Foto: Jonh Cooper

Em tempos de internet, comentar fatos atuais que marcaram a mídia é sempre arriscado, pois o “atual” tem um prazo de validade mais curto que o tomate orgânico que eu comprei ontem. A sensação é que já faz um mês, mas há pouco mais de uma semana o Brasil levou a maior goleada de sua história! Graças a junção da amada internet e nosso humor, as piadas se multiplicaram igual gremlins nos whatsApp’s de todos nós. Mas minha ansiedade era mesmo pela capa do fabuloso jornal popular Meia-Hora do dia seguinte. Nem ouso negar que sou fan e acho que ainda vamos ver uma exposição de arte com essas capas num futuro próximo.

Bem, mas além de piada, comentários sobre técnicas futebolísticas e relativizações sociológicas, vejo 3 temas velem a pena trazer para cá: equipe, indicadores e motivação.

Felipão deu uma entrevista após o causo fatídico onde ele assume toda a responsabilidade pela falha da seleção. Pode até ser louvável o posicionamento de mártir que ele toma, mas acho um tanto ousado trazer para si essa carga de culpa e até reducionista. Sem querer defender o, agora, ex-técnico, mas isso mostra um pouco do personalismo que algumas equipes acabam assumindo, além de evidenciar nossa egóica necessidade de encontrar um culpado, ainda que este seja você próprio. E na corrida pelo martírio, Felipão já está bem atrasado, pois há 1 ano e meio atrás José Maria Marin, na época da contratação do Scolari, soltou essa pérola:

Ele já trouxe pra si mesmo a culpa, antes mesmo da derrota. Normalmente a culpa é um ciclo, já dizia, analogamente, Barney Stinson em sua teoria The Chain Of Screaming. Ela sempre está no próximo como vemos acontecer tanto nos casais quanto em equipes de trabalho quando as coisas não vão bem. Eu acho sinceramente uma perda de tempo.

Como revela o Revelação na música: “todo mundo erra sempre, todo mundo vai errar” (ok, bateu inspiração nos links desse post). Por isso penso que numa avaliação geral mais vale evidenciar quais foram as falhas de equipe do que a culpa, para então dirimir o  erro por meio de um plano de ação. A Despersonificação do erro pode nos liberar para olhar para as competências que uma equipe precisa adquirir ou desenvolver. E isso se da pela mensuração e leitura de indicadores de resultado. Uma equipe não se faz do dia para a noite, vide Alemanha.

Na mesma entrevista do Felipão que linkei ali em cima, ele diz que a Alemanha definiu o jogo em 6 minutos, mas na verdade ela definiu a Copa anos antes, trabalhando as competências necessárias para formar uma equipe coesa e campeã mundial. Há aí uma inteligência da gestão da seleção alemã, que é louvável. Eles aplicaram o conceito de Big Data ao futebol, automatizando-o através de uma parceria com a SAP, uma gigante mundial (e também alemã) do desenvolvimento de tecnologia de gestão corporativa.

Big Data é uma ação de colhimento de dados em grande quantidade, variedade, valor e, praticamente, em tempo real, gerando visualizações para uma melhor leitura e interpretação sobre a atividade medida. E que atividade? Qualquer uma! Dados são o que você faz com eles. Eles são um dos itens mais importantes para a montagem de uma estratégia vencedora.

No caso da seleção, veja que bacana o software Mach Insights que foi criado para medição e tratamento de competências técnicas de cada jogador:

Além de tudo, ele traz um elemento muito interessante que é chamar o jogador para a responsabilidade de desenvolver as competências que ele precisa melhorar, uma vez que os dados estão lá disponíveis para todos.

Coisa de gringo que usa alta tecnologia e tem muito caro! Só que não. O uso de dados no esporte é bem mais velho do que o pentacampeonato do Brasil e temos aqui no mesmo um belo exemplo de uso de dados no esporte que gerou resultados inquestionáveis. Foi o caso do Bernardinho e o Volei Brasileiro. Dentre suas ferramentas estava a mensuração, leitura e tratamento de dados, quando ele definiu indicadores de desempenho para a atividade do Volei. Para isso ele tinha uma  uma equipe de analistas fera, focada somente nessas análises.

Não é a toa que o cara é o que é. Ele sabe que o único lugar onde sucesso vem antes de trabalho é no dicionário. Uma ilustração disso aconteceu  no dia seguinte a uma vitória de um campeonato, quando Bernardinho convocou a seleção para um treino rápido para tratar de algumas falhas que ele notou no ultimo jogo. Pense na dedicação…

Imagino que se nós nos apropriássemos atropofágicamente de técnicas como essas, nosso improviso e criatividade, tão naturais ao brasileiro, seriam o plus que nos levariam além, seja nos negócios, no esporte ou  na gestão cultural.

E para fechar: momentos de derrota como o que passamos, escondem uma motivação muito peculiar. Os momentos de crise geram para um campo fértil de oportunidades. A Alemanha, por exemplo, foi abaixo duas vezes na história mundial e hoje é uma das maiores potencias da União Europeia.

Outro exemplo foi o caso que ocorreu com Tomas Edison. Cem anos atrás, em 1914, seu  laboratório sofreu um incêndio que destruiu a pesquisa de uma vida inteira de dedicação. Aos 67 anos, o pesquisador assistiu décadas de trabalho serem dominadas e dizimadas pelo fogo e ao olhar para essa cena Edison teria afirmado: “Graças a Deus que todos os nossos erros foram queimados. Podemos começar de novo, do zero”.

Inté!

PS: Gol da Alemanha.

Thiago Saldanha
Uma pessoa em processo. Todos os dias acordo com fome por informação e tento absorver o máximo que posso. Sinto-me um eterno aprendiz. Estou aproximadamente conectado 85% das horas em que estou acordado e pretendo equalizar ainda mais essa conta entre real e virtual... é preciso equilíbrio nessa vida. Na verdade sou meio fissurado por tecnologias e redes digitais, tanto que comprei meu primeiro celular ainda moleque, economizando dinheiro do lanche e da passagem, enquanto minha mãe achava o Teletrim um máximo. Falando em mãe, ela foi quem me levou para assistir a primeira programação cultural que tenho memória, um teatrinho infantil perto de casa. Anos depois, eu quem estava naquele mesmo palco. Mais um pouco e saí do palco, fui para a coxia e para a técnica. Na sequência a coordenação de palco, a produção e agora a gestão, mas não mais naquele palco e não mais com Teatro, mais ainda na cultura. Sou do mato, do mar e do ar. Meio viciado em adrenalina. Adoro cafés e cerveja. Sagitariano com ascendente em escorpião e quero mais sempre, não que isso signifique que quero muitas coisas. Como há escrito em alguns muros de algumas cidades: as melhores coisas da vida, não são coisas.

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