A existência esta diretamente relacionada com o espaço, e o espaço por sua vez influencia a todo instante as identidades que a existência evoca e requer quando vivemos em Sociedade. Entender esses Processos de maneira crítica é uma necessidade, uma vez que em teoria nos são oferecidas todas as possibilidades de existir e liberdade de ser.

Ao nos questionarmos sobre isso podemos vislumbrar mais que uma teoria, mas um caminho para que a liberdade e autonomia nas escolhas identitarias seja uma prática e realidade.

As cidades são tão construídas de viadutos, pontes e estradas quanto de pessoas, significados e relações. As maneiras de apropriação do território estão intimamente ligadas à cultura e as identidades locais e – porque não? – globais que transitam por determinado espaço. Essas apropriações não são inocentes e sempre serão em parte políticas, uma vez que vivemos na polis.

Existe uma metáfora que me agrada bastante para pensar nessas dinâmicas, que é pensar nas cidades como grandes mercados – talvez inspirada pela economia de bens simbólicos de Bourdieu – onde em cada sessão pudéssemos escolher identidades que nos agradassem, ao mesmo tempo, porém, os “produtos” ali disponíveis já foram pré selecionados anteriormente. Esse mercado simbólico possui tanto itens locais como globais, com corredores de sexualidades, religiões, times de futebol, posições políticas, etc.

Produtos e significantes que, supostamente, devem interpelar seu “comprador”, que se identifica.

Nesse exercício penso em como o território influencia a disponibilidade desses itens, que são no fundo as identidades. É como se o próprio espaço, e as possibilidades de interações que ele permite, ditasse quais identidades são bem-vindas e toleradas.

Quais seriam os corredores que nos permitem exercer nossa fé? Quanto temos que pagar a mais para sermos mulheres e poder ir a uma festa e voltar sozinha em segurança?

No corredor de sexualidades me pregunto, quantas estariam disponíveis e para quem?

Nos corredores seletivos e pequenos de educação e pensamento crítico, quem seria aceito como consumidor?  Que identidades seriam permitidas circular nos corredores onde se toman decisões importantes? Quem não seria tolerado?

As identidades são seletivas e excludentes e as sentimos assim quando nos colocamos à prova. Acredito que isso acontece em todas os lugares: quando sou negra e pobre no Brasil, quando sou muçulmana na Europa, quando sou a Grécia e a zona do euro me quer fora dali.

Qual peixe você quer comprar?

Quando assumimos uma identidade compramos suas causas?

Talvez em identidades que estão mais em evidência isto seja mais aparente. Quando falamos das questões sociais e de identidade de um grupo específico, na realidade podemos falar de muitos outros ou todos que permeiam pelas mesmas questões básicas. Por exemplo, uma vez usando a teoria feminista nem sempre falamos “só” das questões ligadas ao gênero feminino, o seu aporte teórico nos vale para outros entendimentos da sociedade e suas características.

Voltando ao supermercado, como poderíamos subverter a lógica de existir de uma maneira a qual não é permitida em um território?

Com as discussões sobre intolerância religiosa, maioridade penal, homofobia e os abusos constantes que as mulheres sofrem na cidade, acredito que uma reflexão profunda é urgente. São tantos absurdos que leio e vejo por aí que só posso acreditar que têm muita gente achando que é o aniversário do Guanabara e além de comprar gato por lebre, se valem de justificativas baratas para sufocar a identidade do outro e cercear a existência alheia.

Há pouco mais de duas semanas, uma pessoa querida foi brutalmente assassinada em uma festa. No dia seguinte passei 3 horas em um engarrafamento em um caminho que levaria 40 minutos, porque assassinaram uma pessoa no meio da rua, e o pior é que nos vendem isso como sendo algo normal. Não é.  Quantas identidades e acontecimentos nos são vendidas como normais e que na verdade são construídas para a gente engolir como sendo assim.

Nesses tempos difíceis, lembrar que existem outras possibilidades de existir e reivindicá-las, talvez seja a coisa mais certa e transgressora a se fazer. O que você vai comprar hoje?

Eu peguei minha bolsa e fui dar aula em Vila Kennedy. Eu coloquei meu short e tênis e fui caminhar no aterro. A cada passo me sinto com medo e mais insurgente: todo mundo diz que eu não poderia estar ali.

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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