Historicamente, uma grande vilã das artes e da cultura é a área de administração e suas vertentes, como o marketing. As duas áreas são tratadas como seres que não podem habitar no mesmo planeta, como se fossem Brasil e Argentina na final da Copa do Mundo. Criou-se um pensamento coletivo de que apenas uma das duas pode prosperar em um empreendimento cultural, por que como dizem muitos, “a cultura não pode ser vendida”. Através dessa falácia, ficamos durante muito tempo com o receio/falta de interesse/preconceito de utilizar técnicas altamente recomendadas no mundo corporativo, no nosso mundo cultural.

A grande dúvida é porque estaríamos “vendendo a cultura” se passássemos a gerir ela melhor com técnicas administrativas?

De forma muito resumida, a administração é o gerenciamento dos recursos humanos, materiais e financeiros de uma organização. Gerir algo seria ótimo em qualquer circunstância, uma vez que busca o aprimoramento e maximização de potencial, mas porque isso não se aplica à cultura tão simplesmente?

A resposta é complexa e vem em diferentes possibilidades, a mais histórica, nasce junto com o desenvolvimento da produção cultural no Brasil. Anos atrás (e ainda hoje em dia) o artista não exercia apenas o papel criativo, mas também o de gestor, de administrativo. Vale lembrar que muitos produtores nasceram da sua experiência prática. Em uma época na qual as empresas não sabiam traduzir a linguagem cultural (questiono-me se sabem hoje em dia) e seus benefícios para a sociedade, a visão delas sob o projeto era muito restrita aos aspectos financeiros.

Por mais que o artista desenvolvesse suas habilidades como produtor, a essência e formação desse indivíduo é a artística, emocional. Tratando-se da gestão de sua própria obra, receber recusas de financiamento não dói apenas no bolso, mas também no ego e passa a ser difícil enxergar estratégica e friamente porque seu projeto não está sendo contemplado e quais são suas falhas, potenciais, oportunidades e ameaças (Alô, é a SWOT?). Nesse ponto, o indivíduo acaba adotando discursos como “as empresas só querem saber de dinheiro” pela não compreensão do outro.

Já falamos em outro post, que é necessário que ambas as partes procurem compreender melhor o outro mundo em qual está tratando. O produtor precisa ser racional quanto às partes administrativas, assim como as empresas precisam ser sensíveis à cultura. O dia que chegarmos no meio termo, vamos ter um avanço enorme no desenvolvimento de projetos culturais (e o mercado está começando a perceber isso)

Porém, a principal delas é o fato de que a cultura é algo muito específico e subjetivo, que não pode ser regulada pelas ofertas/demandas de mercado como um produto qualquer e dessa maneira deve ser tratada de acordo com suas peculiaridades. Mas aplicar práticas administrativas à cultura é impô-la as demandas do mercado? Tenho certeza que não.

O projeto ideal seria o Governo dar mais importância as artes que não encontram tantas demandas no mercado (sem deixar as outras de lado) e todas elas se voltarem melhor para a gestão de seus recursos. Sem medo de utilizar pesquisas de mercado, análises de demanda, planejamento, branding e etc.

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Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

1 COMENTÁRIO

  1. Como consultora de mkt fico buscando ferramentas e estratégias passar para os meus clientes que empreendem com a cultura, mas eles sempre se esbarram na falta de planejamento, foco e estratégia, além da falta de apoio do governo!! Infelizmente um país que culturalmente não valoriza a cultura!!! mas desistir nunca…Ótimo texto Juliana Turano parabéns!!!

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