Una lucha de fronteras/ A struggle of Borders

Because I, a mestiza,

continually walk out of one culture

and into another,

because I am in all cultures at the same time,

alma entre dos mundos, tres, cuatro,

me zumba la cabeza con lo contradictorio.

Estoy norteada por todas las voces que me hablan

simultáneamente.

Vos apresento Gloria Anzaldúa, que se dedicou a estudar as Chicanas, a teoria feminista e a teoria queer e tem no seu livro:  Borderlands/La Frontera: The New Mestiza. O seu grande trabalho.

Até o mestrado tinha ouvido pouco sobre o que eram os Chicanos e nada sobre o que são as Chicanas. Até que descobri a Anzaldúa e junto com ela outras autoras de força comparável. Explicando de maneira bem simples, “Chicanas” são as mulheres nascidas mexicanas que migraram muito jovens para os Estados Unidos ou, ainda, que são de família mexicana, mas nasceram nos Estados Unidos. Vivendo entre duas culturas e idiomas, não são reconhecidas nem como norte americanas e nem como mexicanas. Elas têm que se construir e construir a sua identidade, já que fogem dos padrões.

Impossível, como mulher e tendo sido estrangeira, não ler seus textos e não arrepiar, não se emocionar e sair da letargia que podem se tornar um dia e outro. As Chicanas são mundos para descobrir, todavia, o que é enriquecedor ao conhecer sobre elas, é poder perceber como a identidade ou a falta de uma definida, nos ajuda a colocar em questão pontos importantes sobre a sociedade ou/e sobre nós mesmos.

Muitas vivem nos Estados Unidos e não falam inglês e nunca, nem mesmo, foram ao México. Como definir que lugar ocupam? Se as identidades são os que nos norteiam, como – no texto – é ser norteada por todas as vozes que falam comigo simultaneamente?

Ao pensar nisso, ouso convocar a empatia de cada leitor. Se existem Chicanas que existem e insistem em questionar-se sobre quem são, suas fronteiras e reivindicações, porque não pensar sobre as nossas próprias identidades?

Da última vez que escrevi sobre feminismo, disse que precisávamos falar mais sobre isso. Acredito que o “luta de fronteiras” possa ser um instrumento muito útil quando pensamos nas identidades femininas. E, de que maneira as Chicanas se apropriam do feminismo e como Anzaldúa usa a figura da mestiza para tratar de temas tão intrínsecos da realidade dessa comunidade.

A produção literária das Chicanas ganha uma força imensa que ultrapassa a sua qualidade e chega na relação da obra com o autor: elas são estrangeiras, mestiças, mulheres e algumas são homossexuais. Ou seja, elas são marginais em todos os padrões normativos e têm propriedade para escrever sobre as fronteiras, sobre as contradições e os jogos de identidade que urgem e colidem na e com a sua existência.

Como reivindica Anzaldúa: a tolerância pela ambiguidade é o que as Chicanas evocam, já que as possibilidades são numerosas, há que se aprender a conviver com a dualidade. Porque se definir quando a existência nos cobra e impõe muitas possibilidades mais?

Deixo um trecho do texto de Anzaldúa, que me desculpem os formalismos, nesse caso só me resta uma possibilidade: Dividir com vocês e falar que é lindo e que eu não poderia explicar melhor.

 

“Como mestiza, eu não tenho país, minha terra natal me despejou; no entanto, todos os países são meus porque eu sou a irmã ou a amante em potencial de todas as mulheres. (Como uma lésbica não tenho raça, meu próprio povo me rejeita; mas sou de todas as raças porque a queer5 em mim existe em todas as raças.) Sou sem cultura porque, como uma feminista, desafio as crenças culturais/religiosas coletivas de origem masculina dos indo-hispânicos e anglos; entretanto, tenho cultura porque estou participando da criação de uma outra cultura, uma nova história para explicar o mundo e a nossa participação nele, um novo sistema de valores com imagens e símbolos que nos conectam um/a ao/à outro/a e ao planeta. Soy un amasamiento, sou um ato de juntar e unir que não apenas produz uma criatura tanto da luz como da escuridão, mas também uma criatura que questiona as definições de luz e de escuro e dá-lhes novos significados.

Somos o povo que salta no escuro, somos o povo no colo dos deuses. Na nossa própria carne, a (r)evolução resolve o choque de culturas. Enlouquece-nos constantemente, mas, se o centro se mantém, teremos feito algum tipo de avanço evolutivo. Nuestra alma el trabajo, a obra, o grande trabalho alquímico; mestizajeespiritual, uma “morfogênese”,6 um desdobramento inevitável. Tornamo-nos o movimento acelerado da serpente.

Indígena como o milho, como o milho, a mestiza é um produto híbrido, desenhado para sobreviver nas mais variadas condições. Como uma espiga de milho um órgão feminino produtor de semente a mestiza é tenaz, firmemente amarrada às cascas de sua cultura. Agarra-se ao sabugo como os grãos; com caules grossos e raízes fortes, ela se prende à terra ela sobreviverá à encruzilhada.”

 

Neste texto é uma mestiça, chicana… Com quantos outros mestiços não cruzamos todos os dias e, ainda assim, não saímos de nossas fronteiras? Que sobreviver a encruzilhada seja uma tarefa mais doce e de mais encontros e que viver nas ambiguidades não precise ser uma luta. Que as línguas rompam mais silêncios e que falem muitas línguas em uma frase, como a Glória. Que não seja um problema, mas, um entendimento.

 

Referência: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-026X2005000300015&script=sci_arttext

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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