Muito já se falou a respeito de publicações independentes. Inclusive aqui, é lógico, quando falei das plataformas de financiamento coletivo voltadas para a literatura. No entanto, quando tratamos da publicação independente — isso é, removida das lógicas de produção das grandes editoras especializadas, mas uma publicação encabeçada pelo próprio autor da obra — acabamos tendo de pensar em duas esferas distintas: a produtiva (o processo editorial; a questão comercial) e a literária (o produto propriamente dito, a obra cultural, a arte).

Ao contrário do que se pensa em alguns círculos, no entanto, essa dicotomia não é independente ou pouco entrelaçada: acaba sendo verdade que as lógicas de produção são causais e consequenciais para o resultado final do produto literário, por motivos que não são lá difíceis de compreender.

Não é difícil imaginar, por exemplo, que quando se publica por uma grande editora, ganha-se um input valioso de um editor já experiente, com conhecimento artístico e mercadológico que pode ser útil tanto à obra quanto à construção de uma carreira autoral; é por isso que, por um lado, recomenda-se aos aspirantes à publicação independente que se contrate uma equipe profissional para conduzir o processo editorial: da revisão à edição, do copidesque à leitura crítica, todos os profissionais que, dentro da lógica produtiva de uma editora profissional, podem se responsabilizar por um polimento do material literário originário fornecido pelo autor.

É por isso que, também por um lado, certos especialistas nutrem pessimismo em relação ao crescimento das possibilidades — trazidas pela tecnologia recente e tornadas mais acessíveis a cada dia — de autopublicação. Se antes um aspirante a autor teria de desembolsar quantias consideráveis ou tentar por cada meio possível conseguir a atenção dos editores para poder ver seu produto impresso nas livrarias, hoje em dia os caminhos alternativos são abundantes. Hoje, nem tudo o que é publicado, como outrora, passa pelo crivo e triagem de editores de aquisição, perde-se  a celebrada curadoria cultural realizada por profissionais da área.

E, enquanto alguns veem isso como um potencial negativo — pois, segundo suas defesas, acaba permitindo a publicação de material de qualidade duvidosa que afoga em seu mar as “pepitas”, além de poder trazer ao meio literário um sucateamento do nível geral das obras disponíveis –, outros enxergam nessas possibilidades justamente o contrário. Estes, por sua vez, veem nas pretensões de curadoria editorial a concentração das opções possíveis de leitura da população nas mãos de poucos profissionais, que dessa forma decidiriam o que seria a literatura aceita, inibiria uma maior diversidade cultural e conduziria a construção de uma imagem da literatura segundo seus próprios interesses — não necessariamente o mérito artístico como o maior deles.

Contudo, em uma situação na qual o mercado livreiro continua inóspito para autores estreantes — e isso meramente por questões mercadológicas, mais do que má-fé ou malícia por parte de seus profissionais — é necessário para os aspirantes procurar por alternativas viáveis para tornar seus nomes conhecidos. Como em qualquer mercado cultural, afinal, é através da construção de uma audiência que a arte de um estreante pode se tornar atraente para nomes maiores do mercado, que, pela sua própria dimensão, muitas vezes não podem se dar ao luxo de arriscar a torto e a direito, sob o risco de prejudicar sua operação.

Qualquer rápida acessada em plataformas como a Amazon (com seu sistema Kindle Direct Publishing) e Wattpad, além dos previamente citados em outros posts Catarse e Kickante, já demonstra como a internet vem sendo instrumental para a construção de alternativas de publicação independente para estes autores. Através da web, de e-books ou de propostas de financiamento coletivo, que os colocam em contato direto com o leitor sem necessidade dos já consagrados intermediários, pode-se, mesmo com um alcance inicial menor e deficiência em potencial publicitário, angariar uma audiência — possivelmente crescente — e, quem sabe, manter-se independente ou procurar uma estratégia mais convencional de publicação.

Se foi o caso de hoje autores já carimbados no grande mercado como Eduardo Spohr e o seu A batalha do Apocalipse, hoje pode-se ver centenas de autores procurando seu lugar ao sol, variando de gêneros e indo do romance à fantasia, como podemos averiguar nessas plataformas ou até mesmo em eventuais feiras de publicação independente. Para manter o crivo de qualidade cuja falta muitas vezes afasta públicos, escritores como tais vêm contratando os serviços especializados dos profissionais da área, encaixando sua produção, mesmo que produzida de forma autônoma, em uma escala mais profissional de atuação.

A era tecnológica apresenta possibilidades fundamentais: hoje não é mais necessário  (e quiçá nem mesmo possível) imprimir seu livro e ir de livraria em livraria, convencendo-as a consignar sua obra, para conseguir um primeiro resultado e trilhar o caminho da carreira literária. Hoje, pode-se ser um autor independente e, assim, dar seus primeiros e próximos passos em direção a um bom futuro.

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Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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