Pablo Picasso, o padroeiro dos trocadilhos, pai do cubismo, artista renomado — e fã de quadrinhos, por que não? Há quem diga que na época da transição para o cubismo, prestes a pirar com força, Picasso estava lendo muito uma tirinha pioneira chamada The Katzenjammer Kids, e que ela pode ter sido uma fonte de inspiração para os trabalhos dele.

Foi em The Katzenjammer Kids, de Rudolph Kirks, que se inventou o querido balão de fala. Aqui no Brasil, chegou a sair uma coletânea: Os sobrinhos do capitão.
Foi em The Katzenjammer Kids, de Rudolph Kirks, que se inventou o querido balão de fala. Aqui no Brasil, chegou a sair uma coletânea: Os sobrinhos do capitão.

E se você pensar bem, a lógica que Picasso buscava tem muito a ver com quadrinhos. No início do século XX, a pintura se afastava cada vez mais da representação realista. As emoções do autor, sobretudo sua subjetividade, importavam mais do que simular a realidade, algo que a fotografia podia fazer facilmente.

Nas tirinhas de jornal, charges e caricatura, o principal é sempre passar uma emoção de maneira rápida, a piada. Os prazos, as restrições técnicas do jornal exigiam um trabalho veloz, sem grandes preciosismos. Isso estimulou os cartunistas a simplificar os traços e procurar novas saídas narrativas para passar a mensagem. Os quadrinhistas buscavam a decomposição das imagens por uma necessidade comercial, enquanto Picasso por uma questão idealista.

É claro, existiam limites estéticos para quem trabalhava com quadrinhos nos jornais. Os personagens não precisavam ser bonitinhos, mas tinham que ser convencionais o bastante para o leitor da época não estranhar. Trata-se afinal de um veículo para o grande público. Esses mesmos limites não se aplicavam para Picasso. Ele estava menos interessado em agradar o público e mais em encontrar uma nova estética.

Les Demoiselles d'Avignon, 1907. Foi a capa da Playboy da época.
Les Demoiselles d’Avignon, de Pablo Picasso, 1907. Foi a capa da Playboy da época.

Ainda assim me atrevo a dizer que a popularização das tirinhas ajudou a preparar o olhar da sociedade para as caretas tortas dos personagens picassianos e para a perspectiva múltipla do cubismo. Afinal, no quadrinho você pode ver uma ação dividida numa página em diferentes perspectivas, tudo isso delimitado pela figura geométrica do retângulo. Isso é uma característica bem própria da linguagem sequencial dos quadrinhos e está na base da pintura cubista.

E o mais legal da arte é que ela não é uma via de mão única. As influências se misturam. As diferentes formas de arte estão sempre se comunicando. O estilo de Picasso, assim como de Matisse e Miró, vai ser digerido e transformado em novas formas de quadrinho. Vão permitir os quadrinhistas quebrarem as regras tradicionais do desenho, sem isso causar um estranhamento completo no leitor.

Os caricaturistas, principalmente, vão se influenciar muito por esses pintores de vanguarda. Basta de simples cabeçonas com nariz grande ou qualquer outra parte do corpo exagerada. Os grandes caricaturistas vão distorcer as figuras de uma forma antinatural e surrealista, mas ainda assim se mantendo fiel a uma essência, à inspiração que uma personalidade causa no artista.

Uma cruel, assustadora e fascinante caricatura de Amy Winehouse, pelo artista brasileiro Cavalcante.
Uma cruel, assustadora e fascinante caricatura de Amy Winehouse, pelo artista brasileiro Cavalcante.

A gente frequentemente vê obras de arte e de entretenimento de uma forma muito isolada. Mas existe um diálogo silencioso. Uma forma de ver o mundo que vai se desenvolvendo em campos variados.

Picasso pode ter criado o cubismo, mas o pensamento cubista já estava ali nos quadrinhos e no cotidiano industrial das cidades. Ele foi sensível o bastante para percebê-lo e ultrapassar os limites da pintura. E com isso fez o quadrinho e outras artes ultrapassarem seus limites.

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PS: A foto de Picasso fantasiado de Popeye no título do texto é de André Villers. E se você quiser ler mais sobre o renomado pintor, dá um pulinho na coluna do Aldene aqui pertinho, no Tag. Até a próxima!

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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