Não temos ideia, agora, de quem ou o quê poderão ser os habitantes do nosso futuro. Nesse sentido, não temos futuro. Não no sentido do futuro que os nossos avós tinham, ou que achavam que tinham. Futuros culturais completamente imaginários eram o luxo de outra época, na qual o “agora” tinha uma duração maior. Para nós, claro, as coisas podem mudar de modo tão abrupto, tão violento, tão profundo, que futuros como o dos nossos avós possuem um “agora” insuficiente para se manter de pé. Não temos futuro porque o nosso presente é volátil demais. Temos apenas um gerenciamento de riscos. O desdobramento dos cenários de um momento determinado. Reconhecimento de padrões. (p. 70)

 

Não é incomum mídia e tecnologia sobre mídia e tecnologia. Talvez seja, por outro lado, literatura sobre os efeitos de ambos, sobre a espetacularização da sociedade, sobre a transformação de um mundo em marcas, contextos e significados removidos e refeitos. Estas são as marcas principais da obra de William Gibson, agora transportadas para o cenário contemporâneo em Reconhecimento de padrões (2011, 2ª edição, Editora Aleph, tradução por Fábio Fernandes). Gibson, também conhecido no gueto da ficção científica como o “pai do cyberpunk”, já havia abordado de maneira mais que tangencial temas como o efeito das tecnologias em nossas percepções em sua reconhecida magnum opus, Neuromancer, pela qual ficou famoso mundialmente. Com a obra, praticamente fundou um subgênero, cunhando termos que mais tarde viriam a ser apropriados pela nossa realidade, relativos a redes e matrizes, e viria a impressionar e inspirar muitas produções de outras mídias como o filme Matrix.

Se o autor foi (e é) conhecido por seu retrato imaginativo, e perigosamente próximo, de um futuro onde as soluções tecnológicas e desenvolvimento do capitalismo global não salvaguardam a diminuição das diferenças sociais e o consequente conforto homogêneo em Neuromancer, em Reconhecimento de padrões Gibson volta aos olhos ao nosso presente. O livro foi publicado originalmente em 2003 e conta uma história ambientada no ano anterior, o que não impede muitos de, equivocadamente mas nem tanto, classificar o gênero em sua prateleira de ficção científica. O livro passa uma sensação do cyberpunk, de um futuro próximo… mas se passa na década passada.

Mas o que faz para passar essa sensação?

Reconhecimento de PadrõesO que eu quero dizer é que, sem clientes, não há cool. É como um padrão de comportamento de grupo ao redor de uma classe particular de objetos. O que eu faço é reconhecimento de padrões. Tento reconhecer um padrão antes que outros o façam. (p. 104)

A história da caçadora de tendências Cayce Pollard engata quando ela é contratada pelo dono da maior agência publicitária do ocidente, Hubertus Bigend. Seu objetivo: encontrar o criador de um filme amador cujos segmentos são liberados esparsamente. Um filme liberado aos pedaços, em ordem e sentido aparentemente aleatórios, e cujo mistério que sua aura mística gera faz nascer toda uma subcultura de “fãs do filme”. Bigend vê, nesta criação viral e aparentemente espontânea, a jogada de marketing do século. Quer descobrir seu feitor. Cayce, uma fã do filme por si só e excelente coolhunter, é praticamente intimada a operar, recursos ilimitados, nesse sentido.

Parte da temática gira em torno ao redor de um fórum de discussão de fãs do filme: o “Fetiche:Filme:Forum”, bastante reincidente da cultura internética do começo dos anos 2000 da qual o autor dá a impressão de ser profundo conhecedor. William Gibson, em sua precisão cibernética, não falha em recuperar, causando até certa nostalgia, este retrato da cultura da internet do começo do milênio, representada pelas trocas constantes de e-mail e pelo F:F:F. Não obstante a princípio ser mais um local de discussão com seus termos e cultura própria, lurkers flame wars transcendendo a experiência de Cayce, o fórum serve para estabelecer os eixos temáticos da obra.

Se o fórum é o próprio local de discussão, a nova ágora tecnológica, o filme é o seu tema, a representação da nova mídia moderna, pequenos fragmentos, catalisadores de atenção, a obsessão de Cayce e o objetivo de Bigend. Já o fetiche está presente na preponderância que a discussão sobre as marcas e sua influência no presente globalizado, atuantes tanto na ficção contemporânea de Gibson quanto na realidade palpável. Cayce trabalha para as empresas de publicidade, e é contraditória no sentido que é alérgica (isso é, literal e fisicamente alérgica) a marcas registradas, o que por um lado aumenta sua sensibilidade ao “cool” e ao que funciona ou não no marketing. Tem um ataque de pânico em uma loja de roupas, passa mal ao ver o boneco da Michellin. Lixa todas as marcas de suas roupas e acessórios. Não é nem sempre o ícone de fato, a imagem, que lhe afetam; mas sua situação, sua recontextualização em ambientes diversos, toda a semiótica por trás das marcas. Reage ao fetichismo da marca, o conceito do uso destas marcas como mediação das relações humanas, entre o homem e o homem, e o homem e o mundo.

O coração é um músculo. Você “sabe” no seu cérebro límbico. O berço do instinto. O cérebro mamífero. Mais profundo, maior, além da lógica. É aí que a publicidade funciona, e não no córtex superior. O que pensamos como sendo a “mente” é apenas uma espécie de glândula anabolizada, se alimentando do tronco cerebral reptiliano e da velha mente mamífera, mas nossa cultura nos engana fazendo reconhecer isso tudo como consciência. O mamífero se espalha por baixo disso como todo um continente, mudo e musculoso, realizando seus objetivos ancestrais. E nos faz comprar coisas. (p. 84)
Há muito mais criatividade hoje entrando no marketing de produtos do que nos produtos propriamente ditos, sejam calçados atléticos ou filmes. (p. 82)

 

A obra de Gibson, já famosa por sua tomada fresca e inovadora sobre tecnologia em sua ficção científica, agora reproduz esta tomada através de um acertado retrato da indústria publicitária, do fetichismo das marcas, da fascinação dos mistérios audiovisuais que o mundo presente apresenta. Da tomada do futuro pelo presente, da reimaginação do passado e da aceleração dos acontecimentos até atingir o que é conhecido por uns como o “fim da História”.

Este foco no futuro-como-presente, na tecnologia, mesmo antiga para nossos parâmetros, que permeia a vida da classe alta publicitária do começo do século, e toda esta fascinação que envolve a trama principal, com espionagens, hackers, o próprio F:F:F, tudo dá a Reconhecimento de padrões uma atmosfera que lembra precisamente uma história de ficção científica, no qual já estamos vivendo um futuro, e um futuro acelerado no qual o agora é sempre mutável e o passado é constantemente reconstruído. Um livro eminentemente visual, como no geral é a literatura de William Gibson, é de se surpreender que ainda nem sequer cogitaram a sua adaptação para as telonas.

O enredo e conclusão, sem spoilers, são muitas vezes recebidos com reações mistas. Revelações e cenas no último sexto do livro talvez pareçam por demais apressadas, o que, comparando com o começo quiçá lento, passa ao leitor uma impressão de estranhamento. Contudo, neste livro parece valer a máxima de que “a viagem é mais importante que o destino”. E, olhando para trás e para a frente ao mesmo tempo, dos atentados do 11 de setembro às perspectivas do mundo das marcas, que viagem.

Referência

GIBSON, William. Reconhecimento de Padrões. 2ª edição. São Paulo: Aleph, 2012. 416 p.

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Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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