teatro1 (1)Nesta última quinta-feira, o Grupo Corpo, após Minas e São Paulo, estreou seu espetáculo de comemoração aos 40 anos da companhia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Com todas as cinco apresentações da temporada esgotadas, o grupo de Minas Gerais reafirmou porque está a tanto tempo na estrada fazendo sucesso. O programa conta com dois balés inéditos Suíte Branca e Dança Sinfônica.

O programa, distribuído gratuitamente e embalado por um pôster com 1080 fotos da companhia, careceu de uma explicação das coreografias. São duas as razões que me fazem acreditar que isso era imprescindível: primeiro, para dar o acesso intelectual ao público. Independente da arte, você não pode esperar que o público tenha total conhecimento da sua obra ou linguagem, principalmente no Brasil. Depois, porque Dança Contemporânea tem suas peculiaridades.

Como toda arte “contemporânea” está estigmatizado a receber o rótulo de “difícil de entender” e sem uma breve explicação, acaba sendo. Até o Clássico que tem uma história traduzida em mimese, figurino e formatos pré-estabelecidos, também precisa, imagina o contemporâneo que parte da interpretação do coreógrafo sobre um determinado assunto, sobre a experimentação do corpo e sobre a música entre outros aspectos. E como toda interpretação é subjetiva, o que eu interpreto não será o mesmo que você, afinal, temos histórias diferentes.

As vezes essa é a beleza do subjetivo e do contemporâneo, deixar cada um tomar sua interpretação. Mas, assim como eu, algumas pessoas também podem precisar de uma ideia geral para guiar o seu entendimento e o que você está assistindo, então ficamos desafiados dessa ausência de explicação durante o espetáculo.

Suíte Branca é coreografada por Cassi Abranches, que foi bailarina do Grupo Corpo por 12 anos, e traz a trilha sonora do Skank. Mesmo sem saber previamente que a música é do grupo mineiro, já nos primeiros acordes você sente uma certa familiaridade e o sentimento se confirma com os vocais de Samuel Rosa. A trilha não poderia ser mais acertada, alegre, vibrante e intensa, fazendo os pezinhos do público baterem ritmados no chão envolvidos na melodia. A influência dos 12 anos de Cassi na companhia é perceptível, tendo uma perfeita unidade e mantendo a qualidade com o balé seguinte.

Porém a experiência de Rodrigo Pederneiras fala mais alto e o segundo ato do espetáculo acaba sendo mais memorável que o primeiro. O oposto da claridão branca do primeiro cenário é o vermelho e preto que ocupa o espaço cênico de Dança Sinfônica. Parece unanime o quanto o pas de deux de Silvia Gaspar com Edmárcio Júnior alternado com Helbert Pimenta deixou o público hipnotizado e sem fôlego. A música também composta por um mineiro, Marco Antônio Guimarães, me dá a sensação de presenciar um espetáculo Glocal, toda a influência e trabalho de Minas Gerais transformados em um trabalho internacional.

Mas se um excelente espetáculo já não fosse o suficiente, o grupo comemora seus 40 anos em grande estilo. Com uma série de vídeos no Youtube que conta o processo de montagem dos dois balés do programa e contando sobre toda a trajetória do mesmo, O Corpo inova na produção de conteúdo de dança no país. Porque mais que ser tecnológico e atual é uma forma de preservar a memória e trabalho da companhia e de disseminar o projeto para os lugares mais remotos do País.

FOTO: JOSE LUIZ PEDERNEIRAS

Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

1 COMENTÁRIO

  1. […] Não adianta colocar ingressos a preços populares ou entradas gratuitas e só colocar a pessoa dentro do teatro. Se ela não entender o que está acontecendo, se sentir deslocada, não conseguir acompanhar a linha de raciocínio da apresentação, você está gerando um efeito contrário. Está afastando-a de uma próxima ida, uma segunda experiência. Você faz algo que não gostou de novo? Não! Simples assim. O experiente e o iniciante devem ter o mesmo direito a informação básica do que estão assistindo. É por isso que programas são tão importantes, porque iguala a informação disponibilizada para todos, independente de onde vieram, o que fazem, quanto ganham, onde estudam ou porque estão ali. Traduz a linguagem do espetáculo ao público, e foi por isso que reclamei da ausência da explicação dos ballets do Grupo Corpo. […]

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