teatro2 (1)Um trabalho artístico consiste em querer passar uma mensagem. Essa mensagem – peça, quadro, música, filme – se codifica em uma estrutura, sendo essa tarefa compreendida como “meio”, “modo”. A fruição desse conteúdo é particular: mesmo a informação democraticamente passada representará ao espectador um significado próprio (a percepção íntima é um filtro específico e intransponível, apenas compartilhável).

Ao que tenho tido acesso, os espetáculos se concentram em estruturas dinâmicas de apresentar sua mensagem. Até porque a vida é assim, tumultuados eventos e atividades que se sobrepõem, se superam e tomam o lugar da sua atenção. A produção de arte, funcionalmente selecionada num mundo caótico de possibilidades, garante que sua representação seja como o artista desejar; ainda assim essa vontade carrega a devida responsabilidade.

Fatal tem duas cadeiras. O texto é trabalhoso. E parece ter-se optado por simplificar, minimizar preocupação no desenvolvimento estrutural da cena, afinal de contas tendo menos elementos, temos menos proposições, certo? Errado. Invade-se o terreno das mitologias do amor, do amor épico, histórico nem tão distante de nós. A opção arriscada de manter os atores na imobilidade de seus assentos permite a eles o peso de transmitir a mensagem somente na representatividade do rosto, postura e voz. Mensagem esta muito simples, clara, sobre o amor…

Jô Bilac, Marcia Zanelatto e Pedro Kosovski compilaram uma dramaturgia inspiradas pelas histórias de Eros e Psiquê, Tristão e Isolda e Kama e Rati, elevando a paixão e o amor, e os mitos que os resguardam, a um pedestal onde os atores desempenham (mais que) satisfatoriamente o tom da emoção. Os três atos dispostos em Fatal nos convida, às escuras, para um passeio entre os intervalos dos sentimentos, daqueles que não vemos por aí, mas que nos emociona quando somos postos frente à frente.

O foco era iluminar inovadoras perspectivas do amor lendário e, falando nesses termos denotativamente, Tomás Ribas (iluminação) e Aurora dos Campos (cenografia) trazem tons cinzas após a cegueira em Eros e Psiquê, luzes que escapam por frestas, como se estivéssemos vendo o que não podíamos. Com Isolda surpreendentemente apaixonada por Tristão, o ambiente se ilumina e enquadra os amantes para que observemos as lacunas de um romance arruinado. A súplica intensa pede vigor alaranjado de Rati, que não se engana, que tem em mente e em coração sua verdadeira vontade de forma clara: “Kama deve voltar”.

A direção de Guilherme Leme Garcia, que tem colaboração artística de Vera Holtz, revela o seu terceiro trabalho dentro de uma trilogia (RockAntígona, 2010 e Trágica, 2014) sobre esse universo sentimental, clássico. Guilherme foi generoso com seus atores, pois confiou a eles um exercício de entrega, mergulho pré-afogamento, que suga de suas fontes de referência, seus acervos passionais, para trazer o mais catártico dos dramas essenciais. Debora Lamm, da Cia OmondÉ, e Paulo Verlings, da Cia Teatro Independente, envolvem suas verdades, transam suas técnicas teatrais. O público testemunha essa copulação e atinge o clímax do ato junto aos parceiros, a orgia é poética.

O mais tocante, aliado a efeitos técnicos, foi a projeção e direcionamento vocal dos intérpretes. Fundamental para a condução de uma obra teatral e para a emissão conteudista, está no trato da fala que, nesse espetáculo, recebeu o respaldo necessário dos talentosos atores e diretor. No âmbito sonoro, a trilha de Macello H conversa harmonicamente com os três atos.

A realidade volta após o espetáculo. Os atores entram em contato finalmente (durante o espetáculo a menção de um a outro é mínima); aos poucos o que é tão aclamado se torna nublado e a procura se mantém, a qualquer custo, por esse conceito indecifrável e ressonante do amor.

SERVIÇO
Espetáculo: Fatal
Temporada: 19 de fevereiro a 10 de abril de 2016
Local: Oi Futuro (R. Dois de Dezembro, 63 – Flamengo)
Informações: (21) 3131-3060
Dias e horários: Quinta a domingo, às 20h
Capacidade: 63 lugares
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Gênero: Drama
Ingressos: R$30 (inteira) e R$15 (meia)

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Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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