Fahrenheit 451 é a temperatura necessária para se queimar uma folha de papel. É também (e por isso) o nome do livro de Ray Bradburry, levado às telas por Truffaut em 1966, em um dos raros casos de um filme tão bom quanto a obra original.

O enredo se passa em uma realidade distópica, em que livros são proibidos e a função dos bombeiros é incendiá-los. Inúmeras interpretações surgiram, desde as que o interpretam como uma crítica às ditaduras, até as que falam sobre como a TV destrói o hábito de leitura e gera uma sociedade de indivíduos incapacitados de pensar por conta própria.

Independentemente da interpretação escolhida, a inibição da prática de leitura é sempre algo que retira do indivíduo a capacidade de relacionar conceitos e ideias. A literatura, como toda arte, é muito perigosa: muda os costumes, desestabiliza governos, transforma pessoas. Mesmo quando tudo parece ser dito, ela sempre mostra que há algo novo a se dizer. Para um regime que não admite oposições, amordaçá-la é indispensável.

No último dia 31 de março, completaram-se cinquenta anos do golpe civil-militar que gerou uma ditadura de vinte e um anos. A realidade da censura é inquestionável. Esse dado, porém, pode dar margem a uma intepretação errada sobre o desenvolvimento de nossa indústria: mesmo com a censura, o que ocorreu na nossa produção de livros foi a sua consolidação e expansão.

Esse paradoxo tem várias explicações e muitos livros já foram escritos sobre o tema, mas dois fatores foram fundamentais: o incentivo à propaganda oficial e a expansão do ensino público. O modelo desenvolvimentista da ditadura militar encarava o ensino como mera qualificação de mão-de-obra para indústria, e, enquanto mantinha matérias críticas e humanistas fora do currículo, investia em livros didáticos e paradidáticos. A Editora Abril se tornou a editora que mais lucrou nessa época, investindo em diversas coleções (como as de banca de jornal) para um público em formação. Até hoje, o livro para adoção escolar é a galinha dos ovos de ouro das editoras.

Literatura e produção de livros são coisas completamente diferentes. Uma é imaterial e cultural, a outra é a fabricação de um objeto que serve de suporte. Mas isso não significa que fortalecimento da indústria editorial impedia os editores de combaterem o regime. A Civilização Brasileira é um exemplo disso. Antes mesmo de 1968, período conhecido como golpe dentro do golpe, Ênio Silveira, editor-chefe da editora, já havia sido preso algumas dezenas de vezes, número que com o tempo só viria a aumentar.

Um fato largamente conhecido sobre a nossa ditadura foi a imensa produção artística da época. A barreira da censura impunha um limite entre o que podia ser dito e o que deveria ser calado. É aí que entra a beleza da literatura. O discurso científico se pauta pelo “aquilo que se diz sobre algo”, enquanto a literatura é o “como se diz algo”. Na impossibilidade de se dizer certas coisas, alguns autores não se calaram, apenas rebuscaram, inovaram e falaram de outra forma aquilo que havia a ser dito. Os censores podiam entender discursos objetivos e claros, mas eram insensíveis à força da poesia. Quando tentavam, cometiam gafes. Nos anos 60, o regime mandara prender um autor acusado de subversão. Não conseguiram, afinal ele já se encontrava morto havia mais de quatrocentos anos antes de Cristo. Stanislaw Ponte Preta relata em sua deliciosa obra, FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola o País, o dia em que Sófocles foi considerado um subversivo comunista muito antes de tal corrente de pensamento existir.

Outros autores optaram por caminhos diferentes: já que não se podia falar do que acontece do lado de fora, resolveram falar do que acontecia dentro deles. A literatura intimista se tornou uma característica da produção daquela época, com autoras como Ana Cristina César e Clarice Lispector que escreviam para si mesmas, através de uma escrita recheada de experimentações nas formas e em linguagens diversas. Como o prisioneiro que deixa marcas em sua cela apenas para se certificar de estar vivo.

O Brasil não é o único país em que a presença de um regime militar ainda deixa marcas profundas sobre o que se é produzido. Nossa vizinha, a Argentina, produz ainda mais livros, filmes, quadros, peças de teatro e qualquer outra forma de manifestação artística sobre seu período ditatorial. Nós, em relação a eles, ainda somos tímidos, mas nosso regime militar ainda está longe de ser esquecido – ainda bem. E é por isso que escrevo esta coluna, recontando brevemente alguns fatos sobre nossa literatura e nossa produção de livros durante o período. Falo sobre o Golpe porque não poderia ser de outra forma. E se ainda é muito doloroso  falar daquela época, a voz de Drummond me lembra de que mesmo do mais duro asfalto é possível que se nasçam flores.

*Escrito por Yago Barbosa – Fã de literatura desde pequeno, obcecado por ciências sociais e cognitivas, amante de fotografia e design gráfico, Yago Barbosa transita entre a multidisciplinaridade e um interesse genuíno de entender como os meios de comunicação operam e quais são as consequências de um mundo midiático. Estudante de Comunicação Social, na Escola de Comunicação da UFRJ, se especializando em Produção Editorial, em sua breve história como gente grande já atuou como designer em uma grande empresa de logística; participou de projetos de iniciação científica; na organização do Seminário Internacional de Fotografia e Experiência, em 2012 no Centro Cultural da Justiça Federal; e atualmente é estagiário de Ficção Estrangeira no Grupo Editorial Record, o maior conglomerado editorial da América Latina. Espantado com os poucos sites e materiais publicados no país sobre o mercado editorial, pretende compartilhar dados, informações e tendências do mercado de forma crítica e acessível.

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Literatura de 02 de abril à 02 de agosto de 2014.

Yago Barbosa
Fã de literatura desde pequeno, obcecado por ciências sociais e cognitivas, amante de fotografia e design gráfico, Yago Barbosa transita entre a multidisciplinaridade e um interesse genuíno de entender como os meios de comunicação operam e quais são as consequências de um mundo midiático. Estudante de Comunicação Social, na Escola de Comunicação da UFRJ, se especializando em Produção Editorial, em sua breve história como gente grande já atuou como designer em uma grande empresa de logística; participou de projetos de iniciação científica; na organização do Seminário Internacional de Fotografia e Experiência, em 2012 no Centro Cultural da Justiça Federal; e atualmente é estagiário de Ficção Estrangeira no Grupo Editorial Record, o maior conglomerado editorial da América Latina. Espantado com os poucos sites e materiais publicados no país sobre o mercado editorial, pretende compartilhar dados, informações e tendências do mercado de forma crítica e acessível.

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