Na semana de estreia de seu vigésimo filme, Almodóvar é notícia por um outro motivo: seu nome e de seu irmão apareceram no Panama Papers… mas não vamos falar sobre algo ruim.

Almodóvar sempre foi meu cineasta preferido. Para mim (e para muitas pessoas que conheço), ele sempre definiu a essência dos espanhóis pós ditadura. A surpresa veio quando cheguei a Espanha e descobri que os espanhóis não são tão fãs dele. Para eles, o cineasta mostra uma visão estereotipada do que eles seriam.

Fiquei 1 ano sem ver nada dele, e essa semana fui ver seu novo filme “Julieta”. Ao ver o longa, me despertou sensações e me abriu os olhos da essência dele e o porquê eu sempre gostei e nunca entendi o porquê eu gostava.

O tema mais recorrente em sua filmografia são as mulheres. Não é só porque ele tem uma relação forte com a sua mãe. Não é só por isso. As mulheres espanholas têm uma força e uma expressividade que não encontraria em muitas outras nacionalidades. Elas ditam o caminho da relação. Elas têm o poder.

Filme Julieta
Filme Julieta

E isso, não é algo social. É algo pessoal de cada uma. Muitas podem nem saber que tem essa força. Almodóvar sempre mostra personagens a beira de um ataque de nervos ou no limite de seus sentimentos. São, em sua grande maioria, personagens secos e diretos. Pessoas que não têm medo em dizer o que vem à mente. E dizem. Isso reflete uma forma de ver e perceber seus conterrâneos e sua linguagem cinematográfica. Se eu tenho que ser rude com alguém, eu serei, do contrário vou me arrepender mais tarde.

Seus personagens não têm filtro. São o que são. Eles têm 1h40 para mostrar sua história. Assim como a duração do filme, a vida é curta e temos que fazer tudo aqui e agora. Esse tipo de sentimento e de atitude, veio depois da ditadura de Franco. Os espanhóis estiveram anos sobre as amarras. Tudo era censurado. Os nomes eram censurados.

Após a ditadura, os espanhóis começaram a viver no limite. Explorando tudo que lhes havia sido proibido. De uma certa maneira, as personagens vem refletindo esse espírito de aproveitar o momento. É interessante perceber seus longas das últimas 2 décadas, um padrão de narrativa.

Tudo sobre minha mãe
Tudo sobre minha mãe

Muitas de suas histórias apresentam um regresso ao passado, seja em forma de flashback ou do próprio personagem que regressa a sua cidade ou em busca de pessoas que fizeram parte de um momento em sua vida. Seja em Tudo sobre minha mãe, onde Manuela decide procurar o pai de seu filho pós a morte do mesmo. Seja em Volver, cujo o nome diz voltar, ou seja, histórias do passado que retornam a vida de Raimunda após sua filha matar seu esposo.

Já em filmes como Abraços Partidos e A Pele em que Habito, somos apresentados a duas linhas de tempo, onde toda a ação culmina no twist da história. Almodóvar tem o poder de iniciar uma narrativa com pouca informação e, na medida que a história vai desenrolando, os espectadores conhecem a natureza dos personagens e de seus dramas.

E é isso que acontece em Julieta. O filme inicia com uma mulher empacotando suas coisas rumo à Portugal. Um encontro com uma velha conhecida e uma informação sobre sua filha faz toda a história mudar de rumo. Não se sabe exatamente o porquê de uma pequena informação ter tanta importância para Julieta. Pouco a pouco, pequenos objetos apresentados vão ganhando expressividade e protagonismo na história.

Volver
Volver

E podemos compreender que cada vírgula no roteiro, cada respiração da personagem e cada movimento dos figurantes fazem parte de um todo na trama. Nada está ali por acaso. Essa é uma das maiores qualidades do cineasta: a preocupação em colocar apenas o necessário para a história. É claro, que há coisas e personagens que não são fundamentais para a história, mas estas são peças usadas para confundir o espectador no rumo da história.

Ainda que o conheça bem, e muitas vezes consigo prever o turning point da história. Nos primeiros 30 minutos eu não tenho ideia do que pode acontecer ou como vai terminar. E ele consegue finalizar um filme como ninguém, sempre em aberto, deixando os espectadores na expectativa ou curiosidade. Ou às vezes angustiados.

Por fim, Almodóvar pode representar bem ou não tão bem os espanhóis, porém sua linguagem aporta elementos que são meticulosamente estudados para não serem desperdiçados e adicionam à trama mais qualidade narrativa. Levar 2 anos em uma produção faz com que todos os elementos do filme sejam essenciais para a história.

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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