Está preparado para ouvir uma verdade? Tem certeza? Então pegue uma aguinha, se sente e relaxe, porque aqui vai: Nada mais interessa ao ser humano do que ele próprio. A gente pode tentar esconder e às vezes pode ficar até de saco cheio, mas no final nós só pensamos em nós mesmos. E não estou tentando dizer aqui que somos egoístas por natureza. A questão é que nós temos uma mente incontrolavelmente obcecada em autoanálise. Ela cria uma imagem de nós mesmos a cada instante e, mal essa imagem é criada, a mente parte para criticá-la “Eu já estive melhor” ou “Não estou parecendo eu mesmo”.

Droga! Ainda não estou fofo o bastante!
Droga! Ainda não estou fofo o bastante!

A coisa é tão ridícula que, quando a gente faz a inocente pergunta para alguém “Você está bem?”, nós imediatamente iremos comparar sua resposta com nosso estado de espírito. Se disser “Nossa, estou ótimo”, nós vamos logo pensar “Porra, que inveja. Por que não fico assim?” ou “Metido do caralho”. E se a resposta for “Estou mal, cara”, muito provavelmente a gente vai pensar “Ih, lá vem o mala baixar o meu astral! Só tava perguntando por perguntar.”

A todo momento estamos nos refletindo no outro numa tentativa de nos entender. E ao mesmo tempo só somos capazes de entender o outro ao pensar em nós mesmos. Essa intensa autoanálise muitas vezes é feita de forma quase inconsciente, mas o artista possui uma percepção aguçada dela e vai usá-la para criar. É comum ele transformar a autoanálise numa ficção, construindo enredos e personagens que são no final uma elaboração da identidade do autor. Mas também ele pode partir para a não ficção autobiográfica, refletindo sobre sua própria história de vida e sobre o mundo ao seu entorno.

O quadrinho, talvez, seja o meio mais rico em autobiografias (alguma delas já mencionei aqui, como Retalhos). E com uma particularidade especial: a necessidade do autor de desenhar a si mesmo. Isso torna mais clara a ideia de que o tempo todo nós estamos nos construindo. Ao se desenhar, o quadrinhista está realçando a forma como ele se vê, mas também como quer ser visto. Há um distanciamento maior em comparação com a autobiografia na literatura. Me lembro de ter lido uma entrevista da iraniana Marjane Satrapi, autora de Persépolis, em que ela diz que se sentiria muito idiota e egocêntrica escrevendo eu penso isso, eu fiz aquilo. Era muito mais fácil para ela se expressar por um desenho, pois facilitaria colocar sua vida em perspectiva.

Apresento a vocês Marjane e Marjane.
Apresento a vocês Marjane e Marjane.

Para quem não leu Persépolis, ou viu o filme, Marjane Satrapi conta a história de como foi crescer no Irã em meio à revolução que colocou o islamismo no poder. O desenho é bem estilizado, chapado, com uso apenas de preto e branco. Isso permite amenizar graficamente momentos pesados, mas ao mesmo tempo contribui para uma linguagem mais simbólica, lírica e até lúdica. Afinal, Persépolis fala de morte, guerra, repressão, mas também de coisas triviais como namoros, festas, problemas de casamento, tudo aquilo que você encontra em qualquer país.

persepolis
A tragédia está misturada ao cotidiano em Persépolis. Aqui no Brasil foi lançado um volume único das histórias pela Companhia das Letras.

A pessoalidade, o fato de ser o autor retratando o seu ambiente e as pessoas à sua volta, com histórias muito focalizadas dão um ar de crônica à autobiografia. Essa característica vai ser explorada ao extremo pelo quadrinhista Harvey Pekar.  Ele é um dos nomes mais importantes do underground americano e se dedicou a escrever sobre sua vidinha sem glamour no lado B do American Way of Life através de sua revista American Splendor, lançada em 1976 .

Qualquer assunto pode aparecer nos quadrinhos de Harvey Pekar. Há uma história em que é apenas o Harvey, em vários quadros similares, falando sobre o nome dele: a origem, as contradições entre ele e o nome, os trocadilhos e assim vai.  O seu estilo é bem calcado na fala, com muito texto, pouca ação, uma certa rudeza, ao mesmo tempo uma sensibilidade e apreço pelas pessoas comuns e aquelas esquecidas pela cultura norte-americana tradicional.

Essa é apenas parte da história.
Essa é apenas parte da história.

Porém, o mais interessante em Harvey Pekar, quando comparado com outros quadrinhistas fazendo autobiografia, era que ele só escrevia os roteiros e fazia os esboços. Não desenhava.  A arte era feita por convidados, razão por que às vezes o estilo do traço muda bastante. Isso permite uma miríade de encarnações do Harvey Pekar, cada artista realçando uma faceta do autor. Ele pode ter a forma de um ogro ou de um personagem de cartum, ou pode aparecer num traço realista cheio de sombras e rabiscos, mas também num estilo mais claro e limpo, com uma atmosfera menos tensa.

Tem Harvey para todos os gostos.
Tem Harvey para todos os gostos.

O próprio filme baseado na vida de Harvey Pekar, o Anti-Herói Americano, brinca com a ideia de várias versões do autor, misturando cenas onde aparece o próprio Harvey com cenas onde o ator Paul Giamatti encenava situações da vida dele. É uma produção muito legal, vale a pena até para quem não curte quadrinhos, e é uma das melhores atuações de Paul Giamatti.

É muito símbolo sexual, gente!
É muito símbolo sexual, gente!

Agora, nem sempre o objetivo dos quadrinhos autobiográficos é narrar a vida do autor, mas sim trabalhar uma determinada experiência. Muitas vezes são obras que flertam com o jornalismo. Um exemplo são as graphic novels do francês Guy Delisle. Seus principais trabalhos — Crônicas de Jerusalém, Shenzhen, Pyongyang — giram em torno de viagens do autor a uma determinada cidade e as situações vividas e observadas ali.

Algumas das obras lançadas no Brasil.
Algumas das obras lançadas no Brasil.

Já o quadrinhista Joe Sacco vai se volta bem mais para o jornalismo. Muitos de seus quadrinhos são frutos de visitas a áreas destruídas por guerras. O seu objetivo, muito mais do que fazer uma narrativa, é informar o leitor sobre uma realidade. Mas, diferente do jornalismo típico, a participação do autor é visível e a pessoalidade é muito mais forte do que a impessoalidade.

Joe Sacco

A lista de quadrinhistas que optaram pela autobiografia é enorme. A necessidade da arte sequencial de construir uma imagem de si mesmo parece atrair os artistas, permitindo a eles transpor os limites entre a não ficção e a ficção. Diferente da literatura, onde autobiografias são geralmente percebidas como obras burocráticas e autoindulgentes, nos quadrinhos são uma experiência poética e em alguns casos experimental.

E fica aqui um desafio para você. Pegue um lápis e um papel e comece a se desenhar. Quem sabe acabe descobrindo algo para sobre si mesmo.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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