As políticas públicas culturais são ações que influenciam diretamente as construções e representações identitárias de determinada cultura. Portanto, a análise das políticas empreendidas pelo Ministério da Cultura é também um exercício de entender que proposta de cultura e identidades é construída por parte do governo. A cultura é estratégia de governo.

Sabemos que a cultura é um dos elementos que mais facilita a aproximação entre dois povos, não é a toa que cultura e educação são as estratégias adotadas pelos governos para estreitarem os laços e relações para, então, estimularem acordos econômicos e políticos.

Sempre me sinto provocada a refletir sobre isso quando me perguntam o quão violento o Brasil é, ou como nossos biquínis são pequenos e o quanto vivemos na praia o ano todo, 24h por dia. Essas identidades fazem parte de um plano estratégico?

Paralelo a isso, quando comecei a pesquisar pro mestrado sobre a construção da identidade Erasmus (uma vez mais a educação e cultura sendo usadas para aproximar um bloco econômico e suas relações políticas), descobri que todos os filmes sobre jovens estudantes de intercâmbio eram passados em Barcelona. E, porque? Se a capital catalã não é o destino principal dos estudantes em intercâmbio, nem na Europa, nem na própria Espanha? Isso faz parte de um plano estratégico?

A verdade é que as nações são invenções. Respira! Calma! Eu sei… É agoniante. Não existe Brasil, nem Estados Unidos, nem Iraque.

Existem invenções e construções de sentimentos que nos fazem sentir acolhidos em determinada cultura (para quem tá curioso: pesquisar Benedict Anderson e as comunidades imaginadas). Língua, moeda, religião e muitos outros elementos que nos poupam de questionar muito sobre a existência e, portanto, fazem a manutenção desse mundo feliz, desigual e cruel.

Ok. O que as políticas do MinC, o biquini brasileiro, os filmes Erasmus e as invenções de identidades nacionais tem a ver? Todos são projetos de identidades culturais e/ou nacionais. As ditaduras já usaram isso pra manter a segurança nacional e, os interesses econômicos e instituições comem isso no café da manhã e nos fazem engolir o que é ser.

Até o final desse mês será lançado o Plano de Internacionalização da Cultura Brasileira pelo MinC. Isso é, serão empenhados esforços na difusão da cultura brasileira através dos consulados e embaixadas e acordos entre entidades culturais. O foco é situar a cultura como ponto nevrálgico e estratégico de desenvolvimento, através da economia criativa, mas visando também o desenvolvimento de outros negócios.

Pergunto-me qual a diversidade cultural dessas propostas. Para quem conhece as iniciativas clássicas referentes a cultura brasileira no exterior, sabe que a diversidade não é algo muito contemplado. Se exportam estereótipos, porque favela, carnaval e futebol definitivamente: vendem!

No entanto, o MinC desde 2014 vêm mostrando um esforço de levantar outros bandeiras nesse processo de internacionalização, exportando não só biquinis e clichês, mas modelos de gestão. Prova disso é o seminário Cultura Viva essa semana em Caracas Venezuela. Com o êxito dos programas dos governos PT, passamos a vender modelos de gestão cultural. Isso não é incrível?

Ou seja, além de estarmos caminhando para a construção consciente de uma imagem do Brasil internacionalmente, estamos, também, ensinando como se faz gestão cultural, através das boas práticas que funcionaram no nosso território. Nos inventamos, nos construímos e agora vendemos o know how do processo.

Para quem ficou curioso sobre o assunto, a Internacionalização da Cultura Brasileira é um objeto transversal que engloba diferentes agências (APEX, SEBRAE, etc.) e órgãos governamentais (Ministério das Relações Exteriores-MRE, Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio exterior-MDIC e também diferentes secretarias do MinC, etc.). Por se tratar de um objeto transversal que entra direta e/ou indiretamente nas competências de diferentes órgãos, essas dimensões muitas vezes se tocam e colaboram, todavia, acredito que vem muita novidade por ai com o Plano de Internacionalização da Cultura Brasileira. Curiosa para conhecer o plano estratégico e que Brasil está para ser inventado pelas nossas políticas públicas de cultura.

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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