Credito: Sara Klockars http://openphoto.net/gallery/image/view/24563

Pode e deve! No post anterior abri o assunto Captação de Recursos falando um pouco sobre empresas como patrocinadoras. Nesse queria falar um pouco sobre as pessoas como financiadoras de projetos.

O financiamento coletivo é uma forma de captar recursos com pessoas e uma prática que está ficando cada vez mais conhecida por aqui. Há um imenso potencial de atuação, mas o Brasil ainda está experimentando como fazer. Captar com pessoas é bem diferente do que captar com empresas (é claro). São estratégias muito diferentes e não é todo o projeto que se enquadra nesse perfil de captação. O potencial de investimento de uma pessoa é infinitamente menor do que o de uma empresa. Dessa forma, você vai precisar de uma quantidade relativamente maior de apoiadores/patrocinadores. Sua estratégia tem que ser massiva, difusa, visando alcançar a maior quantidade possível de pessoas. Se o patrocínio com empresas é um namoro, no crowdfunding é você solteiro no Rio de Janeiro.

Atuar com massa é atuar com mobilização, engajamento e recompensa, onde a equalização dessas 3 forças pode gerar uma campanha de sucesso. Sobre isso o Bruno Natal do Queremos! tem uma contribuição importante:

A primeira plataforma de crowdfunding, e atualmente a maior delas, é o Catarse, que foi fundado em 2011. Ou seja, estamos falando de uma história de 3 anos apenas. Mas com a internet tudo é mais rápido e a noção de tempo é outra. Desde o lançamento eles atingiram resultados bem interessantes e contribuíram fortemente para a difusão da cultura crowdfunding no Brasil.

O Catarse promoveu uma pesquisa que apresentou indicadores interessantes. Sobre as pessoas que doam recursos coletivamente para projetos: a maioria é do sudeste, com renda de até 6 mil reais, é funcionário (público ou privado), trabalha em áreas como comunicação, jornalismo, administração, negócios, web, tecnologia, artes, pedagogia, educação, marketing e publicidade. Eles gostam mais de financiar produtos culturais independentes ou de cunho social e ambiental, e consideram os seguintes fatores importantes na escolha de um projeto para apoiar: identificação com a causa, potencial realizador do proponente e forma de apresentação do projeto. Para os apoiadores os fatores importantes de um projeto foram: transparência, qualidade da apresentação e recompensa.

Pelo lado dos realizadores: quem se aventura são, em maioria, pessoas de 25 a 40 anos, entre empreendedores, donos de empresas, profissionais autônomos. Artes e produção cultural lideram os tipos de projetos apresentados na plataforma. Os proponentes atrelam o sucesso das campanhas de captação a: boa campanha de divulgação; apoio de amigos e familiares; relevância do projeto para grande número de pessoas. O oferecimento de boas recompensas ficou na frente até da divulgação em mídia tradicional.

E qual o potencial real? Bom, nesse tempo da plataforma Catarse foram 1000 projetos bem sucedidos que captaram juntos R$ 13,78 milhões de reais.  Não é de se ignorar o imenso potencial que isso tem para o Brasil. Agora, aliando a captação pessoa física + Crowdfunding esse potencial cresce exponencialmente. E já existem iniciativas que se lançaram com essa proposta.

Existem alguns mecanismos da Lei Rouanet ainda pouco explorados, um deles é a captação de recursos por pessoas físicas, no qual cada um de nós pode doar até 6% do nosso imposto de renda devido para projetos aprovados na pelo Ministério da Cultura. Maravilha hein… Nem tanto. A operação da Lei para doadores PF fica um pouco mais complicada, já que é preciso prever quanto será seu IR devido, colocar a mão no bolso e adiantar o recurso. Somente na declaração do IR no ano seguinte, você poderá obter o benefício. Mais ou menos como acontece com as empresas, mas, no caso das pessoas, nem todas tem fôlego financeiro para tal.

A célula do casamento entre Rouanet pessoa física e financiamento coletivo começou dentro das empresas. Sabendo da dificuldade de operação do mecanismo e de seu potencial de impacto, as empresas entraram como facilitadores desse processo, no qual elas adiantam o recurso para o funcionário e este restitui a empresa somente quando obtiver o benefício. Dois deles se destacam, a Unimed, com o programa Receita do Bem, atuando com os médicos cooperados e a Caixa Econômica Federal, com o Movimento Cultural do Pessoal da Caixa (MCPC), no qual podem participar os empregados e aposentados.

Estes hoje tem obtido uma boa fatia do que a Lei Rouanet (Pessoa Física), como diz o MCPC: “a média dos anos que antecedem a fundação do MCPC foi de três mil destinações/ano. Com o início do Movimento Cultural do Pessoal da Caixa, esse número quadruplicou, passando para mais de 21 mil”. Mas em termos de potencial, estamos muito aquém, dos quase 11 milhões de brasileiros que poderiam obter esse benefício.

A vantagem de um programa desses é fomentar o engajamento do empregado em uma ação coletiva, que além de gerar sentimento de apropriação, reforça a estratégia social/cultural da empresa. Vejo ganhos muito positivos para ambos os lados.

Saindo das empresas, algumas iniciativas mergulharam de cabeça nessa ideia, como o Cultivo  e o Partio. Nestes foram capturadas as premissas do financiamento coletivo, se utilizando dos benefícios da Lei Rouanet,  mas almejando voos mais altos, com a imensidão de doadores em potencial. Estamos engatinhando, mas nos vejo correndo maratonas em breve por esse caminho.

Pelo ponto de vista do projeto e do produtor, penso que a captação deva ser o quão diversa possível. Empresas patrocinadores, financiamento coletivo, apoiadores, parceiros. Se puder e fizer sentido, pegue os planos de captação a, b, c, d e fatie seu orçamento neles.

Um ponto que eu acho muito bacana, é tocado por uma outra plataforma, a Benfeitoria. Nela mistura-se o financiamento coletivo com construção coletiva, ou seja, você pode fazer doações não monetárias para colaborar com os projetos, seja com força de trabalho ou recurso material, por exemplo. A desmonetarização das relações é uma prática que venho querendo exercer mais e mais a cada dia.

Dinheiro é uma convenção adotada pelo homem para reger as trocas. Eu tenho algo, troco pelo dinheiro, que vai me possibilitar trocar novamente por qualquer outra coisa. Nesse caso ele é um intermediador “universal” entre o que você tem e o seu desejo ou necessidade. Mas é possível retirar esse intermediador colocando na roda diretamente o que você tem para oferecer, seja material ou não. Um exercício interessante de fazer é colocar no papel o que você poderia oferecer em termos de trabalho para ser trocado por algo que você quer ou precisa. Foi pensando nisso que uma galera de Curitiba criou o a plataforma Bliive, onde eles inverteram a lógica tempo é dinheiro para dinheiro é tempo. Saca só:

 

É isso… Bora trocar!

Thiago Saldanha
Uma pessoa em processo. Todos os dias acordo com fome por informação e tento absorver o máximo que posso. Sinto-me um eterno aprendiz. Estou aproximadamente conectado 85% das horas em que estou acordado e pretendo equalizar ainda mais essa conta entre real e virtual... é preciso equilíbrio nessa vida. Na verdade sou meio fissurado por tecnologias e redes digitais, tanto que comprei meu primeiro celular ainda moleque, economizando dinheiro do lanche e da passagem, enquanto minha mãe achava o Teletrim um máximo. Falando em mãe, ela foi quem me levou para assistir a primeira programação cultural que tenho memória, um teatrinho infantil perto de casa. Anos depois, eu quem estava naquele mesmo palco. Mais um pouco e saí do palco, fui para a coxia e para a técnica. Na sequência a coordenação de palco, a produção e agora a gestão, mas não mais naquele palco e não mais com Teatro, mais ainda na cultura. Sou do mato, do mar e do ar. Meio viciado em adrenalina. Adoro cafés e cerveja. Sagitariano com ascendente em escorpião e quero mais sempre, não que isso signifique que quero muitas coisas. Como há escrito em alguns muros de algumas cidades: as melhores coisas da vida, não são coisas.

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