A menos de uma semana do Aminamundi, o maior festival de animação da América Latina, nada mais apropriado do que uma bela de uma animação.

“What if we told the story of a little girl growing up, but she’s not the main character — she’s the setting? ” – “E se contássemos a história de uma menininha em fase de crescimento, na qual ela não é a protagonista e sim o lugar em que a história se passa?”

Essa foi a fagulha inicial do argumento de “Divertida Mente”, a nova produção da Disney-Pixar, dirigida por Peter Docter, o mesmo de Toy Story, Monstros S.A. e Up: Altas Aventuras.

A ambiciosa proposta do filme é contar uma história pelo ponto de vista das emoções de uma criança, que começa a passar por um momento traumático: a mudança de cidade. Ela precisa deixar amigos, escola e o esporte favorito para trás.

Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Nojinho são os “comandantes” da pequena Riley, de 11 anos. As emoções se revezam em uma sala de comando, uma espécie de “computador central” da menina. A Alegria é visivelmente a “comandante-principal”, o que fez com que eu me perguntasse o porquê disso e elaborasse um tanto de explicações. O filme não deixa claro, mas se tratando de uma menina de 11 anos, com uma vida confortável e uma família que a trata bem, eu imagino que é a emoção mais ativa no cérebro. Além disso, na história, a Alegria é a primeira a aparecer na sala de comando (assim que Riley nasce), portanto seria a mais “experiente” do grupo.

Quando a família muda de cidade, é desencadeada uma série de reações e confusões mentais com as quais as emoções ainda não sabem lidar. E a partir daí, o filme nos leva a uma viagem lúdica e extremamente criativa ao funcionamento do cérebro humano, sem perder a sensibilidade e proximidade que os gênios da Pixar sabem manusear tão bem. Alegria e Tristeza são acidentalmente jogadas para fora da sala de comando e sua jornada de volta inclui passar pelas “ilhas de personalidade”, o estúdio de “produção de sonhos” e a “vala do esquecimento”.

Emoções e suas personalidades

Tristeza aparenta uma retraída “nerd”
Tristeza aparenta uma retraída “nerd”.

Como verdadeiros protagonistas dessa história, as emoções foram trabalhadas meticulosamente pela equipe de roteiro e design. Só pela aparência dos personagens já se nota quais são suas características marcantes, e todo detalhe importa: desde a cor até o figurino que vestem.

Além disso, é visível a diferença entre o design das emoções e seu universo dentro da mente de Riley e o do mundo real, em que a menina vive com os pais e amigos. Isso porque os dois ambientes foram filmados de formas diferentes. O lado de dentro está mais para um design bidimensional, tanto no ambiente como na movimentação dos personagens, característica pouco comum nos desenhos da Pixar. Já o lado de fora, o mundo dos humanos, está um tanto mais realista do que os filmes deles em geral. Esse contraste ajuda a tornar o universo dentro da mente ainda mais onírico, enquanto o lado de fora se aproxima de quem está assistindo e reforça a identificação com os personagens.

Por que queremos ser alegres o tempo todo?

Nojinho é a típica “patricinha”, com frescura pra tudo
Nojinho é a típica “patricinha”, com frescura pra tudo.

É bom explicar que, no filme, as emoções não controlam as ações da Riley, e sim o que ela sente em cada situação. E aí volto ao meu questionamento inicial: a Alegria é claramente a comandante-principal, mas pra além disso, ela é aquela por quem torcemos que fique no comando da menina 100% do tempo, fazendo com que ela não fique triste nunca.

Mas por que queremos isso? Por que fugimos desesperadamente da tristeza ou do medo? Não só é impossível ser feliz o tempo todo, como seria impossível vivermos bem, sendo felizes o tempo todo. E ao fim dos 94 minutos de projeção, esse foi o ensinamento que ficou para esta jovem colunista: crescer não é nada fácil e ninguém gosta de se sentir mal o tempo todo, mas mesmo os momentos mais felizes são precedidos (ou rodeados) por um bocado de tristeza. É preciso um bocado de tristeza.

Ps: quem for assistir ao filme nos cinemas ganha de bônus o lindíssimo e encantador “Lava”, curta-metragem exibido antes do longa. Mais uma pequena prova de que os gênios da Pixar são gênios porque trabalham com amor. É um amor que transborda da tela.

 

 

Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

2 COMENTÁRIOS

  1. Um dos desenhos animados mais adultos dos últimos tempos. Fico pensando se essa questão de mostrar que a tristeza é importante está relacionada com a atual onda de falsa felicidade-minha-vida-é-perfeita que o Facebook agravou (Será que foi o Fotolog que começou ou os Sub-nicks do MSN?).

  2. “O lado de dentro está mais para um design bidimensional, tanto no ambiente como na movimentação dos personagens, característica pouco comum nos desenhos da Pixar.”

    Isso mesmo! Acho que isso é uma das grandes cartadas do filme. A ação transcorrer dentro da cabeça de alguém dá mais liberdade à animação. Os filmes de CG às vezes são mt preocupados com história e esquecem de trabalhar movimento, distorção, textura de forma criativa.

    E o que eu mais gostei foi a forma da Alegria e da Tristeza se mexerem. O jeito que cada uma anda, fala, gesticula.

    A sua crítica foi a única q li até agora a apontar isso! XD

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