Opa, e aí tudo bem? Você deve estar ansioso pra ouvir mais um pouco sobre samplers e tal, já que eu disse na semana anterior que continuaria esse papo hoje. Mas mudei de ideia e acho que talvez seja melhor variar um pouco o tema pra não esgotarmos todas as possibilidades cedo demais. Também queria ter preparado uma surpresinha de samples pra você, mas simplesmente não tive tempo, então ficará para uma próxima ocasião. O que eu gostaria de propor hoje é uma reflexão que já venho adiando há bastante tempo. Algo que já havia prometido trazer pra nossa sessão quinzenal de terapia musical mas que por vários motivos acabou não acontecendo. Hoje no entanto, vamos arregaçar as mangas e cair dentro desse bendito assunto e talvez descobrir por que diabos ele foi tão postergado, coitado. Vamos falar da famigerada Parte C! Conhece a Parte C? Aquela que fica entre a Parte B e a Parte B de novo? Ei, por que você tá com essa cara de quem não tá entendendo nada?

 

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“Que headphone?”

 

Opa calma aí, não precisa se irritar! Você sabe que adoro fazer um suspensezinho antes de partir pra doideira, né? Pois é, e nesse caso a gente precisa falar sobre Forma Musical primeiro pra você entender melhor o que é essa Parte C afinal. Então vamo nessa: Quando falamos de forma em uma peça musical, estamos nos referindo a uma estrutura, um plano a ser seguido, que delimitará diferentes seções da mesma, ou partes, geralmente representadas por letras maiúsculas. Meio complicado? Na verdade não! Vamos ouvir aqui uma parada rapidinho e você vai se ligar na hora sobre o que estamos falando. Como um exercício adicional, tente perceber as diferentes partes da música e dar nome a elas (dica: se liga nas mudanças de figurino da Britney):

 

 

E aí? Tá com vergonha porque você curtia Britney quando era adolescente? Claro que não, né? O importante é que ela agora te ajuda a entender um pouco mais sobre a Forma Musical! E não tem gênero melhor pra estudar forma do que o Pop; é praticamente uma receita de bolo, vai por mim! Pode ser um pouco difícil perceber logo de cara todas as seções desse exemplo, mas se você seguiu a minha dica deve ter se ligado em pelo menos 3 partes distintas ao longo do clipe: colegial comportada, mas nem tanto; cheerleader de folga; e cheerleader matando aula, certo? Você também deve ter reparado que a parte da cheerleader de folga é praticamente a mesma  da colegial comportada, mas nem tanto, e que a parte da cheerleader matando aula já começa de forma diferente em vez de repetir o que foi apresentado antes. E o que será que isso nos diz sobre o conceito de Parte A, B e C?

Agora você tá pensando da forma correta! Mas ainda falta um pouco, olha só:

 

 

A Britney mostrou que geralmente a música Pop tem 3 momentos: apresentação, repetição e alteração. Mas a Rihanna mostra que esses momentos ainda podem ser divididos em partes menores e o próprio clipe ainda indica exatamente onde começa a tal Parte C de que a gente tem falado tanto nesse post.

Presta atenção como no início a música tem poucos elementos, a Rihanna canta poucas notas de forma delicada e bem baixinho, como se tivesse preparando o ouvinte pra alguma coisa. A gente podia chamar isso de verso, mas vamos chamar de parte A, pode ser? Ótimo, agora repara como logo em seguida quando ela finalmente diz “Caaaaalifornia King Beeeed” a música ganha um peso e uma força que não estavam ali antes, reparou? Todo mundo chama isso de refrão, mas a gente vai chamar de parte B, ok? E o que vem depois da parte B?

Exatamente! Parte A de novo! Lembra do segundo momento, que a gente chamou de repetição? Pois é, agora é hora de repetir o que rolou no início da música com algumas pequenas adições, mas nada de mais, porque depois dessa repetição é que vai vir o grande segredo! E o diretor do clipe ainda deu um help pros mais desavisados: assim que acaba o segundo refrão a gente escuta um solo de guitarra refazendo a melodia da voz, e logo em seguida acontece o que? A imagem fica inteira em preto e branco pra mostrar pra você exatamente onde começa e termina a bendita Parte C! Que lindo!

Então a gente pode dizer com segurança que a Parte C vem depois da repetição da Parte B (refrão)? Pode, acho que pode sim! Maravilha, descobrimos onde ela se encaixa, mas pra que serve? Porque ela tá presente em toda música Pop? Ainda não sei, mas vamos chamar a Rainha da Parte C pra ver se a gente descobre:

 

 

Acredite quando eu digo que a Katy Perry é A Rainha da Parte C, porque absolutamente todas as músicas dela tem uma atenção especial pra esse momento. E ao contrário da Britney e da Rihanna, a Katy Perry compõe as próprias canções, então ela sabe exatamente o que ta fazendo quando repete o verso (parte A) e o refrão (parte B) duas vezes cada um, antes de jogar o C pra voltar com o refrão de novo com tudo no final de todas as suas músicas.

Nesse exemplo deu pra identificar fácil onde a Parte C aparece, certo? É como se ela fosse uma espécie de quebra com a dinâmica da música; há um esvaziamento do arranjo, uma sensação de flutuação, suspensão, como se alguma coisa grandiosa estivesse por vir. E é exatamente pra isso que serve a Parte C, já que logo em seguida sempre vem a terceira repetição do refrão! Ahá! Pra comemorar vamos ouvir um som de uma das Princesas da Parte C:

 

 

A Taylor Swift também sabe exatamente onde e quando jogar a Parte C. Pensa comigo: você já apresentou o verso seguido do refrão e em seguida repetiu esse mesmo esquema verso-refrão (A-B-A-B), e essa brincadeira deve ter comido quase 3 minutos do tempo do ouvinte então é bom ir se preparando pra sair de cena. Mas o que fazer? Repetir o verso-refrão de novo? O pessoal já deve tá no limite do cansaço a essa altura, se o verso se repetir de novo eles podem mudar de estação! E agora? Agora é a hora perfeita pra jogar o C. Uma informação nova pra manter o interesse do ouvinte, mas ao mesmo tempo curta e crescente pra levar ele direto pro refrão de novo. Só que dessa vez o refrão é turbinado pela quebra de dinâmica que acabou de ser proporcionada pelo C e de repente ele parece muito mais empolgante! Essas espertinhas usam repetições e alterações estratégicas na forma das músicas pra manipular e gerenciar o seu interesse nelas enquanto ouvinte! Não é incrível (e só um pouquinho assustador)?

Muitas vezes o C também é chamado de Break ou beeeem de vez em quando como a Sandy gosta de chamar, Ponte (embora eu não concorde):

 

 

Agora sim deu pra aprender esse negócio de ABC né?

André Colares
Me chamo André Colares e sou formado em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro; estudei orquestração e contraponto, bem como composição para tv e cinema. Trabalhei como arte-educador em música no setor educativo do CCBB do Rio de Janeiro e atualmente moro em São Paulo, onde curso a carreira de composição musical na Omid Academia de Áudio. Trabalho como compositor de trilhas sonoras e/ou sound designer para cinema, teatro e publicidade; mas principalmente vídeo games, que são minha maior paixão desde sempre. Musicalmente gosto de tudo e estou sempre inclinado a considerar qualquer manifestação musical como algo bom e de valor. Qualquer Manifestação Musical. Então pra mim não existe esse papo de música ruim, certo? Que bom que combinamos isso! Também sou mal-humorado, daltônico, magrelo e barbudo. Nessa ordem.

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