No último post falamos sobre Arte em oposição a Entretenimento, mas deixamos alguns assuntos de fora pro papo não ficar longo demais, lembra? Agora é hora de tentar desencavar as questões mais polêmicas dessa bendita discussão! Bom, primeiro a gente tentou isolar esses dois conceitos para descobrir se alguma obra poderia ser exclusivamente arte ou entretenimento e acho que podemos afirmar que não deve existir esse tipo de coisa. Já que a própria Monalisa, símbolo maior da arte, é meio que vivenciada todo dia como uma celebridade posando no tapete vermelho. Então o mais provável é que exista um medidor de arte e um outro de entretenimento para cada obra de arte! E como por aqui só falamos daquilo que a gente escuta, aplicamos esse pensamento à música! Que surpresa! E no fim do post estávamos comparando as motivações artísticas do Dinosaur Jr. e do Cristiano Araújo. Relembro aqui que a gente faz tudo isso tentando deixar todo e qualquer julgamento de lado hein! Promete?

promise

 

Tá, vou confiar em você!

A gente saiu do último texto com uma espécie de ideia sobre de onde vem o ímpeto criativo do Dinosaur Jr. e do Cristiano Araújo, certo? É como se a intenção do Dinosaur viesse de dentro para fora; os caras absorvem diversas referências por um tempo, mastigam aquilo e criam algo que seja verdadeiro para eles enquanto banda/artistas e finalmente botam no mundo para quem quiser ouvir. Mas acaba sendo uma visão muito particular e por isso só uma parcela da população mundial vai se identificar com aquilo e absorver e consumir. E tudo bem! Mas o rolê do Cristiano Araújo era um pouco diferente, né? As músicas falavam sobre a realidade de milhões e milhões de brasileiros excitados que hoje estão terríveis e só querem se divertir pra cacete na balada. Claro que o cantor também devia sentir essas emoções fortes, mas a motivação vem bem de fora. É importante que a obra seja o menos particular possível para agradar ao máximo de pessoas possível! E tudo bem, também! Sem julgamento, lembra? Diferentes níveis de arte e entretenimento para cada obra, lembra? É claro que a gente está usando dois exemplos um pouco extremos, mas se liga nesse cara aqui e tenta observar o equilíbrio entre particularidade e popularidade que ele consegue imprimir nas músicas:

 

 

Não é à toa que ele tem pelo menos uma música em quase todas as novelas das 7 desde 1980, sei lá. Bom, acho que dá pra dizer que essa coisa toda funciona mais como uma balança entre o geral e o particular? Onde o geral está diretamente ligado ao entretenimento e o particular à arte? E que quanto mais particular for uma obra, menos pessoas ela vai atingir? Bom, não podemos afirmar isso com 100% de certeza, mas vamos assumir essa afirmação como verdadeira para seguir em frente com a discussão. Só de onda mesmo.

Para além  da questão geral x particular, tem aquele papo sobre a arte tirar o espectador da sua zona de conforto, apresentando ideias que nem sempre são facilmente assimiladas, em prol de uma mensagem. Certo, acho que quase todo mundo deve concordar com isso. Mas essa ideia coloca o entretenimento do lado oposto? Seria ele uma experiência exclusivamente confortável? E a arte sempre deve causar desconforto e tirar as pessoas da zona de conforto? Então uma obra que foi experienciada 7 vezes deixa de ser arte, por exemplo? Aí é não, né, gente? Chega de ficar em cima do muro! A arte, e portanto a música, tem o poder sim de tirar qualquer um da sua zona de conforto particular e também do sério. No entanto, quando deixa de fazer isso, seja por costume ou identificação, ela se aproxima mais do entretenimento particular (e não geral) e alcança uma espécie de equilíbrio entre essas duas forças. Mais um exemplo!

 

 

Muita coisa ao mesmo tempo, né? Pode ser desconfortável para você, se estiver ouvindo esse som pela primeira vez, escutar milhares de barulinhos  diferentes um atrás do outro sem conseguir de fato identificar muita coisa. Mas se você continuar ouvindo, garanto que a música se tornará cada vez menos incômoda. Nesse caso ainda temos a infinita internet dando o aval sobre o tipo de entretenimento específico em questão: mais de 3 milhões de visualizações em 5 meses. Alguma coisa de repente se tornou entretenimento de massa, mesmo que a Globo não fale sobre o assunto ou que não toque no Faustão! Mas essa questão meio que foi respondida no texto anterior, onde a gente descobriu que a Arte diverte sim. Mas o título do texto de hoje é outro e a gente precisa encontrar urgentemente alguma música de consumo em massa e tentar descobrir se é possível a esse tipo de obra gerar o mesmo desconforto e movimento emocional.

 

 

Bom, entenda que quando eu digo desconforto, não quero dizer um incômodo físico ou uma sensação necessariamente ruim. Nesse caso o incômodo nada mais é do que algo que te faz pensar de forma diferente, observar novas ideias e chegar a novas conclusões ou novas dúvidas (porque não?). E você já deve ter se ligado que quando eu quero mostrar alguma música de massa e ao mesmo tempo dizer que ela é muito cabeçuda, eu vou para Bahia né? Então você também já deve saber o que eu acho dos ritmos incríveis que as bandas de lá criam como se fossem a coisa mais simples do mundo. E essa linguagem altamente complexa cai nas graças da galera e começa a ser reproduzida em massa, como uma espécie de receita de bolo. Ou instruções para construção de algum objeto, por exemplo.

Como assim, André? Cê tá falando de tipo, Artesanato?

Se liga, se você é de humanas, deve ter tido alguma aula no primeiro período da faculdade em que se discutiu o fazer artístico, segundo as ideias de vários filósofos da antiguidade, certo? Lembra daquele papo sobre a arte ser a busca do belo, do agradável? E de como isso gerava perguntas do tipo “agradável para quem?” E de como uma cadeira para ser “agradável” tem que ser bela e funcional, e portanto precisa ser produzida seguindo uma série de critérios pré-estabelecidos. Agora a parte mais difícil da aula era quando se entrava na discussão de “Sim, mas se um trono real de ouro é arte, por que a cadeira de madeirite não é?” e “Mas o trono de ouro é arte só porque tem lá vários detalhes?”.

Perguntas sem resposta…  Será?

 

 

Sacou o paralelo? Esses caras escolheram uma “regra” da música pop e mostraram como ela foi e ainda é utilizada à exaustão até os dias de hoje. Então é bem como um esquema ou manual para criação de objetos. É quase como se a música de entretenimento fosse a versão sonora do artesanato! Você pode construir uma cadeira vitoriana, ou com visual dos anos 60, ou ainda uma cadeira muito louca que na verdade fica de cabeça para baixo impossibilitando qualquer pessoa de sentar nela. Mas elas sempre serão cadeiras. Assim como música sempre vai ser música, minha gente.

E você tem coragem de dizer que algum dos exemplos de hoje, por mais artesanato e de consumo e de massa que sejam, não transmitem nenhuma mensagem ou emoção, não são capazes de tirar algum ouvinte da zona de conforto ou gerar novas conexões?

 

Eu não.

 

André Colares
Me chamo André Colares e sou formado em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro; estudei orquestração e contraponto, bem como composição para tv e cinema. Trabalhei como arte-educador em música no setor educativo do CCBB do Rio de Janeiro e atualmente moro em São Paulo, onde curso a carreira de composição musical na Omid Academia de Áudio. Trabalho como compositor de trilhas sonoras e/ou sound designer para cinema, teatro e publicidade; mas principalmente vídeo games, que são minha maior paixão desde sempre. Musicalmente gosto de tudo e estou sempre inclinado a considerar qualquer manifestação musical como algo bom e de valor. Qualquer Manifestação Musical. Então pra mim não existe esse papo de música ruim, certo? Que bom que combinamos isso! Também sou mal-humorado, daltônico, magrelo e barbudo. Nessa ordem.

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