Tamos de volta nessa bodega pra discutir as ideias mais doidonas sobre música que a gente conseguir inventar! A gente tem conseguido gerar discussões bastante interessantes e sempre acaba percebendo que a música não é uma linguagem excludente, utilizando pontos de vista variados pra tentar entender esse negócio que entra pelo ouvido e fica rebatendo pra sempre dentro do cérebro. Eita, lá vem o doidão, né? É! E se segura aí que hoje a doideira vai ser forte porque vamos falar de duas coisas que todo mundo adora mas tem vergonha de admitir; duas coisas que fazem o sangue esquentar e correr mais rápido e promovem a união dos seres humanos num ritmo comum; duas coisas que te colocam em contato direto com alguns dos instintos primordiais da humanidade: Axé e sexo.

 

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“hihihihi”

 

Caramba então hoje é dia de falar de dois tabus de uma vez mesmo? Coragem! Precisamos passar por isso também. Afinal, a primeira vez a gente nunca esquece! Sim, esse post vai estar cheio de piadinhas imaturas sobre sexo, então se você não tem maturidade pra ler esse tipo de bobeira, faça-se um favor e vá transar antes de continuar lendo. Vai ser melhor pra todos os envolvidos!

Já? Podemos? Pra começo de conversa a gente precisa falar sobre tensão e relaxamento, e nem me venha fazendo essa cara de que tá pensando besteira porque é exatamente isso que eu to querendo dizer mesmo: tensão e relaxamento são conceitos tão sexuais quanto musicais. Música e sexo sempre foram tabus, certo? E se eu te disser que na idade média existiam alguns intervalos musicais proibidos de serem tocados ou cantados? Pois é, e o mais famoso deles é conhecido até hoje como Trítono.

 

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Tri de três, tono de tom. O trítono é o intervalo formado por duas notas que estejam a exatos 3 tons de distância uma da outra. Tá difícil? Se acalma e vamo nessa. Repara que entre quase todas as teclas brancas do piano há uma tecla preta. Então, no diagrama nós temos a representação do trítono formado pelo intervalo Fá-Si. Mas esquece esse negócio de Fá-Si. Se você quiser encontrar qualquer trítono, só precisa contar seis teclas a partir de qualquer outra, sem pular nenhuma. Vê 30 segundos desse vídeo que você vai entender:

 

 

Deu pra perceber que o Trítono tem uma sonoridade no mínimo forte né? Pra não dizer estranha ou incômoda! Imagina a galera do clero lá na Idade Média ouvindo esse troço! Sacrilégio! Blasfêmia! Chegaram a chamar de Diabolus in Musica, acredita? Tudo por causa do seu aspecto dissonante, tenso. Mas você já tá me olhando com cara de quem quer sexo, né? “Você me prometeu axé e sexo nesse post e não saio daqui até conseguir!”, você diz. E eu digo calma. Seus níveis de tensão tão muito altos! E o melhor que pode acontecer depois da tensão é o relaxamento. Qual é a melhor, mais antiga e mais famosa, forma de relaxamento de tensões do planeta Terra? Bingo! Dá pra entender o tipo de associação que a Igreja fazia na Idade das Trevas né? Agora, esse tipo de relaxamento eu sei que você já tá careca de saber como é, mas e o relaxamento da tensão musical? Toma-lhe:

 

 

Meio difícil de entender né? Mas calma que o que você precisa saber é que se em determinado acorde existe um trítono, o próximo acorde pode acabar com a tensão que ele criou, gerando um relaxamento perceptível. O melhor exemplo disso é quando uma música termina. Aquele último acorde é justamente o ponto do relaxamento final, do descanso, da resolução. Bem nos moldes daquele outro evento peculiar das relações sexuais em geral. Mais um motivo pra Igreja odiar esse maldito desse trítono, né? Ainda bem que hoje em dia nem eles e nem ninguém mais tem problema com o Diabolus in Musica!

Ou tem?

 

 

Eu lembro que na época do estouro do axé music o pessoal ficava puto da vida porque as músicas eram erotizadas demais, as danças valorizavam demais os corpos dos dançarinos e as letras falavam sacanagem demais em duplo sentido. Lembra disso? Engraçado que a sociedade recorrentemente parece ter um problema sério com qualquer coisa que lembre sexo. É claro que no caso do Harmonia do Samba por exemplo, a ousadia é bem mais explícita do que um mero intervalo proibido de notas. Mas quem disse que elas não tão aí? Talvez você não consiga perceber claramente, mas praticamente a música inteira só se pode ouvir a mesma sequência de acordes de novo e de novo! Tensão e relaxamento, tensão e relaxamento, vem neném neném vem, tensão, neném vem neném, relaxamento, vem neném, tensão…

 

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“…!”

 

Isso foi impróprio?

O que eu to querendo dizer é que a galera pegou uma prática musical que a igreja condenava na antiguidade e simplesmente criou todo um estilo em torno da repetição infinita da mesma! Não é demais? Cada compasso da música te leva da tensão pro relaxamento e de volta pra tensão de novo. É o vai e vem da harmonia, o tantra musical, o kama sutra do ouvido!

Olha o piu piuô!

 

 

Esse post tá ficando mais impróprio a cada segundo, caceta! Mas você consegue perceber como esse gênero parece que foi profundamente pensado pra traduzir todo tipo de desejo sexual do ser humano? E foi algo totalmente inconsciente ou você acha que o Beto Jamaica ou o Pepeu antes dele, pensaram em fazer mil músicas inteiramente baseadas em tensão e relaxamento de trítonos porque na antiguidade isso era considerado sexual demais pros ouvidos sensíveis da sociedade? Né possível! Eu realmente acho que esse tipo de linguagem é algo inerente ao ser humano e que em algum momento alguém ia perceber isso e usar para o bem! Sorte a nossa que foi na Bahia!

E isso porque só estamos falando de harmonia e melodia, mas a axé music evoluiu tanto nos últimos anos que até os ritmos parecem estar sendo cultivados e burilados pra ficarem cada vez mais sensuais. Imagina a galera na Idade Média ouvindo isso:

 

 

É claro que se ouvissem um ritmo desse as autoridades eclesiásticas iam instaurar uma caça às bruxas nunca antes vista na face da terra, mas dá pra perceber a complexidade de ritmos rolando ao mesmo tempo? Tenta ignorar as melodias um pouco e se concentrar somente no ritmo. Posso apostar que por mais que você odeie axé com todas as suas forças, tá batendo o pezinho aí ou balançando o corpo de um lado pro outro, né? Pois é, foram anos e anos, gerações e gerações de axé sendo naturalmente cultivadas pra finalmente fazer você se mexer na cadeira e pra transmitir cada vez com mais poder e clareza essa necessidade primordial do ser humano: a Ousadia. Que maravilhoso!

E pra fechar esse post logo, antes que sua vó entre no quarto e ouça o que não deve:

 

 

Tome piscadinha.

André Colares
Me chamo André Colares e sou formado em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro; estudei orquestração e contraponto, bem como composição para tv e cinema. Trabalhei como arte-educador em música no setor educativo do CCBB do Rio de Janeiro e atualmente moro em São Paulo, onde curso a carreira de composição musical na Omid Academia de Áudio. Trabalho como compositor de trilhas sonoras e/ou sound designer para cinema, teatro e publicidade; mas principalmente vídeo games, que são minha maior paixão desde sempre. Musicalmente gosto de tudo e estou sempre inclinado a considerar qualquer manifestação musical como algo bom e de valor. Qualquer Manifestação Musical. Então pra mim não existe esse papo de música ruim, certo? Que bom que combinamos isso! Também sou mal-humorado, daltônico, magrelo e barbudo. Nessa ordem.

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