A primeira vez que ouvi sobre Pessoa foi em uma aula da escola, onde o professor leu “tabacaria”. Explicou que havia sido escolhido o poema do século XX e, isso me impressionou de tal maneira que chegando em casa comecei a pesquisar tudo que poderia sobre Fernando Pessoa. A internet discada que eu só poderia usar depois das 18h, era pouca pra ler tanto sobre ter em mim todos os sonhos do mundo.

Chegado meu aniversário de 15 anos, enquanto todas as meninas citavam legião urbana e a língua dos anjos e sobre sem amor eu nada seria (ou algo assim), a diferentona aqui (rs), citou uma das suas frases favoritas no convite do churrasco de debut de cores tropicais:

Ás vezes ouço passar o vento. E, só de ouvir o vento passar… Vale a pena ter nascido.

Quando eu achava que não poderia estar mais perto de Pessoa, eis que vou morar na sua Lisboa. Todos os cantinhos da capital lusitana cheiram a Fernando Pessoa, são bancos com suas frases em praças públicas e todo um passeio pela beira do Tejo com seu poema (e meu) favorito.

Ninguém nunca pensou no que há para além do rio da minh´aldeia

Tive que tatuar pra nunca esquecer, no pé direito levo um pouquinho mais de Pessoa. No mestrado, no entanto, descobri que Fernando Pessoa era um bruxo, um moderno que beira a pós-modernidade. Na disciplina que foi dedicada à sua biografia e suas obras mais expressivas e modernas, descobri que ele tinha muito mais que Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares e Alberto Caeiro. Calcula-se que Pessoa tenha tido cerca de 70 heterônimos. Isso mesmo… SETENTA!

Os heterônimos de Pessoa são muito mais que assinaturas soltas para encobrir una persona, eles são de fato pessoas. Com data de nascimento, signo, profissão, história de vida, relações, visões próprias de mundo, etc. Pessoa chegava a fazer seus mapas astrais. Cada um tinha um estilo próprio e que não se repetia em um outro.

Outra coisa sobre Pessoa que não é super conhecido é que ele foi criado na África do Sul, em razão do casamento de sua mãe com um diplomata, foi viver ainda pequeno na Cidade do Cabo. Por isso, seus primeiros poemas são em inglês. Alguns críticos literários dizem que se Pessoa tivesse dedicado-se a escrever em inglês, teria sido o maior expoente do modernismo. No entanto, aponta-se a sua escritura em português como um limitador da sua voz.

Eu, particularmente, acho que Pessoa só teria sentido em Português. Uma das histórias que conheci nesse período sobre meu poeta favorito que mais me impressionou, foi que ele recebeu uma crítica de um inglês, começaram a se corresponder e, esse inglês foi visitá-lo em Lisboa. Em um passeio pelo Cabo da Roca, famoso precipício nos arredores de Lisboa, o dito inglês desapareceu. Pessoa foi acusado de assassinato mas, logo liberado sem maiores provas. Além de bruxo, místico, poeta, dono de 70 heterônimos que mais podiam ser encostos, Fernando Pessoa é, na minha humilde opinião, o artista mais curioso, interessante e misterioso.

Só tendo publicado um livro em vida, chamado Mensagem, em ocasião da sua morte, encontraram uma caixa com vários textos soltos. Que foi publicado como O Livro do desassossego, que dependendo de cada editora tem uma ordem própria, podendo inclusive faltar partes que sobre em outra edição. Esse livro é como levar seguidos golpes no estômago, forte e preciso. Fica difícil imaginar como uma pessoa leva tudo isso dentro de si. É uma viagem para leitores corajosos.

Diria que essa publicação em especial supera o modernismo e chega à pós-modernidade ainda com ares de vanguarda. Podendo ser somente obra da genialidade de Pessoa. Espero que tenha conseguido disfarçar minha paixão e, conseguido convencer você a se aventurar pelos textos do meu, já íntimo e sempre desconhecido, Pessoa.

E, para quem como eu, ama textos sobre viagem, tem um livro dele só com textos dedicados a esse tema, que é pra ser livro de cabeceira/mochileira(o). Deixo aqui a referência.

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Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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