“Os olhos amarelos dos crocodilos” é um dos 16 filmes que compõem a seleção desse ano do Festival Varilux de Cinema Francês, que rolou entre 10 e 17 de junho em 50 cidades do Brasil.

Começo esta crítica alertando que, em contraste com o título inusitado e interessante, está a trama do filme, tão previsível quanto um último capítulo de novela. Coisa não muito comum no cinema francês.

Inspirado no romance homônimo de altíssima vendagem na França, o filme gira em torno de duas irmãs opostas em todos os aspectos. Uma é a “inteligente”. Mais retraída, rejeitada pela mãe desde a infância e recém-divorciada do marido, Josephine, vivida por Julie Depardieu (sim, filha do Gérard), é pesquisadora da Idade Média e mãe de duas meninas. Já Iris, vivida por Emmanuelle Béart, é a “bela mulher” que vive uma vida de luxo proporcionada pelo marido. Todo o conflito da trama das duas se resume a essa oposição fundamental, que chega ao ponto máximo quando Iris oferece dinheiro para a irmã Josephine escrever um livro em seu nome.

irmãs opostas em posição, cores e postura
irmãs opostas em posição, cores e postura

Os demais personagens femininos podem ser compactados nos seguintes estereótipos: a mãe-viúva-casada-de novo-por-interesse, a secretária-amante, a adolescente-problema e a amiga-conselheira. E apesar da superficialidade com que são exploradas, é através delas que as histórias se abrem e se fecham, com bons momentos a serem ressaltados.

O pequeno romance quase-juvenil entre Josephine e um rapaz que ela conhece na biblioteca rende cenas de um humor sutil e delicado. É difícil o espectador não se apaixonar nem que seja um pouquinho pela tímida Josephine. Além disso, apesar de opostas, as irmãs Iris e Josephine conseguem manter uma boa relação que nos coloca para pensar: o amor de irmão é mais forte que qualquer diferença? E mais: como podem duas irmãs, criadas juntas, serem tão distintas? Para essa segunda pergunta, o filme até nos assopra uma possível resposta, mas vou deixar esse spoiler de fora do texto.

A fotografia e a direção de arte cumprem sua função. Não deixam a desejar, mas não vão além. E nada mais justo para um filme cujo roteiro também “não é lá essas coisas”.

O espectador sai da sessão de “Os olhos amarelos dos crocodilos” com o saldo de três (talvez quatro) cenas em que crocodilos aparecem, sem nenhuma relação dramática com a trama principal, e com a certeza de que a edição de 2015 do Festival Varilux de Cinema Francês deve ter algo melhor a oferecer.

 

Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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