Na última semana, foi divulgada uma pesquisa sobre os hábitos culturais dos brasileiros. O Panorama Setorial da Cultura Brasileira 2013-2014 buscou compreender quais tipos de produtos e serviços culturais são consumidos e as motivações para a prática. As organizadoras da pesquisa, a doutoranda em Comunicação e Práticas de Consumo pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-SP), Gisele Jordão, e a especialista em Bens Culturais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Renata Allucci, já haviam apresentado outro diagnóstico há dois anos, o Panorama Setorial da Cultura Brasileira 2011-2012, dessa vez analisando os agentes (artista/produtor/gestor) e os viabilizadores (governo/iniciativa privada) da cultura artística no Brasil. As autoras pretendem realizar uma terceira investigação entre 2015 e 2016 para observar um terceiro grupo, os difusores, a fim de compreender suas contribuições para o setor cultural. Sem dúvidas, tais análises se configuram como indicadores relevantes que devem ser apropriados por gestores para a construção de políticas que supram determinadas carências encontradas.

A seguir, faço uma apresentação da pesquisa, com caráter mais descritivo que crítico. Alguns temas abordados devem ser retomados em textos futuros, dada a abrangência e riqueza dos dados. Para você que estuda ou trabalha no setor cultural, indico a leitura completa do material. Antes de apresentar os indicadores, as pesquisadoras fazem uma delimitação teórica dos conceitos fundamentais para o estudo, como o de sociedade contemporânea, cultura, consumo, apropriação cultural e marketing cultural, o que permite uma reflexão aprofundada sobre a natureza dos dados que seguirão.

A pesquisa

De outubro a novembro de 2013, 1.620 pessoas de 16 e 75 anos foram entrevistadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nas cinco regiões do país, em 74 municípios com mais de 100 mil habitantes. Questões específicas sobre hábitos, gostos e frequência (quais práticas culturais você mais gosta? Quais você mais pratica?) foram apresentadas ao público, indicando que as atividades praticadas em casa têm maior adesão por parte dos consumidores brasileiros. Verificou-se na investigação que apenas 58% dos entrevistados realizou práticas culturais fora de casa com frequência no último ano. Em números gerais, destacam-se como as atividades mais citadas: frequentar alguma religião (42%), cinema (38%), restaurantes como atividade de lazer (34%), passear no parque (30%), viajar dentro do Brasil (25%), show de música popular (20%) e festas regionais/típicas (20%). Aparecem como atividades intermediárias a frequência a lojas de CD e DVD (19%), feira de artesanato (13%), livraria (13%) e o carnaval (12%). Estão entre as atividades menos citadas os eventos esportivos (9%), circo (9%), teatro (9%), musical (7%), igrejas históricas (6%), cidades históricas (6%), bibliotecas públicas (5%), museus e galerias (4%), centros culturais (3%) e show de música instrumental (2%).

Naturalmente, diferenças entre as regiões foram verificadas na pesquisa. O Nordeste, por exemplo, está acima da média em relação à prática religiosa (48%) e festas regionais (25%) e abaixo da média na frequência ao cinema (26%). Em geral, a região Sudeste é a que mais tem o hábito de práticas culturais, seguida pela região Nordeste e Centro-Oeste. Na região Norte, todas as atividades são praticadas abaixo da média nacional, com exceção da participação em festas regionais, que se apresenta igual à média. O Sul também fica abaixo da média, com exceção do cinema, que supera o hábito nacional.

A riqueza da pesquisa está em explorar o perfil do público, entendendo que só assim poderá compreender as diferenças no consumo. Além de questões sobre gênero, faixa etária, classe econômica, estado civil, grau de instrução próprio, do companheiro e dos pais, ocupação, quantidade de filhos e quantos moram na mesma casa, renda familiar e prática religiosa, tiveram espaço perguntas mais aprofundadas. Em relação à experiência e vínculo com outras culturas, questionou-se: você vive no mesmo estado em que nasceu? Qual a origem dos pais e avós? Morou fora do país? Para saber sobre as experiências na infância: quais as práticas dos pais dos entrevistados quando estes eram crianças? Em quais atividades os entrevistados eram levados pelos pais? No que se refere à aproximação com artistas: você tem algum parente que é músico? Você pratica alguma atividade artística? Em relação ao tempo livre: quantas horas você dedica a atividades de lazer, informação, diversão e prazer? Em relação à companhia para as práticas: você consome atividades culturais acompanhado? Quais as companhias priorizadas?

Uma categoria específica de perguntas – Influências na decisão de consumo – fornece dados interessantes sobre os brasileiros. O que leva alguém a sair de casa para o consumo cultural? Na distinção entre a busca por conhecimento ou emoção, o primeiro é priorizado (56%). Na distinção entre a novidade e aquilo que já previamente conhecido pelo público, há uma divisão equilibrada. No que se refere aos benefícios esperados ao consumir cultura, nota-se o grande peso da variável distração e relaxamento: ser divertido (21% das citações em primeiro lugar) e provocar fortes emoções (21% das citações em primeiro lugar) são atributos que se espera da prática consumida.

A partir do comportamento de consumo das atividades culturais mapeadas, a pesquisa dividiu o público em quatro categorias: o não consumidor de cultura (42%), o consumidor de cinema (33%), o consumidor de festas (15%) e o praticante cultural (10%). Vale a pena conhecer cada perfil:

O não consumidor pratica atividades culturais muito abaixo da média nacional. Em geral, é maior de 55 anos, casado, com filhos maiores de 18 anos, aposentado, seus pais tiveram baixa escolaridade. Frequentou mais de uma vez no último ano alguma atividade religiosa. Assistir programas de TV e ouvir rádio são as outras atividades preferidas. 28% (alta incidência, considerada a média nacional) buscam atividades que despertam fortes emoções e sejam semelhantes às que costuma realizar. A indicação de pessoas próximas é um fator que também influencia o processo de escolha.

Os consumidores de cinema são, em sua maioria, moradores do Sul, de 16 a 24 anos, pertencentes à classe B. Enquanto em média 38% da população brasileira teve acesso a uma sala de cinema no último ano, nesse grupo a porcentagem sobre para 93%. Essas pessoas, no entanto, estão abaixo da média brasileira no consumo de outras práticas culturais.

O consumidor de festas é, em geral, homem, solteiro, com renda entre um e dois salários mínimos, classe C, morador do Norte e Nordeste, de municípios de menor porte. Enquanto em média 21% da população brasileira frequentou festas no último ano, nesse grupo a porcentagem sobe para 63%. Este grupo procura realizar só programas gratuitos.

O praticante cultural supera a média nacional na frequência a todas as atividades. Enquanto 2% da população assiste a shows instrumentais, 18% desse grupo realiza esse consumo, por exemplo. Ele está concentrado nas regiões Nordeste e Sudeste, nas capitais e regiões metropolitanas, e faz parte da classe A. Existe uma grande incidência de pessoas que afirmam que os pais realizavam várias atividades culturais, estimulando diretamente os filhos. Eles possuem internet, TV por assinatura, celular, tablet e computador para uso próprio. 42% (alta incidência, considerada a média nacional) buscam atividades que ampliem os conhecimentos e sejam diferentes das que conhece. É o grupo que mais gosta de teatro, musicais e livrarias, atividades pouco realizadas nacionalmente, como visto.

O que é cultura para os brasileiros?

A pesquisa também buscou compreender a percepção dos entrevistados sobre cada uma das atividades analisadas e quais associações fazem entre elas e a noção de cultura. Afinal, o que o brasileiro entende como cultura? Essa percepção tem o poder de influenciar o seu gosto, a sua frequência e motivações para o consumo cultural? A metodologia estabeleceu que os entrevistados realizassem livre associação entre as atividades e as ideias de diversão, informação e cultura. Cada pessoa podia relacionar a cada atividade uma, duas, três ou nenhuma destas ideias.

Curiosamente, entre as atividades mais praticadas pelos brasileiros, apenas a religião foi associada de algum modo à ideia de cultura, geralmente em conjunto com a ideia de informação. As outras atividades mais realizadas pelos brasileiros fora de casa no último ano (ir ao cinema, ir ao restaurante como lazer, passeios em parques, viajar pelo Brasil, ir a shows de música popular e ir a festas regionais) foram associadas à diversão. As atividades praticadas em casa mais populares (assistir TV e ouvir rádio) foram associadas à informação e diversão, enquanto acessar a internet foi associada apenas à informação.

É interessante notar que, excetuando-se a religião, todas as outras atividades relacionadas de alguma forma com a ideia de cultura – individualmente ou mesmo em conjunto com informação ou diversão – são as menos realizadas no último ano e as menos gostadas pelos entrevistados (eventos literários, feira indígena, museus e galerias, exposição de fotografia e pintura, ópera, espetáculo de dança, entre outros). As pesquisadoras fazem três conclusões pertinentes sobre isso: a) a noção de cultura da população é de algo que não faz parte do cotidiano ou que se tenha experiência, ou seja, a ideia de erudição ainda faz parte da noção de cultura do brasileiro. b) Ao não unirem as três ideias para identificar as atividades, as pessoas carregam a visão de que cultura não é algo associado à informação e à diversão. c) O fato de ser a única prática associada à cultura reforça que a religião concorre com as práticas culturais diretamente.

Listo a seguir outras considerações finais da pesquisa:

1. O consumo de atividades culturais ainda é realidade distante da maior parte dos brasileiros.

2. Existe uma grande relação entre o envolvimento que os pais tinham com atividades e o que o indivíduo apresenta. As atividades que são mais realizadas já o eram desde a infância.

3. A prática religiosa realiza as necessidades de inclusão social e, também, é grande formadora de sentido para os brasileiros.

4. Quanto menor a faixa etária e maior a classe/renda e o grau de instrução, maior a tendência em realizar atividades ligadas à cultura.

5. Quanto maior a proximidade dos indivíduos com práticas culturais, maior o interesse em ampliar seus conhecimentos por meio de novas atividades culturais. Ou seja, quanto mais consomem, mais ecléticos se tornam.

5. O principal motivador que alavanca a prática cultural é a percepção da diversão durante o consumo da atividade, o que se confirma em todos os segmentos encontrados, ainda que o entendimento de diversão seja subjetivo e mereça ser melhor explorado.

A citação de Canclini no livro Consumidores e Cidadãos apresentada pelas pesquisadoras no início do Panorama dizem sobre o estudo e o que pode ser feito com ele daqui pra frente: “As políticas culturais mais democráticas e mais populares não são necessariamente as que oferecem espetáculos e mensagens que cheguem à maioria, mas as que levem em conta a variedade de necessidades e demandas da população”. A análise dos múltiplos perfis dos consumidores de cultura no Brasil diz tanto sobre seus interesses quanto sobre suas demandas. O desejo é de que a construção de indicadores avance para que possamos conhecer melhor as necessidades culturais brasileiras, inclusive para além das regiões metropolitanas, o que o recém-criado Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais (SNIIC) deve conquistar nos próximos anos. Uma aposta: no perfil das cidades abaixo de 100 mil habitantes, os consumidores de cinema não serão tão numerosos a ponto de formar uma categoria, afinal, lá não há cinema.

Adriana Santana
Em trânsito permanente entre o sertão e o litoral baiano, gosta dos dias quentes. Geminiana, com ascendente em Áries e Lua em Aquário, respeita a astrologia. Podem acusá-la de patriota, uma vez que prefere cinema, literatura e música nacional. No entanto, não é bairrista: gosta de sotaques e só viaja para ouvi-los. Na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), se formou em Produção Cultural. Profissionalmente, desenvolve projetos culturais comunitários e presta assessoria de comunicação para eventos. Academicamente, estuda Cultura e Território e Políticas Culturais. Apaixonada por conversas, ainda que despretensiosas, acredita no diálogo e no trabalho colaborativo.

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