inquestionavelInicialmente, agradeço a oportunidade de poder revelar minhas palavras sobre aquelas que clamam, de uma forma indireta, por elas: Maria Helena Coelho Barros e Estamira Gomes de Sousa.
Estive no último final de semana descobrindo Estamira, Dona Maria Helena e Dani Barros, até convidei minha família (a qual tem um integrante com perturbação mental) ao Teatro Poeira, e eu agradeci, todos os minutos, qualquer pessoa que possibilita o instante de conexão do meu parente com o mundo, tal qual Dani menciona em relação a sua mãe, Maria.

O espetáculo surge da adaptação do documentário homônimo de Marcos Prado (2006), e teve sua primeira temporada em 2011. Em sua composição teatral, o caráter autobiográfico inscreve mais intensamente a qualidade do desmoronamento de convenções lógicas em virtude de uma militância da empatia.

São sacos coloridos (uma bagunça orientada) com a atriz centralizada num banco entre dois ventiladores. Nessa instalação de Aurora Campos, somos espectadores-restos desse lixão “hipócrita, mentiroso e esperto ao contrário” que representa nossa sociedade e sua relação com a vida dos outros, sua intolerância com o desconhecido e com o além da razão. Estamira vem nos revelar a verdade e, sendo essa a sua missão, nos põe em lugar de profunda investigação, propriamente interna, remoendo nossa escuridão, cortando-a com raios luminosos de compaixão e misericórdia.

Num tecido amarrado de tom e entretom, não sabemos quem vai ser a próxima a falar conosco; primeiramente é reivindicado nossa confiança de entrega para acolher qualquer passagem, seja da catadora do lixão, da mãe ou da atriz devota. Para entender Estamira e todo o universo apresentado sob a direção de Beatriz Sayad é preciso estar rendido. Mas do que? De qualquer construção e estruturação que acumulamos com o convívio e experiência com o externo, com o outro; é preciso abandonar conceitos e se permitir à nítida palavra transportada de mentes dadas por insanas, afinal, “o que é imaginado é, existe, tem”.

Ao desajuste das mentes, são oferecidas variadas conexões e frequências extemporâneas, transcendendo a prisão cômoda e condicionada do tempo, espaço, dimensão. Ao arranjo de Dani e Beatriz, os merecidos aplausos são referentes a coordenação da humanidade e lucidez de personalidades marginalizadas, pois, desde muito tempo, os não compreendidos são ejetados como materiais descartáveis, como inúteis na inserção racional e objetiva que vivemos. No entanto, Estamira nos lembra de que tudo é abstrato.

As decisões dos caminhos do espetáculo são imprevisíveis tal e qual uma mente desorientada, que no resgate da imaginação e subjetividade, nos propiciam envolvimento e vínculo com essa personalidade suscitada pela estimulação da nossa humanidade. No mar de sacolas, nas cartas apresentadas, nas brincadeiras presenciadas, no choro desgovernado, no sofrimento da mãe, na angústia da filha, na solidão transbordante de Estamira. Somos navegados e quem controla o mar, transporta os pertencentes e todos os espaços à dimensão deslocada do real, conjuntamente nos confrontando com o eco de “o que é real”, “quem é são”.

Dani Barros é atleta do sentimento, é soldado no exército de Estamira e Maria Helena, é a ceifa da catadora de lixo, é o instrumento da verdade, é o elo de realidade que traz evidência à sanidade oculta, é a filha desaparecida de Estamira. Ademais, é capciosa, generosa, integrativa. Em um monólogo, esses atributos do ator devem saltar para sustentar a comunhão iniciada. Transitando em pontos cômicos, reinventando a própria interpretação, exacerbando nossa sensibilidade através da sua, a atriz emociona e descontrai, tensiona e relaxa. Presença, ritmo, tônus, qualidade vocal e física, concentração que consagram a experiência. É imprescindível a mim revelar que o espetáculo não eleva a atriz destacando-o pelo seu trabalho ímpar. O trabalho, obviamente, é inigualável, mas a mensagem passada, presenciada e vivida é a verdadeira riqueza. Dani é operária leal.

Hoje, no dia desta publicação, Estamira completaria 75 anos, mas “Estamira está em tudo quanto é lugar”, limpando e arrumando os cacos. À beira do mundo, essas mulheres e suas entrelaçadas aventuras vibram a necessidade do respeito e a permissão do desenvolvimento do devaneio como legitimação de lucidez.

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Serviço
“Estamira – Beira do Mundo”
Temporada de 31 de março a 29 de maio
Quinta a sábado, às 21h
Domingos, às 19h
Endereço: R. São João Batista, 104 – Botafogo – Teatro Poeira
Informações: (21) 2537-8053
Capacidade: 162 lugares
Valores: QUINTAS E SEXTAS: R$ 50 (inteira) | R$ 25 (meia)
SÁBADO E DOMINGOS: R$ 70 (inteira) | R$35 (meia)
Classificação indicativa: 12 anos

Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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