Casal de idosos na praia
Ron Mueck
Fonte: Diário24horas

Em janeiro de 2013, na cidade do Rio de Janeiro, a exposição impressionista com acervo do Museu d’Orsay, antes mesmo de se fazer a conhecer pelo seu público, já o impressionava tanto que uma fila quilométrica, sem nenhuma hipérbole, dava voltas no Centro Cultural Banco do Brasil, chegando às margens da baía de Guanabara e seguindo pelas ruas e vielas da localidade. Fila para show de ídolo teen nenhum colocar defeito. Os telejornais foram ao local para investigar o porquê de tanta comoção. A persistência de tanta espera foi justificada pelo público ansioso, ocioso e em forma com respostas que variavam entre “é uma oportunidade de vermos algo importante”, “falaram que é importante, resolvi vir conferir” a “todo mundo tá vindo, resolvi vir também”.

No outono deste 2014, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro passa por semelhante frisson, causado pela exposição de Ron Mueck, australiano radicado na Grã Bretanha. A massa se agita e paga pelo ingresso para ver as esculturas de grandes dimensões e de incrível precisão em comparação com corpo humano. Chamamos o público de massa e não de multidão em uma aproximação a Antônio Negri, segundo quem a multidão seria a imanência, um conjunto de singularidades não-representáveis. Por outro lado, a massa seria um conceito de multiplicação indefinida de indivíduos, um conceito de medida construído pela política econômica do trabalho. Se a multidão pode ser considerada um ator social ativo e organizado, a massa seria justamente aquele número indiscriminado de pessoas que caminham muitas vezes em movimento de hipnose sem saber bem ao certo o porquê de seu caminhar.

Chamamos a atenção para o conceito de multidão e de massa no sentido de que a multidão se faz interessante no sentido de ser rica de singularidades e de ser potência não-manipulável. A massa, ao contrário, precisa ser repensada para que não tenhamos indivíduos teleguiados que entram em uma fila simplesmente porque … porque… porque todo mundo está na fila. É inegável a importância dessas grandes exposições no que concerne ao cenário das artes plásticas, contudo, é inegável também a importância de nos questionarmos o porquê de tomarmos determinado caminho. Somente caminhar, nos faz apenas mais um.

Talvez um dos aspectos mais importantes de uma experiência em uma exposição seja justamente a afetação que se permite com a obra de arte, a experiência com aquilo que nos desloca de nosso lugar comum ou mesmo que por ser tão compatível com nosso cotidiano, quanto o é nosso próprio corpo, que toma proporções outras e nos faz ter mais consciência de quem somos, de como existimos, de como nos vemos de como vemos o outro ou de como não vemos o outro nem a nós mesmos.

A pergunta que proponho é – o que vemos na exposição? E outra – o que realmente vemos quando vamos a alguma exposição?

Há correntes que acreditam que as visitas às exposições são mais eficazes quando feitas em grupo. As redes sociais também parecem partilhar desta visão, pois ir à exposição parece ser sinônimo de foto na exposição com o amigo que é cult e que, por sua vez, alimenta a hiper-realidade cotidiana do Facebook de perfis inteligentes, cultos, que sempre fazem passeios interessantes, que sempre, ou quase estão acompanhados, que são felizes e que, acima de tudo, compartilham isso com o mundo. O que de fato conseguimos ver em uma exposição quando nossa atenção se volta a tantos elementos (a foto, o amigo, a postagem no Facebook, os comentários sobre as fotos que já começam a pipocar, a pizza que vem depois, …)?

Os estudos das ciências sócio-cognitivas nos revelam que a construção do conhecimento por mais que seja socialmente situada é individual. Então, por mais que a conversa sobre determinado trabalho de arte possa vir a ser importante para a fruição e que o meio e as pessoas ao redor afetem a interação, como não atentarmos que a relação que estabelecemos com o trabalho de arte é, antes de mais nada, individual? Muitas vezes, nossa relação com a obra acaba por ser negativamente afetada pela quantidade de elementos que disputam nossa atenção. Essa hiper-realidade de exposição não somente de obras de arte, mas da vida que se quer glamourizar para a sociedade não é algo recente, mas conforme os estudos na nova museologia já apontavam, ocorre desde os anos 1990. Os indivíduos optam por ir à exposição acompanhados como forma de construção de um status social que muitas vezes parece importar mais do que qualquer experiência.

Busquemos o quê de melhor pode haver nas hiper-realidades. Uma ótima semana a todos!

Waiting for Godot
Caroline Alciones

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

1 COMENTÁRIO

DÊ SUA OPINIÃO