Bem que podia, mas não é o título de um oitavo volume da série de livros. Não; Harry Potter se encerrou em 2007, com a publicação em território britânico de Deathly Hallows, a ser seguido por vários livros sobre o fenômeno: os livros, os filmes, os livros sobre os filmes, os filmes sobre os livros, os spin-offs, making ofs, strogonoffs, o que mais há no cardápio? Chega a insultar a inteligência alheia ter de afirmar que tudo se desenlançou em um fenômeno de escala global que durou por certo tempo, o saldo ainda rolando mundo afora, e o que o futuro aguarda, ainda incerto…

imageMas o saldo que já temos é uma potencial geração de leitores que, no final das contas, acabou bem que sendo formada por Harry Potter. Para começar, os livros já são amplamente considerados aqueles que abriram as portas de produtos mais longos para crianças e adolescentes. Se antes não se acreditava que um jovem no auge de seus quatorze anos fosse encarar uma leitura que alcançasse as quatrocentas páginas, hoje já é comum que vejamos coleções faraônicas de livros por parte de alguns autores voltados para este meio. Papo vai, papo vem, talvez tenha sido o responsável por consolidar os gêneros que viriam a se tornar o juvenil e o young adult no mercado contemporâneo. Abriu as portas da percepção. Atraiu, com seus primeiros livros, os leitores e tratou de crescer com eles.

 A série de sete livros foi publicada de 1997 a 2007 no Reino Unido, acompanhando um espaço de mais ou menos sete anos dentro da história em dez na vida real. Foi o bastante. A cada livro, víamos o número de páginas se ampliar gradativamente e, enquanto o personagem ia ficando mais velho, os temas da história, já não tão leves, tornando-se gradativamente complexo. Ora, nada mais natural, não é? O personagem ganhava seus anos a cada novo começo, acompanhado por um leitor um pouco mais velho que aquele que carregava o anterior em suas mãos.  Ele estava preparado, ou melhor, já esperava por algo um pouco mais complexo, o próximo degrau na escada.

Talvez este seja um dos maiores trunfos da série em seu período de lançamento original, algo de acompanhar a história no momento de sua concepção e que não poderá se repetir agora que o todo está imediatamente disponível para quem pegar a série para ler nos dias de hoje. Aquela geração que cresceu lendo Harry Potter foi uma que pôde crescer com os livros, acompanhando a progressão de um mundo encantado às mazelas da adolescência até as eventuais crises pessoais e dilemas de ter de se tornar completamente emancipado, responsável por seus próprios atos. Não à toa, o quinto livro tem mais que o dobro do tamanho do primeiro; Rowling sabia que seu público crescia com seus personagens, sabia que estavam preparados para algo mais pesado (como, de fato, os livros foram se tornando).

E talvez este seja mais um dos motivos pelos quais aquele que acompanharam o crescimento do jovem bruxo quando eles mesmos eram jovens sintam tamanho carinho nostálgico pela série em seu coração. Talvez seja como aquele seu amigo cujas peripécias você foi capaz de acompanhar por alguns anos, o amigo que sumia por longos períodos, apenas para retornar com mais um ano de aventura.

order-of-the-phoenix-new-cover-630É claro que não é o único ponto de interesse: os temas tratados eram relevantes e de fácil identificação para os adolescentes, o senso de maravilha criado pela história segurava um mundo mágico e escondido de pé, a leitura fácil que vai se dificultando progressivamente, ora, tudo contribui. Pode-se dizer que, por tudo isso, Harry Potter foi um formador de leitores como nenhum outro e como vários hoje em dia ainda tentam ser. Quantos não tentaram desbancar seu sucesso como a “série do momento”, apenas para cair na obscuridade poucos anos depois? O fenômeno do bruxo, que movimentava fóruns e comunidades globais em suas discussões, teorias, artes e fanfics não é único em gênero, mas talvez o seja em escala.

Conforme mais filmes estão sendo produzidos e mais spinoffs estão a caminho, ainda não temos como averiguar um saldo final de Harry Potter no mundo e na cultura pop, mas já temos o resultado parcial: uma imensa fortuna para Rowling, um grande número de leitores para o mundo dos livros. Alguns deles ficam no segmento, caminhando de mãos dadas com os livros Young Adult; outros, talvez, só tenham lido isso; outros, ainda, leem de tudo um pouco. A questão é ter criado a paixão pela ficção, pela literatura, por ter visto, quem sabe pela primeira vez ou a mais importante, que a leitura pode ser uma baita atividade de lazer.

Isso é ótimo.

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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