimento do consenso de que os maiores pertencem às alturas sob o sustento de menores ou daqueles que sendo grandes são achatados pelo peso daqueles que lhe pisam, há porém o artista que observa a vida.

Há o artista que sendo das artes e vivendo a vida-vida é capaz de ser o dissenso pelo simples da representação. Dissenso que em palavras de Chantal Mouffe, nos faz compreende que somente o agonismo é capaz de fazer a todos grandes sem que se pese e pise sobre o outro. Dissenso que compreende a oposição por adversários como produtiva pelo simples do óbvio de que a oposição é produtiva e criativa quando se há abertura e possibilidade de penetração daquilo que o outro tem a nos oferecer. Dissenso que compreende o ganho na escuta e na troca em oposição ao consenso que pretende gritar a palavra de ordem a ser seguida, engolida e que, querendo impor-se sobre os demais, considera o desvio como o inimigo a ser combatido e demolido.

Tal é a imensidão do poder da arte capaz de interromper o fluxo de pensamento do banal do cotidiano com o absurdo do mesmo cotidiano. Deixar as fotos de lado e se permitir transitar de corpo e alma pelo trabalho de Cildo Meireles – Inmensa – propicia questionar que mundo é esse no qual vivemos; quais os sistemas que funcionam neste mundo; qual a minha posição neste sistema; o quanto estou embrenhada nele ou não; e se não, o quanto esse sistema se tornou perigoso a mim e tenta me retirar de ação.

O trabalho permite pensar o quanto o artista possui a possibilidade de trabalhar no desvio. Talvez o artista seja um ser heterotópico. Um ser que existe refletindo no espelho de suas críticas representações do sistema de sua sociedade. O artista tem esse respeito, poder e responsabilidade de ser tratado como louco e desviado por ter a coragem e ousadia de dizer na cara da sociedade o que ela tem, o que ela é. E sendo o artista esse ser que existe em todas as culturas, tal qual as heterotopias descritas por Foucault, sendo assim aquele que tem a coragem e o poder de dizer o que precisa ser dito, o artista também é, em muitas vezes desconsiderado e zombado pela força da verdade das palavras que diz.

Mas Cildo, artista de consistência e respeito irrefutáveis, a sociedade teve de reconhecer e respeitar. Artista cuja obra é capaz de refletir um passado de ditaduras e torturas, mas também um presente de (dis)simulações. À Inmensidão de Cildo, minha admiração. Aos artistas do ordinário que atuam no camuflar do anônimo cotidiano, meu respeito. A arte, minha inescapável dedicação em não desviar do desvio que sou.

 

Cildo Meireles, Inmensa, aço, 400 x 810 x 445 cm, 1982 - 2002. Foto: Tibério França
Cildo Meireles, Inmensa, aço, 400 x 810 x 445 cm, 1982 – 2002. Foto: Tibério França

 

Curtindo o quente do janeiro,

Cildo, me aguarde,

Caroline Alciones

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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