No anos 80, éramos bombardeados com sitcoms voltados para a família. Ontem, li uma entrevista que há a possibilidade de um reboot (uma nova versão) de Clarissa e Sabrina – A Aprendiz de Feiticeira, ambas estreladas por Melissa Joan Hart. Este ano, Netflix lançou Fuller House, um spin off do sucesso Full House.

Quando eu era criança, adorava acompanhar a família formada por Uncle Jesse, Joey, Dany, DJ, Stephanie e Michelle. Ao saber do spin off, assim como todos os fãs da série, fiquei animada ao pensar em ver a família reunida novamente, mas… não demorou muito para as gêmeas Olsen saírem do navio e anunciarem que Michelle não estaria presente. Sorte pra elas.

Fuller House é de longe um dos sitcoms mais sem propósito que eu já vi. Reunir a família é um deleite pros fãs? Sim! Ver os atores estagnados em personagens antiquados é também? Não. Até porque todos eles parecem mais caricaturas de seus personagens, nem no original eles faziam as caretas e exageravam nos bordões. Me obriguei a ver os 13 episódios sem acreditar no que eles estavam compartilhando com os fãs.

Ao final, só vinha uma coisa a minha mente: Full House era tão ruim assim e eu era tão criança que não percebia? Por que eu gostava tanto?

Para responder essa pergunta, voltei a ver alguns episódios de Full House. E me dei conta, de que a série tinha um conteúdo muito mais desenvolvido e com temas que envolviam os laços familiares melhores elaborados que Fuller House. E sim, era uma série que dava vontade de ver mais e mais… A ideia de 3 homens amadurecendo junto com as três pequenas irmãs era interessante. Os “pais” aprendiam com as crianças e elas com eles. Era uma troca de aprendizado natural de quem estava errando para aprender.

Ao ver que a premissa seria a mesma, mas que agora seriam as filhas na mesma situação do pai e de seus tios, achei interessante. Entretanto, os conflitos foram suavizados e as relações entre Kimmy, DJ e Steph e as crianças foram tratadas de maneira superficial. Qualquer tema que poderia levar a comédia a um drama familiar e aí sim ter qualquer conflito, era tratado em 3 linhas de diálogos. As histórias não tinham resoluções visíveis aos espectadores. Tudo foi resolvido com abraços.

Se pegarmos os primeiros episódios de ambas, temos a mesma situação tratada de maneira distinta. Em Full House, Danny chama seu amigo e seu cunhado para ajudar a cuidar de suas 3 filhas pequenas. Jesse é um rockstar e Joey é… Joey é Joey. Logo no primeiro capítulo, percebemos que os dois nunca cuidaram de crianças e que isso será um grande aprendizado para eles. A cena dos dois tentando trocar a fralda de Michelle e Jesse tendo que lidar com o fato de que sua vida de rockstar vai mudar, são duas provas do potencial da série.

Isso vemos logo nos primeiros capítulos. O grande barato de Full House, era justamente aprender com os 3 solteiros através de seus erros e com as 3 meninas através de seus aprendizados diários sobre a vida. E que nada poderia ser como elas queriam.

Aliás, as 3 meninas eram ótimas atrizes e suas personagens eram de fato contrastantes e interessantes. DJ representava o drama da irmã mais velha e muitas crianças acompanharam com ela alguns dos dramas infantis: dividir o quarto, ter seu próprio telefone, o primeiro namorado… Já as crianças do novo Full House, são pra lá de chatas e mimadas. Nenhuma criança se identificaria com as peripécias das mesmas.

Se vamos analisar estes pontos em Fuller House ele sai perdendo feio…

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O primeiro episódio é igual ao de Full House. Porém, DJ não pede ajuda a ninguém. As pessoas se mobilizam ao ver como ela precisa de alguém. Seu pai foi mais maduro ao perceber que necessitava de mãos extras na criação de 3 meninas. Outro ponto que diverge: Stephanie é a bola da vez, é a tia solteira legal e viajada…

Ao contrário de Jesse, ela tem melhores conhecimentos de como trocar uma fralda, mas seu lado rebelde foi rapidamente trocado pela tiazona. E aí, vem o drama que foi esquecido depois das duas linhas de diálogo: Steph é infértil.

Não há qualquer química entre as mulheres e as crianças. Os conflitos são rapidamente solucionados e o núcleo infantil parece inútil. Em Full House, muitos dos conflitos das crianças ou eram correlacionados aos adultos ou de alguma maneira chegavam a eles e viravam um sermão com direito a abraços e pedidos de perdão. Os personagens parecem não terem crescido e os atores parecem ter parado no tempo junto com seus personagens.

Em Fuller House, vemos crianças mimadas em conflitos pequenos. Que muitas vezes os adultos nem se dão conta de que está acontecendo. E toda a história fica entre Kimmy e seu ex-marido, DJ tentando voltar pro mercado e Stephanie sentindo falta de sua vida de solteira.

Sem contar que todas os gags não têm menos graça (tirando um ou outro… mas 99% não te farão rir).

Não há sermões, não há lições e nem aprendizados. É uma pena, pois tendo 3 mulheres lidando com 4 crianças em uma casa poderia, sim, ser uma bela homenagem a essa série. No final, Fuller House é uma perda de tempo e de espaço no catálogo da Netflix.

Malandras foram as Olsen, que mandaram atestado médico.

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Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

3 COMENTÁRIOS

  1. Obrigada , Renata!!!
    hehehehe acho que a maioria dos fãs pode estar sentindo isso. hehehehe
    Fico feliz de ter esclarecido seus sentimentos… rs… E grande parte do problema nasce no roteiro… e influi na atuação.

    Acho que só o Danny que conseguiu manter-se mais sóbrio… até porque é o que mais tem trabalhado nos últimos anos…
    Assim como eu… você vai conseguir terminar… eu também vi assim… quando estava de bobeira via um episódio… mas maratonar… NUNCA!!! hahahahaha

  2. Pra começar o comentário, adoro seus textos, Thai. Parece que to conversando com você sobre o tema hahahaha muito bom!

    Seu artigo me esclareceu o incômodo que eu tava sentindo vendo Fuller House. Ainda não cheguei ao final da série, to vendo pingado mesmo, mas tinha alguma coisa que eu não tava entendendo muito bem no meu jeito de encarar a série. E era isso. Por mais que eu esteja curtindo rever o cenário e os atores (mesmo que os meus favoritos sejam os antigos e eles agora só apareçam em episódios aleatórios que não fazem jus, mesmo, às suas personagens) e ver uma série besta pra distrair a cabeça, ela tem muito pouco de Full House.

    É realmente como se as personagens tivessem parado no tempo e continuado de onde a série terminou. Os conflitos não se desenvolvem, é mais um passatempo que qualquer outra coisa que poderia definir a série.

    Obrigada por esse artigo hahahaha mesmo que eu esteja curtindo ver a série, finalmente entendi o que eu sinto por esse remake.

    • Obrigada , Renata!!!
      hehehehe acho que a maioria dos fãs pode estar sentindo isso. hehehehe
      Fico feliz de ter esclarecido seus sentimentos… rs… E grande parte do problema nasce no roteiro… e influi na atuação.
      Acho que só o Danny que conseguiu manter-se mais sóbrio… até porque é o que mais tem trabalhado nos últimos anos…
      Assim como eu… você vai conseguir terminar… eu também vi assim… quando estava de bobeira via um episódio… mas maratonar… NUNCA!!! hahahahaha

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