4-Dá para tirar alguma coisa boa
Iniciado em setembro deste ano, o Grupo Bagaceira de Teatro finaliza em novembro a ocupação de três espetáculos do seu repertório. O grupo cearense comemora 15 anos no Centro Cultural Banco do Brasil, onde eu tive o prazer de prestigiar os três espetáculos – sendo dois para o TagCultural. Mantendo a sequência das temporadas, eles encerram com Fishman, que permanece em cartaz até 15 de novembro.

Em Fishman, temos como atores Ricardo Tabosa e Rogério Mesquita, que não fazem parte do elenco em Interior e Mão na Face, os dois primeiros espetáculos. A direção e dramaturgia permanecem as mesmas, de Yuri Yamamoto e Rafael Martins, respectivamente. Recorro à memória das estruturas já conhecidas do grupo e reconheço em Fishman um trabalho diferenciado. As ações físicas são mais contidas e agora o espectador está mais distanciado dos atores. Noto, portanto, uma disposição mais reflexiva do grupo e menos empírica – já não se joga tanto com plateia, se apoia num efeito da encenação e projeção questionadora do texto.

A cena é composta por dois homens, dentro de um bote cheio de água, ao redor de folhas secas, frente a frente. O fato é que o reencontro deles é impactante demais, ficam perdidos em suas identidades e não sabem o que dizer, nem quem são, o que são, expandindo o diálogo para subjetividades inatingíveis. Inatingíveis pela surrealidade, mas é possível acompanhar o desenrolar evolutivo das relações. O poético diálogo ou trucado entre os sujeitos nos direciona às transformações que remodelam, algumas vezes, suas identidades ao longo do espetáculo.

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O teor intimista se adequa dentro da belíssima proposta imagética de Yuri – também responsável pelo figurino e cenário – e Tatiana Amorim – iluminação. No entanto, o apoio em cima das indagações sugeridas pelo texto, que se esfarelam antes de chegar ao espectador, dispersa o foco da obra. Mesmo que trate de assuntos amplos, e que seja um objetivo abarcar o complexo e o absurdo, o estranhamento nos faz sentir como peixes fora d’água, acanhados por não enxergarmos a proposição das reflexões que parecem ser jogadas gratuitamente.

O que já nos parece turvo de acesso é problematizado pela plasticidade dos atores que deixam o texto morno – principalmente nas passagens subjetivas e repletas de inquietações. Talvez com personagens mais bem acabados ou maior interação entre os atores suprisse a ausência de estímulo. Eles não nos direcionam a pensar, já mostram o pensamento e querem que reproduzamos suas inquietações na nossa mente. Essa “invasão” ou “implantação de ideias” atrelada à descompassada interpretação sugere sempre que o espetáculo está por acabar. Essa angústia é dada porque torcemos pelo espetáculo, queremos confiar nessa poesia, mas o formato que somos guiados a contemplá-la é desmotivador. Passamos a esperar, portanto, somente a próxima ação impactante de luz ou efeito.

Maravilhados com um espetáculo dentro de uma instalação de arte, ficamos entregues agradavelmente a um estímulo poético visual enquanto passa, paralelamente, a história dos homens, suas evoluções na relação, suas próprias inquietações sem solução. O que me parece é que a verticalidade das emoções, trabalhada em níveis muito profundos, não tem impacto, já que não trava uma conexão horizontal com o espectador e, por vezes, nem entre os intérpretes. Não há como desvalidar a experimentação lírica dentro do texto, é inclusive digno que exista espaço para essa expressão que muitas vezes é pouco considerada, mas ser inovador não significa que não tenha que ter ausência de embasamento. Fishman não é engolido pelo seu próprio tema, pois outras expressividades têm relevância.

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SERVIÇO

Bagaceira 15 anos – Temporada de repertório

“Fishman” – de 28 de outubro a 15 de novembro

Horário: Quartas e quintas, às 19h30. Sextas, sábados e domingos, às 17h30 e às 19h30

Local: Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro)

Ingresso: R$10,00

Horário da bilheteria: de quarta a segunda, das 9h às 21h

Gênero: Drama

Duração: 50 minutos

Capacidade: 86 lugares

Classificação indicativa: 16 anos

Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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