OK… alguém esqueceu de tomar seu remedinho hoje. Mas é que não dá, me irrita. Me irrita ver gente que, na tentativa de defender o valor dos quadrinhos, usa a saída do “toda criança que lê quadrinhos acaba virando um leitor de livros”.

É chamar os quadrinhos de acessório para a verdadeira arte: a literatura. Como se o quadrinhista ficasse na sua mesa pensando “Porra, vou colocar um monte de mensagem subliminar pra fazer as pessoas lerem”.

E esse é realmente um dos grandes problemas da filosofia de formação de leitores. Fomentar vários quadrinhos que adaptam clássicos da literatura visando o mercado didático. São obras que não tem qualquer tipo de ambição, a não ser convencer alguém a ler um livro. “Por favor, leia Aluísio de Azevedo! Tem desenhos!!”

Nunca li nada na minha vida e me tornei presidente, destruí o Oriente Médio e provoquei uma crise mundial. Acho que me saí muito bem, obrigado.
Nunca li nada na minha vida e me tornei presidente, destruí o Oriente Médio e provoquei uma crise mundial. Acho que me saí muito bem, obrigado. (Társio)

Aqui estou falando do alto do meu preconceito, pois raramente leio adaptações da literatura para quadrinhos, mas é só abrir uma edição dessas que você se depara com uma caralhada de texto em cima dos desenhos. Ou seja, é quase certo que o quadrinhista procurou colocar o máximo do livro original na adaptação. Ele não pensou, ele não tomou a obra para si, ele não a subverteu.

Não há boa adaptação sem alguma subversão. Mas isso é papo pra outro dia.

Outra coisa que me causa incômodo, e pra mim tem dedo do “vamos fazer a criança ler”, é a preocupação em seguir a norma culta da língua. É ver no balão de fala de personagens um “Peguei-o”, ou “Vou tomá-la nos braços”.

Por que não “Peguei ele”, “Vou tomar ela nos braços”? Aí, alguém me responde, chocado, “Porque está errado! Imagina se as pessoas saírem falando assim.” Mas nós falamos assim, porra!

O objetivo de um quadrinho não é ser didático, não é fazer você falar bem, ou fazer você ler mais. O objetivo de um quadrinho, assim como o de toda obra de arte, é ser incrível, é criar uma conexão com o indivíduo, a ponto de ele gritar “É isso!! É exatamente isso!!”.

O erro mais profundo da preocupação em formar leitores é exatamente essa obsessão por LEITORES. E o cinema? Por que não formar cinéfilos? Ou apreciadores de arte plástica? Ou músicos? Ou bons jogadores de video game? Essas artes também fazem a pessoa pensar, também contribuem para o desenvolvimento cognitivo e cultural da pessoa.

Eu digo que não são leitores que devemos formar. Não.

Devemos formar SERES HUMANOS. É esse o objetivo de qualquer arte. Fazer o observador refletir sobre a sua humanidade e a humanidade em geral.

Tem um filme do Al Pacino, Looking for Richard, um documentário sobre a produção de uma peça shakesperiana, que possui uma cena muito marcante exatamente sobre esse tema. É de um senhor na rua que é entrevistado. Perguntam para ele algo como, qual é a importância de Shakespeare. E ele diz, de uma forma mais eloquente do que eu poderia simular: “Ensinar as pessoas a sentirem! As pessoas estão esquecendo como sentir.”

Uma obra de arte não é um instrumento para atingir um fim, ela é o fim, é a mensagem. Se a usarmos como instrumento, mesmo que com boas intenções, como educar, fechamos nossos sentidos para o que ela quer dizer e que no momento nós não estamos interessados.

Isso acontece muito com a bíblia. O padre ou pastor interpreta toda a cena de um trecho bíblico para o fiel. Ele empurra uma interpretação e qualquer questionamento a mais é visto como falta de fé. Por exemplo, imagina alguém dizer, no meio de sua família religiosa, que Jesus foi escroto ao agir de determinado modo. Não rola, Jesus não é personagem, ele é filho de Deus, portanto sagrado, portanto sem discussão.

Aham. Jesus foi escroto, né? Teu nome tá anotado, Társio. Foi pra Lista. Aguarde!
Aham. Jesus foi escroto, né? Teu nome tá anotado, Társio. Foi pra Lista. Aguarde!

Um livro que poderia ser uma experiência bem mais rica para as pessoas, acaba ficando engessado pela interpretação da Igreja, que quer apenas justificar seus dogmas e ensinamentos.

Da mesma forma, fomentar a leitura de quadrinhos como uma ferramenta impede que os leitores explorem o potencial de uma boa história em quadrinhos. Quem sabe acabe criando até mesmo uma rejeição, e o jovem passe a associar graphic novel a uma adaptação literária ruim.

Repito. Não se preocupem se um jovem vai ser um leitor. Dê a ele e a ela uma experiência rica, que os desafie, que os faça ver além. Bons filmes, bons quadrinhos, jogos, esportes, danças, arquitetura, ar. Treine seus sentidos para perceber a vida, a si mesmo e aos outros. E então se deixe surpreender.

Agora vou tomar meu remédio, porque minha pressão subiu.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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