Este ano um cineasta mexicano foi premiado com o Oscar de Melhor Diretor pelo filme Gravity, que recebeu outros 6 prêmios técnicos (como efeitos visuais, edição, som, fotografia entre outros). Algo inédito para a latinoamérica. Um thriller que deixou seus espectadores sem ar durante seus 90 minutos. Alfonso Cuarón é seu nome, e com ele, mais realizadores estão ligados. Tudo começou no final dos anos 90 e início dos 2000, o Nuevo Cine Mexicano apresenta uma nova forma dos hermanos se imporem no mercado cinematográfico. Nesta semana, vamos conhecer as consequências desta mudança na produção mexicana e a integração de seus profissionais no cinema mundial.

Focados em apresentar novos olhares, retratar realidades numa esfera local e adentrar os grandes festivais; o Nuevo Cine Mexicano contém diversos gêneros, do terror à comédia. A curiosidade é ser formado por diretores, atores, produtores e roteiristas; que se revezam em diversas funções.  Vou apresentar meus 3 filmes preferidos, e o que sucedeu à partir deles. Iniciamos com Amores Perros de Alejandro González Iñárritu. O filme é a primeira parceria do cineasta Iñárritu com o roteirista/produtor/diretor Guillermo Arriaga. Já foi mencionado na primeira semana da coluna, porém devo repetir a menção por se tratar de um filme divisor de águas na carreira dos envolvidos e uma atenção redobrada às produções que sucederiam dele.
Amores Perros, de Alejandro González Iñárritu
Amores Perros, de Alejandro González Iñárritu

 

Este trabalho rendeu frutos como indicações a importantes prêmios, notoriedade para parte do elenco e o aval de Hollywood para a produção de uma trilogia (com 21 Grams e Babel). A produção da trilogia desgastou a parceria entre Arriaga e Iñárritu, mas rendeu-lhes frutos. O cineasta Iñárritu entrou num hiato, mas seu longa Biutiful foi muito elogiado. Já Arriaga, colheu outros bons frutos: desenvolveu o roteiro de The Three Burials of Melquiades Estrada, dirigido e estrelado por Tommy Lee Jones; sua novela El Bufalo de La Noche, ganhou uma adaptação para o cinema; dirigiu e roteirizou The Burning Plain, um dos segmentos de Rio, Eu Te Amo e do também multiplot Words with Gods.

 

Gael García Bernal já era conhecido no México, quando criança protagonizou a novela infantil El Abuelo y Yo com seu amigo Diego Luna. Com Amores Perros, Gael carimbou seu passaporte para Hollywood e firmou-se como um dos nomes importantes para o cinema mexicano. Após a produção, o ator lançou projetos, como o também mexicano El Crimen del Padre Amaro, adaptado da obra de Eça de Queiroz. O filme faz parte de uma lista de importantes produções do Nuevo Cine Mexicano. Já trabalhou com nomes como:  o espanhol Pedro Almodovar, os brasileiros Hector Babenco, Walter Salles, e Fernando Meirelles;  o francês Michel Gondry e o estadunidense Jim Jarmusch. Dirigiu e protagonizou o drama Deficit ; e atuou em duas produções junto a seu amigo e sócio na produtora Canana, Diego Luna. Junto ao amigo, Gael estrelou diversas produções, mas duas se destacam pela importância no movimento,  Rudo y Cursi de Carlos Cuarón  e Y  Tu Mamá También, do outro Cuarón, Alfonso.
Y tu Mamá También
Y tu Mamá También de Alfonso Cuarón
O último citado é meu segundo filme mexicano preferido. Luna é figura carimbada em   grandes produções, estando em filmes como: Frida, The Terminal, Dirty Dancing – Havana  Nights, Contraband, Milk e Elysium. Mas é sua performance como produtor que tem movimentado a cena mexicana. Envolvido em  diversas produções televisivas e cinematográficas. Junto a Gael, Luna é um nome importante por não apenas ser um ator expressivo, mas por contribuir para o desenvolvimento do mercado cinematográfico mexicano. Alfonso Cuarón teve seu início de carreira como editor de uma emissora de TV, até atingir o cargo de diretor.
Por conhecer a magia da edição, seus filmes apontam sempre uma atenção redobrada pelas técnicas cinematográficas. Após a produção de Y Tu Mamá También, realizou Harry Potter and the Prisioner of Azkaban que é considerado um dos melhores da franquia. Alfonso é também o responsável pela série de TV Believe. Com seu segmento em Paris Je T’aime, em poucos minutos explorou o plano sequência, que mais tarde seria reutilizado e aprimorado. O plano sequência é  utilizado para dar o tom realista, no geral sem cortes; é utilizado a fim de imprimir veracidade. O plano sequência mostra o que o olho vê, não há detalhamento nem foco em nenhuma ação, mas o ponto de vista do espectador como parte da ação.
Carro produzido para a sequência
Carro produzido para a sequência

Em Children Of Men, o plano foi explorado diversas vezes, tornando a ação mais real. Em uma sequência vibrante de uma fuga de carro, o mesmo foi produzido para receber uma câmera acoplada na sua parte superior. A mesma movimentava-se de acordo com a ação, inserindo o espectador na cena. Cuarón é um curioso e exímio nesta técnica, sendo um dos nomes referidos à sua utilização. Junto a ele, seu filho, o jovem Jonás Cuarón; que co-roteirizou Gravity. Jonás dirigiu e roteirizou  o curta metragem Aningaaq. Lembram-se daquela cena em Gravity em que Sandra Bullock pelo rádio, conversa com um homem? Pois então, é o outro lado da linha a trama de Aningaaq. O spin-off é um curta e lançado como extras no DVD e Bluray de Gravity.

E para finalizar, um dos meus cineastas favoritos: Guillermo Del Toro. É conhecido por filmes da franquia Hellboy e por  Blade II;  é no mundo do horror e da fantasia gótica que ele se impôs. Como roteirista e produtor tem uma filmografia concisa. Creditado no roteiro das franquias Hobbit, Pacif Rim e entre outras produções de seus compatriotas. Filmes como El Orfanato, Don’t Be Afraid Of The Dark e Mamá completam a lista e apresentam sua assinatura, que explora o horror infantil. Thrillers que abordam o imaginário infantil, o mundo grotesco fantasiado pelas crianças; dramas de reconstrução familiar e que à partir desta desenvolvem-se a relação da criança com uma figura ilusória. Adicionando à lista, o meu terceiro e último filme El Laberinto Del Fauno.
three-amigos Numa linguagem fantasiosa, com uma atmosfera de horror mágico; Del Toro conduz a narrativa à partir do olhar de uma criança. Mesmo que creditando roteiro ou produção, sua assinatura é forte; impressa através de uma direção de arte digna de filmes de terror.  Depois desse passeio até o caliente México, espero que tenha instigado nos leitores mais interesse por suas produções. A união e compatibilização das produções dos realizadores mexicanos não tem fronteiras. Atores se lançam na direção; diretores que se aventuram na produção e roteiristas que se arriscam na direção.  Este ciclo produtivo mexicano funciona e está a dominar o cinema com sua variedade de gêneros e experimentações.
Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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