Girl Power at White House

O discurso de Cate Blanchet na última premiação do Oscar, atentou-me a um fato que ainda persiste em Hollywood: a subestimação da figura da mulher no cinema. Cate falou sobre como os filmes com personagens femininos são subestimados, sendo vistos levianamente; e deu um recado aos executivos: a mulher como foco de uma produção é algo rentável. As mulheres têm o poder de conduzir uma história como personagem central. Há tantas personagens interessantes a serem vividas. A própria Cate, que atuou em 2 produções interpretando a rainha da Inglaterra Elizabeth I, nunca ganhou Oscar por tal papel; mesmo que seu trabalho tenha sido primoroso.

Algumas pessoas acham que a mulher já conquistou tudo, porém acredito que há ainda algum chão a percorrer. E qual seria o posto mais alto de um Estado republicano? A figura do presidente é claro. No Brasil, vivemos o momento em que esta figura é uma mulher. Independente de levantar bandeira ou não do governo, sua presença num alto cargo aponta uma mudança. Já os ianques, vivem o momento de ter seu primeiro presidente negro, mas ainda nenhuma mulher no cargo.

A TV norteamericana tem investido na potencialização da mulher. Há dois programas de destaque, que mostram dois tipos interessantes de poder, de mulheres e num mesmo cenário: a Casa Branca. A residência presidencial norteamericana é palco para duas séries de TV, VEEP da HBO e Scandal, da ABC e ShondaLand.

VEEP, Julia Louis Dreyfus como vice-presidente estadunidense
VEEP, Julia Louis Dreyfus como vice-presidente estadunidense

A primeira é baseada no sitcom britânico The Thick of it, que retrata os bastidores do sistema de governo britânico. Armando Iannucci é o criador de ambas. A diferença se dá pela localidade, VEEP a figura em questão é a vice presidente norteamericana Selina Meyers. Na primeira temporada, vemos uma Selina tentando ter voz na Casa Branca, porém é demasiada subestimada, sem qualquer relação com o Presidente. Em seu gabinete, funcionários são ridicularizados em situações cabulosas. Na segunda temporada, começa a ter mais esperanças sobre sua escala social. Está mais otimista, todavia, ainda há algum chão a percorrer e muito trabalho a ser feito.

O humor da série é fortalecido pela comediante Julia Louis Dreyfus, ganhadora de 2 Globos de Ouro pelo papel. Diálogos conspiratórios e sem qualquer pausa respiratória, VEEP também mostra as dificuldades de se impor no mundo político e os diversos obstáculos de uma mulher na Casa Branca. Não apenas Selina, que é a Vice- presidente, mas também de suas funcionárias que são continuamente colocadas em posições desvalorizadoras. O programa de humor pode mostrar a subestimação de uma mulher no poder, mas também revela o quão determinada pode ser quando todos se mostram contra e como por tudo ser mais difícil, trabalha  arduamente para conquistar seus objetivos.

As três mulheres de Scandal: Judy Smith, a inspiradora; Shonda Rhimes, a produtora e Kerry Washington, a estrela da série
As três mulheres de Scandal: Judy Smith, a inspiradora; Shonda Rhimes, a produtora e Kerry Washington, a estrela da série

Scandal estreou no mesmo ano que VEEP. Sem qualquer semelhança com a série anterior é um drama sobre a gerenciadora de crises Olivia Pope (Kerry Washington). A personagem é inspirada na advogada Judy Smith, que é gerenciadora de crises e trabalhou no gabinete da Casa Branca nos governos de George Bush e Bill Clinton (inclusive no escândalo Monica Lewinski). Seu trabalho é apagar fogo, colocar as sujeiras do governo debaixo do tapete, gerenciar escândalos para que suas consequências não sejam tão desastrosas.

Oliva Pope é uma advogada superpoderosa que trabalha como diretora de campanha do governo do presidente republicano Fitz Grant. Porém, demite-se e abre sua própria firma de advocacia onde gerencia crises. Na primeira temporada, com apenas 7 episódios, os espectadores conhecem os personagens através das crises dos clientes de Olivia e seu envolvimento com o presidente. Já na segunda, uma trama conspiratória começa a se revelar e os personagens mostram suas verdadeiras faces.

Na terceira e atual, as tramas reveladas na segunda, resolvem-se ao mesmo tempo mostram-se muito mais profundas, muito mais pano pra manga.  Ao contrário de Selina Meyers, Olivia Pope é negra e temida. Sua presença impõe respeito e admiração. Seja pelos seus funcionários, devotos e fiéis (fazem o que for para protegê-la); seja pelo próprio presidente Grant e seus subalternos. Olivia é a mulher que todos aspiram trabalhar, não apenas por seu poder, mas como mentora.

Olivia Pope, o Presidente Grant e a Primeira-Dama Mellie
Olivia Pope, o Presidente Grant e a Primeira-Dama Mellie

É aquela que resolve qualquer problema. E por sua competência é uma advogada respeitada. Seu vínculo com a Casa Branca estreita-se cada vez mais. A mente criadora desta personagem é Shonda Rhimes, outra mulher de sucesso na TV. Responsável pelas séries Greys’s Anatomy e Private Practice; Shonda criou a expressão Gladiadores de Terno, que exemplifica o trabalho e poder dos funcionários de Olivia. Na trama da série, como já dito, muitas conspirações e brigas de poder. Porém, Olivia não é a única mulher poderosa.

Sally Langston, a vice-presidente, de partido opositor ao presidente exibe grande poder em seu partido e com o povo. Sendo uma figura temida pelo próprio presidente e sua comissão. Lisa Kudrow interpretou na terceira temporada, a governadora Josephine Marcus, candidata à presidência. Sua candidatura assustou o partido do atual presidente por sua força e determinação. Mostrando uma mulher de garra. Em seus episódios, Josephine era sempre questionada por sua capacidade de administração.

E mostrou com punhos de ferro que poderia sim, administrar um país com competência; sem precisar jogar sujo. Diálogos rápidos e brigas de poder também fazem parte do show. A crítica americana a chama de novela, por sua rede de intrigas e casos passionais; porém as tramas investigativas e os personagens sem qualquer valor heroico também mostram um suspense, onde qualquer personagem pode ser corrompido.

A real Olivia Pope, Judy Smith é também a produtora executiva e consultora da série. É dela que Shonda tira inspiração para criar casos apresentados. Para o papel de Olivia, foi escalada a atriz de cinema Kerry Washington. Sua escalação foi proposital: a produção queria um nome importante para o papel principal, e acima de tudo negra. Para as produtoras é de extrema importância, Kerry é a primeira atriz negra em 30 anos a protagonizar um programa em horário nobre.

VEEP e Scandal mostram duas mulheres em distintas posições, ocupando cargos de poder, porém em posições de respeito distintas. Mesmo sendo uma vice, Selina luta para que seu trabalho seja reconhecido e triunfe; já Olivia, é temida pelos outros e não tem medo dos obstáculos que encontra. É importante – mesmo que mostrando de uma forma cômica – ter personagens femininos no poder retratados como algo normal.

No caso de Selina, sua trajetória política e a própria figura de mulher divorciada são motivos para a descrença, mas ainda assim ela trabalha para que tenha reconhecimento e que sua ascensão política não seja afetada. Olivia é poderosa e nunca é colocada em dúvida pelo fato de ser mulher. E sua raça não é pretexto para levantar nenhuma bandeira contra o racismo. Ela é uma advogada e respeitada como tal.

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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