Não existem facilidades na trajetória pela vida: a sabedoria restringida pela configuração física do idoso; o adulto com todas as responsabilidades; o adolescente em expansão com suas inquietações; a criança, estágio pelo qual todos passam, sincera, emocional, dependente, aprendiz, curiosa, natural. Natureza. É na infância que se recebe e se doa com facilidade, que se é um canal sincero de energia e de emoções, na qual os cinco sentidos ainda não estão dominados pela mente normatizada do mundo físico. Suas essências exploradas pelo mundo lúdico expostas através de jogos e brincadeiras se misturam com a realidade, revelando conotações próprias para a vida. E isso lá é fácil?

Ninguém ensina as crianças as regras do jogo, da vida. Ninguém ensinou a receber plenitude verdadeira, apenas as temporárias; pois só é ensinado o valor do mundo físico, das conquistas, dos bens, das aquisições, das coisas que se perdem no tempo e que deixam nele uma mínima energia de satisfação. Um mundo de ilusões.

Na infância, entretanto, não há a ilusão do mundo físico devido ao desencadeamento natural dos seus sentimentos e emoções, mas também não há noção da capacidade da matéria. Limita-se ao adulto, portanto, sendo dependente do responsável que pode não saber nortear o caminho do pequeno, sem que ele perca a capacidade de imaginar, pensar, criar. Já que ao crescer se tende a parar de acessar o mundo fantástico, lidando somente com atividades de ordem prática, perdendo a habilidade de revelar novas conotações pra vida. Soluções. Invenções. O poder das ideias.

Na sala Fernanda Montenegro, no Teatro Leblon, está em cartaz Foi você quem pediu para eu contar a minha história estrelada por um elenco de meninas-mulheres: Karla Tenório, Fernanda Vasconcellos, Bianca Castanho e Talita Castro. A peça é uma tarde de brincadeiras, daquelas sem fim. Essas atrizes-mulheres não abandonaram suas crianças, por ofício, se regojizam da fantasia – e que prazer deve ser voltar a colocar uma saia suja de giz, um tênis confortável, uma meia de qualquer jeito (porque não importa mesmo), o cabelo como ele deseja estar, rosto sensivelmente expressivo.

11421504_959724247413103_733550294_nEssas crianças fantasiam sobre suas vontades em meio as suas próprias vidas repletas de tema como morte, abuso sexual, bullying e questões de sexualidade. Com direção do também ator Guilherme Paiva, elas brincam de misturar as realidades conhecidas de casa com seus desejos internos de meninas, enquanto transitam momentos de referência do que é ser adulto e do que é ser mulher. A sensibilidade de Guilherme Paiva na encenação desse texto foi essencial para essa fusão da mulher com a menina, não só em relação a própria história, mas também levando em conta as atrizes e suas respectivas personagens.

O texto de Sandrine Roche com adaptação gloriosa de Thereza Falcão preenche o espaço vazio do pensamento do público, fazendo com que o mesmo se projete na história vista/vivida. A infância é retomada e o acesso àquela criatividade expurgante é revelado. Guilherme e Thereza, parceiros nesse projeto de direção e adaptação, respectivamente, desenham as histórias dessas meninas em cima das possibilidades do trepa-trepa, do balanço e do banco da praça – composição de Paula Santa e Rafael Pieri. O humor presente nas brincadeiras é mérito do conjunto: com um excelente texto e uma competente concepção de cena, as atrizes são excepcionais nas quebras entre brincadeira séria e brincadeira leve, entre ter trejeitos de mulher mesmo sendo criança, em fantasiar ser outras pessoas não perdendo a essência pueril: essas transições são a assinatura do espetáculo categorizando-o como sincero e honesto. Um destaque para a honestidade cênica de Karla Tenório.

Há um direcionamento da cena, nas histórias densas e de difícil realidade apresentada pelas crianças, que permite somente uma única vibração interpretativa defendida pelas atrizes. É demasiado forte e às vezes bruto de intenções; nota-se que é uma escolha esse estado agressivo, duro, mas carece de nuances, pois mesmo o texto sendo intenso não necessita que ele seja expresso com tanto vigor. Ou melhor, é possível ter vigor e ainda assim suavizar a fala, os gestos, a disposição física, principalmente quando se trata de crianças. As variações de nuances desenvolvidas se encontram mais precisamente nos momentos de quebra de humor, mencionados acima.

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Os jogos de cena no trepa-trepa (com elásticos) são de grande encantamento. Há um exercício físico de entrega das atrizes que se penduram, montam, ficam de cabeça pra baixo, interpretam, se escondem e se fazem ser vistas. Atrelado a essa disponibilidade das intérpretes, o projeto de luz de Renato Machado é essencial em recortes e revelações – além de outros olhares da luz no balanço, no chão ou contraluz.

As histórias e brincadeiras contadas pelas meninas têm tantos caminhos, percorrem lugares profundos, distorcem ideias catalogadas para no fim se encontrarem numa história só, juntas, no topo do trepe-trepa. São amigas, por fim, amigas da imaginação. No topo do mundo lúdico. Libertem suas crianças.

 

SERVIÇO
Foi você quem pediu para que contar a minha história
Horário: 21h – quartas e quintas
Temporada: Até 30 de julho
Local: Sala Fernanda Montenegro – Teatro Leblon
Classificação: 14 anos
Gênero: Tragicomédia
Duração: 70 min

Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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