Na crônica desta semana tomamos a liberdade de escrever sobre aquilo que quiséssemos, independentemente de nossas áreas de atuação. Assim que escolho registrar algumas ideias que tive em conversa com minha querida amiga Dê Bacco. Dê Bacco não é do Rio de Janeiro. Dê Bacco cresceu junto aos melhores vinhedos deste país – os da honestidade – e, tendo assim nascido e crescido, Dê Bacco sempre se permitiu experenciar o mundo. Eis que, Dê Bacco, uma princesa cujo reino está em construção, casou com um príncipe que também está se construindo. Juntos, os dois se mudaram para a cidade do Rio de Janeiro, vislumbrando na Cidade Maravilhosa um encontro consigo.

 

No início da estada na Cidade Maravilhosa, o príncipe de Dê Bacco estudava e buscava compreender como a economia desta cidade se dá. É tanta coisa louca acontecendo que minha amiga, a princesa Dê Bacco, me contou que ele ainda está estudando e trabalhando duro para tentar compreender. Dê Bacco por sua vez, ao chegar na cidade se assustou com um tanto de maneiras de pensar diferente. Mas seu encantamento com o mundo é de tal ordem, que ela não aceitou ficar assustada e começou a trabalhar para levar fantasia à mente das crianças, tentado mostrar-lhes que “há um vilarejo ali, onde areja um vento bom” e onde as crianças podem acreditar em conto de fadas porque elas podem e devem ser crianças. Mas Dê Bacco queria mais! Dê Bacco queria compreender a arte de viver. Dê Bacco queria compreender ou ao menos se situar na arte da qual a vida não lhe deu outra escolha a não ser a entrega – Dê Bacco foi pesquisar sobre voz e construção de personagens. Neste caminho, ela observou a cidade onde está e sua relação com o mundo foi mudando.

 

Para ela, a cidade do Rio de Janeiro possui indiscutível relevância nacionalmente e internacionalmente. São muitos os seus aspectos sejam em termos políticos, econômicos e sociais. Se a Cidade Maravilhosa já atraiu e ainda atrai tantos turistas, também chamou a atenção de grandes cientistas, como o físico Albert Einstein, o antropólogo Claude Lévi-Strauss, o fotógrafo Marcel Gautherot, para citar alguns.  De forma análoga, O Rio de Janeiro continua a atrair a atenção de muitos pesquisadores, cientistas, teóricos e artistas que, invariavelmente passam a ter suas trajetórias de alguma forma marcada por esta cidade.

 

Alguns são tragados de tal maneira pelo Rio de Janeiro que, aqui fixam moradia e carreira, como o caso da princesa e do príncipe De Bacco. Outros, apesar de todo encantamento, possuem moradia fixa em outras paragens, ainda que com parada fixa-preferencial-obrigatória na Cidade Maravilhosa. Havendo, ainda, aqueles cariocas que, uma vez nascidos em terras fluminenses, daqui sempre serão e por elas são invariavelmente marcados.

 

Tendo observado tudo isso, Dê Bacco conversou comigo o quanto sua visão de mundo havia mudado com sua escolha e opção por ter vindo morar aqui. O quanto seu ponto de vista sobre o mundo se transformara e o quanto ela estava impregnada e emprenhada de todas as belezas e mazelas destas terras.

 

Em conversa com a princesa Dê Bacco, lhe falei que sem dúvida alguma, “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”. Sem dúvida alguma, minha terra tem encantos mil, paisagem maravilhosa e gente das boas, das melhores. E foi neste ponto da conversa que paramos para que não chegássemos a achar que, mesmo lutando e batalhando por uma Cidade Maravilhosa, “ainda somos os mesmos”. Eu e minha amiga não queremos ser mais do mesmo, mas sim pensar e agir para uma realidade na qual “o novo sempre vem” como diria Belchior. E é apontando para o novo que fechamos esta etapa das crônicas, no desejo de que o novo sempre venha para trazer renovação e transformação para nós, para nossa cidade e para aqueles que importam. Agora, acho mesmo que talvez Dê Bacco já diga: “Eu sou do Rio de Janeiro”.

 

FELIZ NATAL,

Caroline Alciones

 

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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