Desde que iniciei minhas atividades no TagCultural venho pensando em como falar sobre uma cultura estrangeira que me fascina. Não, vocês não estão na coluna errada. Annanda em sua coluna de Cultura no Exterior, por um ano relatou seu olhar estrangeiro no velho mundo e suas experiências enquanto mestranda em Barcelona. Porém, agora é minha vez de mostrar meu ponto de vista sobre a cultura ibérica, utilizando as lentes cinematográficas.

Todavia, para falar de cultura e cinema na Espanha, temos que falar sobre sua história. É verdade que a história e as tradições culturais vão sempre influenciar as artes. Esse paraíso da península ibérica é conhecido por seu flamenco e a guitarra de Paco de Lucía, além da tradição das touradas. Tudo isso é relevante. Espanha tem grandes nomes na arte. Como Picasso, Miró e Diego Vazques, nas artes plásticas; Cervantes, na literatura e Carlos Saura, Luis Buñel e Almodóvar no cinema. Hoje, veremos um pouco do que é feito além desses nomes e que carregam a história e as tradições.

Para conhecer os espanhóis temos que voltar no tempo e saber sua história. Back in time, o território atual espanhol eram vários reinos.  Entre os principais, pertencentes às coroas de Castilla e de Aragón. A história é longa e eu irei resumir: ambas as coroas iniciaram guerras de conquistas dos demais reinos (que tinham seus próprios idiomas). Ao final, a Rainha Isabel de Castilla (conhecida como A Católica) e o Rei Fernando de Aragón casaram-se, unindo seus reinos e formando o que vocês conhecem hoje como Espanha. Já o reino de Granada situada ao sul, ainda estava ocupada pelos árabes. Os cristãos – agora fortalecidos – expulsaram os mouros da região, unindo a região ao Reino de Espanha.

A ocupação do território espanhol
A ocupação do território espanhol

É por essas e outras que a Espanha tem 5 idiomas oficiais (castelhano, catalão, valenciano, euskara e galego) em 4 estados separatistas (Catalúnia, Comunidade Valenciana, País Basco e Galícia). As diferenças culturais presentes aqui são mais fortes que no Brasil. Ainda que tenhamos nossas diferenças culturais, somos um país unificado. Um nordestino pode compreender um sulista e vice-versa. Isso não acontece aqui. Línguas oficiais, gastronomia e tradições são completamente diversas. A herança cigana no sul criou não apenas o flamenco, mas também a cultura das cuevas (pessoas vivem em buracos feito nas montanhas, como covas). Plantações de arroz e um clima mediterrâneo, favoreceu a invenção da paella. A proximidade com o território lusitano, fez do canto superior do território espanhol, mais aportuguesado. Enfim, poderia criar três textos sobre isso. Vamos direto ao assunto: os filmes que te farão entender o comportamento dos espanhóis através de sua história e cultura.

O FRANQUISMO

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Filme: Un Franco 14 Pesetas

Diretor: Carlos Iglesias

Após vencer a Guerra Civil espanhola, os nacionalistas liderados pelo General Francisco Franco tomam o poder e instauram a ditadura em Espanha, conhecida como franquismo. A ditadura durou quase 4 décadas, e só acabou depois da morte de Franco. Durante os anos de franquismo, houve a repressão como toda e qualquer ditadura. Entretanto, houve crescimento industrial e escassez de trabalho. Também descobriram uma nova classe social: a classe média. Soube de histórias muito interessantes sobre essa ditadura, entre elas, a censura de nomes de bebês. Havia uma lista de nomes e, no geral, bíblicos. Esses anos, deixaram os espanhóis sob mordaça e controlados. Com a morte de Franco, o Rei Juan Carlos I toma as rédeas e realiza um referendo que implanta a democracia. Em Un Franco, 14 Pesetas; de forma cômica e singela, mostra a emigração de dois espanhóis à Suíça em busca de melhor trabalho. A emigração foi um dos pontos fortes durante esse período pelo descontentamento da população. Toda trama ocorre nos anos 60, em plena ditadura.

 

A MOVIDA MADRILEÑA

A Lei do Desejo

Filme: La Ley del Deseo

Diretor: Pedro Almodóvar

Com a morte de Franco, os espanhóis viram-se libertos e iniciaram uma fase de explorar tudo o que lhes havia sido proibido por tanto tempo. Inicia-se um movimento artístico chamado Movida Madrileña. Não vou me estender nesse assunto, pois quero que vocês leiam minha monografia onde abordo o tema No segundo capítulo de Kitsch For Dummies, eu retrato como o Kitsch é incorporado como linguagem na arte contemporânea, utilizando dois nomes distintos, entre eles o cineasta Pedro Almodóvar. Este foi um dos nomes à frente desse movimento artístico dos anos 80. A movida é algo que influenciou a arte e o life style dos jovens espanhóis. A vida clandestina da ditadura ganha espaço e voz. Exalam desejos e tentam fazer tudo o que não podiam antes. Uma das coisas que mais me chamam a atenção é nesse período é no exagero, na inquietude, na experimentação. Atualmente, pode-se perceber alguns resquícios ditatoriais  que os espanhóis repelem; como as demasiadas manifestações, o senso de humor ácido e nada é problema (a frase que mais escuto é “No pasa nada” – sem problema”) La Ley del deseo mostra justamente o ápice da movida madrileña. As pessoas agindo como se o mundo fosse acabar amanhã, as emoções à flor da pele e muito muito sexo, drogas e rock’n’roll.

A DIVERSIDADE

Oito Sobrenomes Bascos
Oito Sobrenomes Bascos

Filme: Ocho Apellidos Vascos

Diretor: Emilio Martínez-Lázaro

O que poderia acontecer quando um sevillano se apaixona por uma vasca? Um sulista com uma nortenha? Quando me indicaram esse filme, disseram-me que eu não entenderia por ter muitas piadas internas, das diferenças culturais dos andaluzes com os vascos. A verdade é que, assim como o pessoal do sudeste têm (infelizmente) implicância e fazem certas discriminações aos nordestinos. O mesmo ocorre aqui, porém ao contrário. Enquanto os andaluzes são mais festeiros, alegres, dançam, cantam flamenco, comem salmorejos, têm siestas por 3hs diariamente e são extremamente nacionalistas… os vascos são mais sérios, secos e centrados em sua independência. Tudo que um é o outro é ao contrário. O longa é uma comédia romântica, e como tal, carrega todas as suas nuances. Entretanto, é divertido ver o choque cultural que pode haver em  um país. Questões de hábitos alimentares: enquanto no sul, pelo clima quente, come-se pouco e coisas leves como gazpacho e salmorejo. No norte, a comida é quente e pesada. Podemos encontrar comidas como fabadas (um feijão branco com carne de porco) e cocidos. No sul, há um hábito que adoro: dividir um mesmo prato. No norte, isso é impossível. Cada um come em sua própria cazuela. Sem contar no jeito fofo dos vascos beberem Sidra. Outro choque cultural é o sotaque. No sul, falam mais rápido, cortam as sílabas e não pronunciam a letra S. No norte, quando eles falam espanhol, cantam mais o idioma; pois o ideal é falar em euskara (a língua local). As principais diferenças culturais de uma região nacionalista e uma independentista em uma comédia romântica.

A CULTURA

Branca de Neve
Branca de Neve

Filme: Blancanieves

Direção: Pablo Berger

Já que falamos de cultura, vamos adentrar um pouco mais no tema. O grande desafio de quando foi lançado, era evitar as comparações com o sucesso The Artist. Por quê? Blancanieves também é um filme mudo em P&B. Isso é o que acontece quando uma produção não tem verba e precisa adiar sua data de estreia. O longa é mais uma adaptação da história Branca de Neve, o que o torna diferente e interessante é o fato de transpor a mesma história em um cenário novo: Sevilla dos anos 20. A mãe de Branca de Neve é uma bailarina de flamenco e seu pai um toureiro de respeito. Esse é um ótimo filme para conhecer melhor sobre essas duas fortes culturas espanholas. Que é enraizada no sul. Uma boa aula de cultura flamenca e taurina. Por ser uma produção muda, pode imaginar que a trilha sonora é um violão flamenco. Blancanieves teve pouca repercussão no Brasil, porém merece atenção do público. E aqueles interessados na cultura espanhola irão saborear-se com belas cenas de dança e touradas.

Estar em Espanha me fez entender melhor Almodóvar e todos os outros cineastas. A Espanha tem uma rica cultura e uma história de longos conflitos. As diferenças linguísticas e culturais enriquecem não apenas o país como sua arte. O país é dividido entre os que não querem ser espanhóis com os que têm orgulho de serem. O humor, os costumes e o consumo cultural aqui é algo bem específico. Espanhóis consomem sobretudo a sua própria cultura e a globalização passa longe das rádios e dos costumes dos jovens. Por isso, muito de seu humor é compreensível somente entre eles e sua diversidade cultural. Entender um pouco mais da história da Espanha é entender seu povo e  a importância das distintas línguas.

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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