Star Wars — que em português significa “Tome meu dinheiro logo” — estreia seu novo episódio, deixando como sempre os fãs ávidos para comprar produtos da série. Entre esses produtos estão os quadrinhos. Há revista para cada personagem, para cada época. Tem até versão mangá dos filmes. Mas se você quer mesmo ver uma boa história em quadrinhos estilo Star Wars, não é na galáxia dos Skywalker que deve procurar, e sim numa galáxia igualmente distante criada por Brian K. Vaughan e Fiona Staples. Estou falando de Saga.

A arma secreta: choro de bebê!
A arma secreta dos heróis: choro de bebê!

Abracadabra no espaço

Uma das características que tornam Star Wars tão especial é a mistura de gêneros. Um épico de fantasia espacial com embalagem de ficção científica e toques de western, de filmes de samurai e de 2º Guerra Mundial. Saga não fica para trás, e ainda bota um pé mais fundo na parte da fantasia, com direito a feitiços de todo tipo (tem um que funciona apenas se for alimentado com segredos) e uma fantasma que também é babá. Na parte da ficção científica, destaco o planeta-ovo de monstro, a nave-árvore e o puteiro espacial.

A babá-fantasma custa metade do preço de uma normal.
A babá-fantasma custa metade do preço de uma normal.

 

Universo em guerra

Peraí… Eu ainda não disse do que se trata Saga afinal! Que velho gagá!

A história gira em torno de Marko e Alana, um casal formado por duas espécies que estão em guerra quase desde sempre e que arrastaram a galáxia inteira para o conflito. E se já não é bem-visto um relacionamento entre espécies, imagina ter uma filha mestiça. Os dois lados da guerra decidem colocar como prioridade a destruição de Marko, Alana e seu bebê, antes que a ideia circule por aí.

Como em Star Wars, trata-se de um universo em guerra precisando de equilíbrio. Enquanto o caminho de um é a Força e a rebelião organizada; em Saga, é a imprevisibilidade da atração, do amor e da vida. A rebelião está no gesto mais natural que há: a procriação.

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Olha o parto humanizado aí, gente!

Mulheres arretadas

O início de Star Wars contava com apenas uma personagem feminina importante, mas era uma personagem feminina do caralho. A princesa Leia não tinha nada de indefesa; passou pela tortura de Darth Vader sem estragar o penteado e ainda deu uma zoada no seu salvador (“Você não é baixo demais para um Stormtrooper?”). A novíssima trilogia percebeu que, se uma personagem assim era boa, imagina várias mulheres intrigantes num filme só.

Saga segue a mesma linha. Alana é maternal o máximo que pode, sem deixar de ser durona e fugir da briga. Defende o que acredita e fala o que pensa. Mas não descarta um bom livro de romance cafona, estilo softporn. E Alana é somente uma das várias mulheres de Saga. A própria história é narrada pela filhinha dela, Hazel.

alana

Onde as diferenças começam

Embora eu recomende muito Saga para os fãs de Star Wars — para qualquer um, na verdade — , é claro que Saga não é Star Wars. Dá para ver isso pela primeira página. Que filme do George Lucas começaria com uma mulher parindo? O tratamento de Brian K. Vaughan e Fiona Staples é muito mais direto e próximo do nosso cotidiano.

Os personagens falam como qualquer pessoa do nosso mundo falaria, com palavrão, gíria e vocabulário urbano. Eles discutem sobre nome de bebê, sobre como criar os filhos, sobre relacionamento, sobre tradição e política. Em Saga, Luke reclamaria que Darth Vader é pai repressor e careta, e muito provavelmente teria cenas picantes entre Luke e Leia no breve affair deles. Saga é bem — mas bota bem nisso — mais explícito do que Star Wars.

Mas, se fosse igual, também nem valeria a pena. O universo é grande demais para uma aventura só; e enquanto sua espaçonave embarca para Tatooine, aproveite e dê um pulo na galáxia de Alana e Marko em Saga. Tem um bocado de coisa legal e estranha pra ver. Muita coisa estranha.

O fã de ficção científica.
Fã irritado depois de ouvir spoiler de Star Wars.

 

 

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Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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