Quando eu era pequena meu sonho era ser escritora. Acho que foi na segunda séria do primário, quando ganhei o troféu de poesia do festival escola, que descobri que era isso que eu queria ser quando crescesse. A vida deu voltas e acabei fazendo Design de Moda e Produção Cultural. Minha visão limitada, não me deixava ver que a escrita tinha outra forma na minha vida profissional.

Quando fui para o mestrado sobre construção de identidades culturais, fui surpreendida por uma nova leitura: existem textos que não são realmente textos (!!!). As obras de arte são textos, os filmes são textos, as roupas são textos e são textos que constituem uma narrativa, linear ou não, evidente ou não. Talvez, muitas vezes somente disponíveis para os olhares mais atentos.

É impossível não lembrar, a partir do conceito de narrativa, de uma matéria que fiz em Lisboa sobre intervenção cultural, onde a belíssima ementa mesclava linguística, gestão cultural e comunicação. Cada aula era uma estação de trem. O professor construiu um curso onde éramos passageiros, ele nosso guia e os conteúdos eram estações as quais visitávamos em cada quinta-feita a noite e fria de Lisboa daquele ano. Lembro perfeitamente de uma aula onde ele fez o seguinte desenho:

Espaço real —- Linguagem articulada —-> Espaço ilusório

E explicou o poder do “Era uma vez…”. Que essa linguagem, esse convite do autor, além de iniciar o pacto de confiança autor/leitor, também situa esse interlocutor em outro espaço-tempo, uma paisagem e narrativa novas onde, construída pelo autor, tudo é possível. O “Era uma vez…”, pode ser substituído por “Em um reino tão tão distante daqui…” ou mesmo por “Quando eu era pequena…”. É o real transformado em ilusório através da linguagem, transmitindo a ideia de “Não é agora ou não é esse espaço, então confia em mim, que eu vou te guiar nessa estória ou nesse mundo que crio e te convido a entrar e tudo é possível”.

O interessante desse professor é que ele explicou esse conceito da melhor forma: criando ele um espaço ilusório, uma narrativa cheias de estações de trem, desvios nos trilhos e passageiros que entravam nos trens (autores e sociólogos) nos contando sobre suas ideias. Seus seis meses de aula foram como ver a um filme, uma contação de histórias reais e lúdicas e foi, sem dúvida, o melhor curso que eu já fiz. Que projeto!

É fácil ver isso nos livros infantis e na literatura escrita em geral, no cinema, no teatro e dança, já nas obras de artes plásticas esse convite à outro espaço, pode ser mais sutil, mas é fácil perceber. A complexidade e, na minha opinião, o interessante se dá quando ampliamos esse sentido e conseguimos ver que Projetos Culturais também são textos, narrativas, e um convite ao interlocutor a acreditar nessa ação/programa/política que você está propondo.

O “esse projeto pretende” ou “tem como objetivo”, se encararmos como o “era uma vez” no seu sentido mais lúdico e estratégico, pode dar ao nosso texto uma potência não só literária, mas de narrativa e coerente com o que está sendo proposto. Com isso, comecei a ver que o trabalho de Produtora Cultural é o de ser escritora da maneira mais interativa e divertida possível, pois se escreve narrativas que com a estratégia de ação adequada, vão acontecer… É tipo aquele título: um faz de conta que acontece. Quando eu era pequena, queria ser escritora, quando comecei a ver que os projetos nada mais são que novas possibilidades de histórias e uma narrativa em si, descobri que já sou.

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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