“Então é Natal, e o que você fez?
O ano termina, e nasce outra vez
Então é Natal, (…)
Do velho e do novo, do amor como um todo
Então bom Natal, e um ano novo também
Que seja feliz quem souber o que é o bem”

Muita gente pode não gostar dessa música, porém acredito que seja importante para hoje. E por que iniciar com Simone? Somente para lembrarmos do que é feito o dia de hoje: o amor. No mundo capitalista em que vivemos, esquecemos muitas vezes os motivos de nossas celebrações e só pensamos no comprar ou no obter. E esquecemos das coisas simples e muitas vezes são fundamentais. Esqueçam os presentes, vivam o presente. Para esta semana, inspirei-me neste comercial do IKEA, lembrando o que é o Natal.

Essa é a ideia da campanha de Natal #LaotraNavidad da IKEA. Para quem não conhece a IKEA, trata-se de uma mega super duper über loja com todos os departamentos de casa. É uma grande loja, dividida por cada cômodo, reproduzindo-o com mostras e diversos itens. Tudo a preço de banana. Imagina, caí no gosto da loja comprando lençóis de elástico por apenas 3 euros. E um edredon de pluma por 29 euros. Para concluir, IKEA é o antro do capitalismo. É humanamente impossível sair de lá com apenas um item, até a disposição dos setores te obrigam a conhecer todos os produtos, pois é um labirinto até os caixas. Surpreendentemente, as campanhas #LaOtraNavidad  e #LaOtraCarta promovem o oposto do capitalismo, para que as pessoas pensem mais na experiência que na obtenção de coisas.

A mesma campanha realizou um experimento com 10 famílias: as crianças escreveram cartas aos Reis Magos ( em Espanha são eles quem trazem os presentes e é celebrado o dia 6 de Janeiro, dia de Reis) pedindo presentes. Depois, escreveram uma carta pedindo um presente para seus pais. Os pedidos aos Reis continham toda a espécie de brinquedos. Entretanto, nas cartas destinadas aos pais, os pedidos eram o mesmo: mais contato com os filhos. E ao final, as crianças deveriam escolher apenas uma carta para receber de presente de Natal, e surpreendentemente, escolheram as cartas destinadas aos pais. Esse experimento, comprova que bens materiais não fazem o Natal, e sim, o momento e a presença. A IKEA marcou um super gol com essa campanha ao tirar de campo o consumo e colocá-lo de volta em seu slogan: “La Navidad nos desamuebla la cabeza. Nada como el hogar para volvérnosla a amueblar”. Traduzido livremente como: O Natal tira os móveis da cabeça. Nada como o lar para os organizá-los de novo” (desmueblar e amueblar são dois verbos difíceis de traduzir, mas a ideia é retirar e colocar móveis). Well Done, IKEA! Ao mesmo tempo em que faz com que pensemos no sentido real do Natal, indiretamente vende seus móveis.

O que leva a IKEA realizar campanha como essa é a ideia pós-consumista presente em muitos países da Europa. Tudo começou na Alemanha (Ahhh! Sempre Alemanha!). O que ocorreu foi uma consciência do coletivo, contra o desperdício e o acúmulo de coisas. Uma iniciativa que tomou conta de diversos países, o Free Your Stuff (libere suas coisas). Nada mais é que um escambo de coisas em bom estado e que não se faz mais necessário. Coisas como violões, casacos, carregadores de Mac etc… Essa ideia contra o desperdício é mais um indício de que as pessoas estão menos preocupadas em acumular e com mais senso de coletivo. Essa iniciativa  converge com o projeto The Story of Stuff, afinal nada melhor que reciclar suas coisas quando não mais necessárias (o planeta agradece). Isso tudo faz parte de um momento anti-capitalista e pós-consumista, que consiste na troca de informações e coisas, contra o acúmulo e retenção de informações.

Apesar de estarmos envoltos no capitalismo, não esqueçamos do real sentido do Natal: a família e o amor! Temos o costume de presentear nossa família e as crianças, porém nem só de presentes se faz um Natal. Não se irritem tanto com a música da Simone nas lojas, e irritem-se mais com o fato de em pleno novembro as lojas já empurrarem artigos natalinos. E desapeguem-se daquele jeans que já não te serve, mas continua no armário pois custou 200 dilmas, ou aquele livro que leu faz pouco tempo e que não lerá novamente, ou daquele monitor de PC que você não utiliza, pois agora tem um notebook. Mantemos muitas coisas por questões sentimentais, mas é verdade que muitas outras coisas as mantemos por apego material. Então desapeguemos das futilidades! Que a presença de pessoas amadas sejam mais significativas que um presente. Que o Papai Noel do Shopping Center, escute apenas a consciência infantil pedindo mais amor. Que essa campanha da IKEA, seja de fato uma experiência real e que atinja os pais ausentes. Então, Bom Natal e um ano novo também!!!

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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