Nesta disputada eleição presidencial que se encerrou no último domingo (26), uma política pública de combate à pobreza esteve em evidência: o Bolsa-Família foi a bola da vez, para o bem e para o mal. Enquanto o candidato derrotado repetia incessantemente que o Plano Real foi o maior programa de distribuição de renda do Brasil – ainda que eu duvide que ele acredita nisso de fato –, os efetivos programas sociais implementados pelos governantes petistas nos últimos anos foram reconhecidos e se tornaram em grande medida responsáveis pela reeleição da presidenta Dilma. Esse foi o quadro traçado até 20h de domingo, início da apuração de votos. Depois disso, o Bolsa-Família esteve novamente em evidência, dessa vez no discurso dos internautas, eleitores de Aécio Neves, que fazem a seguinte associação: o Nordeste concedeu muitos votos à presidenta Dilma –> os nordestinos votam nela porque dependem do Bolsa-Família –> estes dependem do programa porque são preguiçosos e veem aí uma oportunidade de ganhar dinheiro com facilidade –> matem os nordestinos. Falar sobre o absurdo da associação se faz desnecessário neste espaço, muitos já o fizeram e muitos continuarão a fazer em um país marcado pela desigualdade social, no qual os mais favorecidos desconhecem o significado do termo distribuição de renda. Espero que em breve estudos como o dos autores Pinzani, Alessandro Pinzani e Walquiria Rego se tornem leituras obrigatórias nas escolas brasileiras, para que as próximas gerações cresçam sabendo da importância do Bolsa-Família.

Enquanto isso não acontece, vou me ater a um ponto específico do discurso preconceituoso disseminado nas redes sociais após o resultado eleitoral: a associação do nordestino com a preguiça, especialmente do baiano, implicação discursiva, política e cultural disseminada largamente. No caso apresentado, explicitamente a associação foi pejorativa, mas algumas vezes pessoas costumam lançar discursos nessa direção em tom de brincadeira, não sabendo que toda conexão nesse sentido é necessariamente pejorativa. Trago a seguir um texto antigo que escrevi apresentando o mito da preguiça baiana, hoje utilizado pessoalmente como manual de sobrevivência contra piadas que não são piadas. Afinal, dizer que o mineiro come queijo em excesso é completamente diferente de afirmar a inércia baiana. Diferença que tem como base a discriminação, como poderão ler a seguir.

O mito da preguiça baiana foi “desvendado” em 1998, quando a antropóloga Elisete Zanlorenzi concluiu o trabalho de doutorado na Universidade de São Paulo (USP) sobre o tema, mostrando como essa construção foi forjada. Segundo a pesquisa, a ideia de que baiano é preguiçoso remonta ao período da escravidão, passa pelo ciclo de imigração de nordestinos ao Sudeste (todos chamados de “baianos”, mesmo quando vindos de outros estados), ganha fôlego com o autorreconhecimento do título por alguns artistas baianos, como Dorival Caymmi, e hoje se perpetua como um filão do mercado turístico.

A antropóloga descobriu que a Ladeira da Preguiça, no centro de Salvador, perto da Praça Castro Alves, é o símbolo máximo do preconceito. Segundo o estudo, nos tempos da escravidão, quem reclamava da íngreme travessia, carregando nas costas as mercadorias desembarcadas no porto, eram os negros – “preguiçosos” na visão desdenhosa dos brancos que, das janelas de seus sobrados, gritavam: “sobe, preguiça!”. Posteriormente, a industrialização tardia nos estados do Nordeste e a seca determinaram um ciclo migratório para as regiões Sul e Sudeste, mais evidente entre 1950 e 1980. As péssimas condições de vida que os nordestinos passaram a ter geraram associação com caraterísticas como “pobre”, “sujo” e “burro”, para logo chegar a “preguiçoso”. O termo passou a ser usado ainda como uma espécie de estratégia para desqualificar o migrante quanto à concorrência por emprego. “Ele é baiano, logo, preguiçoso, então serei mais produtivo, logo, mereço a vaga” parecia um bom argumento. Também nesse período a indústria do turismo passou a explorar a marca. Afinal, a Bahia é o melhor lugar mais descansar, ser feliz, beijar na boca, viver em festa sem se preocupar com os problemas. Só que não. A ideia ainda é perpetuada hoje que forma massiva, mesmo que a noção de eficiência já apareça em alguns momentos – a última gestão da prefeitura de Salvador lançou, por exemplo, o slogan “Cidade sede do trabalho”.

O trabalho de Zanlorenzi faz, portanto, um bem enorme ao comprovar que a famosa vida tranquila e a aversão à labuta definitivamente não são coisas de baiano. Quando ela pesquisou a relação entre o calendário de festas na Bahia e o comparecimento ao trabalho, por exemplo, descobriu que uma empresa com sede no Pólo Petroquímico de Camaçari registrou menos faltas de funcionários durante o Carnaval do que sua filial de São Paulo, em determinado ano. Aliás, trabalhar no período de festa é realmente uma vocação do baiano. Um relatório de 2010 realizado pela Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult/BA) e a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) constatou que o Carnaval é uma grande oportunidade de geração de trabalho para uma parcela de moradores da capital baiana: 93 mil pessoas trabalham durante a festa. Por outro lado, cerca de 1,57 milhão de pessoas, ou seja, 60,5%, dos moradores de Salvador, não participam desta que é a maior festa de rua do mundo, nesta que é a cidade que produz o maior Carnaval do Brasil.

O que difere pra nós, baianos, é a noção de tempo, influenciada pelo Candomblé. “No fundo, vem da tradição africana o conceito de que o trabalho não é o foco principal da vida, que trabalho e lazer não se opõem. O que não significa que as pessoas não trabalhem. Ao contrário, trabalham muito, mas sem colocarem o trabalho como objetivo central da existência e cuidando muito das relações que ocorrem fora da esfera do trabalho”, disse Zanlorenzi na época da publicação da pesquisa em livro.

A tese afirma que, embora as relações formais sejam pautadas pelo relógio, ou seja, como em qualquer lugar as pessoas têm compromissos a seguir e horário fixo de trabalho, as relações informais seguem um tempo maleável. Quantos de nós marcamos de ir a tal lugar, decidimos no local migrar para outra festa e terminamos a noite em uma terceira? Obviamente isso não é regra, assim como não é regra se sentir confortável de short e havaianas em qualquer espaço, mas é – graças a Deus! – comum.

Então o entendimento é esse: na Bahia, trabalha-se demais, muitas vezes durante as festas, muitas vezes em serviços informais (o que aumenta o número de horas trabalhadas), mas, em hipótese nenhuma ignora-se o lazer. Penso num exemplo muito bom, do período que antecede o Carnaval. O “ensaio” do Harmonia do Samba, genialmente denominado “A Melhor Segunda-feira do Mundo”, atrai centenas de pessoas no dia que é supostamente o mais entediante da semana, em que as pessoas deveriam estar de “boresta”. O evento, realizado há 11 anos no mês anterior à festa momesca, chegou a atrair em uma edição 26 mil pessoas. Só uma pesquisa pode comprovar qual a porcentagem de desocupados (turistas, estudantes de férias, profissionais que folgam na terça etc.) e ocupados que comparecem ao local, mas, certamente, inúmeros foliões acordam cedo no dia seguinte – mais felizes, naturalmente – para doar sua força produtiva ao capital.

Adriana Santana
Em trânsito permanente entre o sertão e o litoral baiano, gosta dos dias quentes. Geminiana, com ascendente em Áries e Lua em Aquário, respeita a astrologia. Podem acusá-la de patriota, uma vez que prefere cinema, literatura e música nacional. No entanto, não é bairrista: gosta de sotaques e só viaja para ouvi-los. Na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), se formou em Produção Cultural. Profissionalmente, desenvolve projetos culturais comunitários e presta assessoria de comunicação para eventos. Academicamente, estuda Cultura e Território e Políticas Culturais. Apaixonada por conversas, ainda que despretensiosas, acredita no diálogo e no trabalho colaborativo.

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