Sabe quando a conta finalmente vem depois de a gente encher a cara no bar e bate aquele choque ao ver uma coleção de bebidas que ninguém lembra se tomou? Taí. Final de ano pra mim é assim. Não lembro o que aconteceu direito, se o que li é de 2015 ou de outro ano, ou qual foi minha primeira impressão de uma obra. Por isso a minha lista de melhores vai ser meio torta, seguindo um 2015 pessoal, que começou sabe-se lá quando e termina enquanto escrevo.

Prêmio Stan Lee para realizações super-heroísticas – A nova Thor, de Jason Aaron e Russel Dauterman

Esse elmo é demais!
Esse pessoal de Asgard resolve tudo na retórica mesmo. Argumento eles chamam de gancho de direita.

É difícil explicar, mas não precisa entender, apenas faça sim com a cabeça e aceite o louco mundo dos super-heróis. Acontece que o Thor, Deus de Trovão, agora é A Thor. Por algum motivo, uma mulher foi escolhida pelo martelo Mjolnir para ser a nova defensora da Terra. E ela é incrível. Tem um dos melhores visuais dos quadrinhos e uma alegria e garra em ser super-heroína que você só entende completamente depois que descobre, no final do arco, quem realmente é a mulher por trás da máscara.

As cenas de ação são uma das melhores que eu já vi. Russel Dauterman nasceu para desenhar quadrinhos de super-herói. E a trama de Jason Aaron vai muito além de colocar uma personagem feminina para atrair leitoras. Sua história de Thor é uma luta entre matriarcado e patriarcado, em que Asgard fica dividida pela liderança de Freyja e Odin.

 

Moldura de Ouro para melhor adaptação cinematográfica – Expresso do Amanhã

Chris Evans, o Capitão América, faz o atormentado líder da revolta, Curtis.
Chris Evans, o Capitão América, faz o atormentado líder da revolta, Curtis.

Isso que é distopia de gente grande! Um microcosmo de tudo que há de errado na nossa sociedade dentro de um trem. Um futuro em que a humanidade causa, pra variar, um desastre climático e coloca o planeta sob uma nova era glacial. Os poucos sobreviventes são obrigados a viver em um trem que nunca para, de acordo com uma rígida divisão social. Quanto mais longe da locomotiva, mais pobre e explorado você é. Uma rebelião começa quando a galera do último vagão decide tomar o controle.

Trata-se de uma adaptação da graphic novel O Perfuraneve dirigida pelo coreano Bong Joon Ho (O hospedeiro), que une realismo e caricatura, e conteúdo cerebral com ótimas cenas de ação. Tá no Netflix.

 

Condecoração Princesa Leia para melhor cena de Star Wars em quadrinhos – Darth Vader Vs. AT-AT

Graças a Deus que baratas não sabem usar a Força.
Graças a Deus que baratas não sabem usar a Força.

Quem vê a trilogia clássica de Star Wars sempre fica com a sensação de que não conheceu o potencial completo de Darth Vader. As batalhas dele com Luke e Obi-Wan são muito mais mentais do que físicas. Que Darth Vader é sombrio, impiedoso e irrefreável, a gente sabe. Mas até onde vai seu controle da Força? A série Star Wars – Skywalker Strikes, que se passa entre o episódio IV e V, mostra que ele pode lutar tranquilamente contra um AT-AT pilotado por Leia e Han Solo. É uma cena bem trabalhada pelo desenhista John Cassaday . Ele evita exageros, mostrando que exige tempo e concentração para Vader conseguir isso. Assim, as lutas contra Luke dos filmes continuam críveis. É só uma pena a irregularidade do traço de Cassaday durante a história.

 

Melhor escárnio ao ser humano em arte sequencial – Wilson, de Daniel Clowes

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Eu nunca chamei ninguém de cuzão. Humm… Uma resolução para 2016!

Poderia se chamar “Mil e uma maneiras de maltratar os outros”. Falei desse quadrinho de humor negro aqui. Wilson é um escroto, mas seu comportamento é tão patético, mesquinho e ridiculamente egoísta que só poderia vir de um ser humano mesmo. Pra mim é um clássico já. Ele toca numa angústia muito moderna e, apesar de que ninguém vá querer dizer que se identifica com Wilson, acho que nós somos muito parecidos com ele. É um quadrinho com cara de simples, mas que tem muito conteúdo. Dá para fazer várias leituras e extrair novos temas. E o jeito como Daniel Clowes transita por estilos diferentes com leveza, sem se distanciar de uma estética geral, é incrível.

 

Estatueta Snoopy para série de tirinhas mais zoeira – Poorly Drawn Lines

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Veja mais tirinhas aqui.

Essa webcomic aqui tem compromisso com a besteira! Gatos, patos, árvores, homens de negócio, robôs assassinos, todos estão prontos para fazer papel de ridículo nos traços de Reza Farazmand. Ele consegue fazer piada de qualquer coisa, usando quase os mesmos desenhos. Tem um jeito de Monty Phyton no seu humor, mas de uma forma bem direta e ao ponto. Uma tirinha de Poorly Drawn Lines me diverte muito mais do que a maioria das comédias que saem no cinema e na TV.

 

Hall da Fama no Asilo Arkham para premissa mais maluca – Assassination Classroom, de Yusei Matsui

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Um dia de aula comum para Kuro Sensei.

Um alienígena destruiu boa parte da Lua e tem a Terra marcada na sua agenda como próximo alvo. Mas, antes disso, veja só, o monstrinho negocia: se o governo permitir que ele dê aula para a classe E3 (a classe dos fracassados), o alienígena vai dar passe-livre para seus alunos tentarem matá-lo durante o ano letivo. O alienígena não vai revidar, nem atacar ninguém. Apenas se dedicará a ensinar e, nas horas vagas, a pegar comidas exóticas em países distantes, com seu voo em velocidade Mach 20. Uma mistura de filme autoajuda de professor estilo Curso de Verão ou Escola do Rock com mangá de porradaria. Só vendo pra entender.

 

Melhor coisa que li ontem – Calvin e Haroldo

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A pobre Susie deve ter pedido muito cedo a esperança na humanidade.

Sempre imagino Deus no lugar do Calvin nesse diálogo.

Precisamos urgentemente de um Serviço de Proteção ao Consumidor para regularizar a Vida.

 

Menção Honrosa a promovedores de quadrinhos

Não posso deixar de lembrar daqueles que estão sempre me emprestando quadrinhos que eu não tenho como comprar. O meu amigo Ulisses, sempre antenado com os últimos lançamentos. A Biblioteca Parque Estadual, um ótimo espaço de cultura que nós quase perdemos em 2015.

Quem for do Rio de Janeiro, valorize sua biblioteca. Visite. Chame seus amigos e familiares. Doe livros e quadrinhos.

De resto, um feliz Ano Novo a todos e muitos quadrinhos!

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Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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