Junho de 2014: Jimi, Oli e o estranho do Hugh (UK) desembarcam no Rio para a Copa do Mundo. A diversão dos 3 entre uma partida da copa e outra, entre um passeio na Lapa e Santa Teresa era conhecer as favelas próximas de Copacabana. É a segunda vez de Jimi no país e eles fazem coisas que nem todo marinheiro de primeira viagem faria, como ir para Ilha Grande, mas as favelas ainda encantam.

Uma semana antes, James, Tim e Leigh (Austrália) me fazem uma sabatina sobre os protestos contra a Copa, sobre as pessoas, o que tem pra fazer, o que eu achava do passeio turístico de Jeep pelas favelas e, mais tarde, até sobre se eu achava que o álbum de fotos no Facebook da viagem mostrava de verdade o Rio de Janeiro.

Novembro de 2014: toca o telefone e do outro lado da linha está o responsável pelas admissões do mestrado em Arts Administration e Cultural Policy da Goldsmiths University of London. Começa minha entrevista e em vez de perguntar sobre minhas experiências profissionais ou minhas aspirações sobre o mestrado tenho 15 nervosos minutos de discussão sobre o que eu achava da imagem que o Brasil estava passando da sua cultura, principalmente para as Olimpíadas. “O que você achou da representação da Inglaterra nos jogos Olímpicos de Londres?”, “o que você faria se tivesse que criar uma cartilha cultural para ser entregue aos turistas que vão às Olimpíadas? Qual conteúdo colocaria?”, “como você vê a imagem cultural do Brasil no exterior?”, “o que acha da utilização de estereótipos? Você se identifica nessas campanhas?”, etc.

Dezembro de 2014: estou nos EUA, para passar o tédio assisto a um filme diferente todo dia. Alguns bem ruins (Napoleon, Tartarugas Ninjas) e outros bem legais (Stuck in Love, Boyhood). E nessa esfera de viagens e filmes vem o assunto do texto de hoje: como os filmes representam as cidades e suas culturas e influenciam o turismo?

Fato que é possível utilizar o audiovisual como uma ferramenta de promoção de um país, a indústria audiovisual de Hollywood faz isso muito bem com os EUA, acredito que não existam dúvidas acerca disso. E quando se fala de Woody Allen então, eleva-se o padrão e ele consegue transformar cidades em protagonistas: Vicky Cristina Barcelona; Meia noite em Paris e Quando em Roma são alguns exemplos.

Os filmes aguçam o imaginário sobre um determinado lugar, te faz querer visitar aquela cidade que parecia tão encantadora na telona. Desde o dia que assisti P.S. Eu te amo tenho vontade de conhecer a Irlanda. Quem não ficou ao menos curioso de conhecer a Índia, Indonésia ou Itália depois de assistir Comer, Rezar e Amar? ou o Moulin Rouge em Paris após o filme homônimo?

Agora se imagine passando um tempinho na Austrália e negue que você não iria até P. Sherman 42. Wallaby Way. Sydney? E nesse pequeno detalhe que os filmes e séries podem ter muito mais potencial de serem explorados do que incentivarem o turismo no sentido de locomoção simplesmente. É possível explorar o desejo de tornar real, de participar, de se inserir naquilo que parecia distante e de alguma maneira te motivou. Diversos passeios são criados e inspirados para satisfazerem as curiosidades de muitas pessoas e não apenas os fãs de uma determinada trama. Alô, Disney?

Existem walking tours em NY que passam por lugares que marcaram Sex and the City como a Magnolia Bakery; ou possibilitam visitar o bar que inspirou o McLaren´s Pub da série How I Met Your Mother (McGee’s Pub and Restaurant – 240 West 55 Street Between Broadway and 8th Avenue) – mais informações sobre tours, clique aqui. Walking tours em Londres para refazer os passos do Jack Estripador (sim, tem louco para tudo) ou visitar Baker Street e o museu de Sherlock Holmes, se não quiser visitar o museu, tire foto em frente ao número 221B que foi colocado lá por conta da trama e quantidade de turistas que visitavam a região. Ainda em Londres, que tal visitar a Plataforma 9 ¾ em King’s Cross (é o lado de partidas nacionais se estiver em St. Pancras está no lado errado) e os estúdios onde foram filmadas toda a sequência de Harry Potter?

Que tal visitar a The Travel bookshop do filme Um lugar chamado Notting Hill, o hotel que foi rodado Uma Linda Mulher ou o do Esqueceram de mim 2, ou quem sabe o café que trabalha Amelie Poulain. Eu podia começar a falar sobre Abbey Road, mas já não seria a sessão filmes e sim, cultura. Também poderia falar sobre a parte rentável de ampliar as experiências do turista, porém, #ficaadica.

Voltando ao Brasil, a pergunta é: qual é a imagem do Brasil nos filmes que ganham repercussão mundial? Será que é a imagem real do país? Paris é a cidade Luz, do amor, do romance. NY é a cidade cosmopolita, agitada, das oportunidades. O Rio é a cidade das favelas, da bunda, do Carnaval e do futebol. (Vai Juliana, agora conta uma novidade!) Você não deve precisar de provas, mas vamos fazer uma lista? Velozes & Furiosos 5. Operação Rio; O incrível Hulk; Cidade de Deus; Tropa de Elite; Lua Nova (Edward vai se esconder na favela do Rio); Turistas; a animação Rio; o famoso episódio dos Simpsons de 2002 (13ª temporada) – Blame It on Lisa (uma referência ao filme de 1984 Blame It on Rio – Feitiço do Rio) e o mais recente You Don’t Have to Live Like a Referee (25ª temporada) no qual os produtores “previram” o desfalque de Neymar na Copa.

Logo, não me surpreende que o Jimi queira subir a favela e seus amigos me questionem porque eu não vou pra favela também já que é tão seguro. Ou que o James esteja tão interessado em saber como funciona a cidade e nossa cultura além do que dizem por aí. Foi bem interessante ouvir a visão deles sobre a nossa cultura e perceber os estereótipos sendo desfeitos (alguns não, eles realmente acham que respiramos futebol. Não neguei.). Só que eu, você e a torcida dos 4 times cariocas juntos sabemos que não é só isso, que não estamos reduzidos a essas características. Será que carnaval e bunda passa a imagem da verdadeira mulher brasileira? Será que as exaustivas imagens das favelas transmitem nossos verdadeiros problemas sociais? Porque os gringos acham e veem uma favela tão segura?

Ai vem a pergunta do Sr. da Goldsmiths me martelando: você acha que a cultura do Brasil é realmente transmitida no exterior (e nos filmes)? Não, não mesmo. Acho que a melhor representação da cultura brasileira que eu já vi descrita em algum tipo de “produto cultural” foi o texto Pardon anything do Gregório Duvivier, também presente no livro Put some farofa, mesmo autor.

Não acho que dê pra fugir dos estereótipos completamente, mas que tal transpor eles, mostrar algo além? Menos Romero Britto e mais Os Gêmeos e Eduardo Kobra. Menos Carnaval e mais Ballet Clássico (o Brasil é um dos países que mais exporta bailarinos para grandes Cias., até porque não tem onde dançar aqui. Ops.). Eu tenho a sensação que o tema já se esgotou. Cadê a indústria cinematográfica brasileira trabalhando questões de identidade além de besteiróis? E fica a reflexão que mais curioso ainda é que fazemos nossa cultura ser muito bem representada, além dos estereótipos padrões, nas novelas. No mínimo o Leblon tá bem apresentado, rs.

Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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