Depois do Dia da Mulher, vem o tradicional Dia da Mulher Zumbi. O quê? Não tá sabendo? É o dia em que as mulheres zumbi saem de baixo da terra para comer os miolos de quem fez comentários machistas no Dia da Mulher.

Então, você que disse “Ah! Mas as mulheres são feministas até ter que pagar a conta!”, que disse com uma cara condescendente “As mulheres merecem esse dia: elas cozinham, passam nossa roupa e são nossas mães”, que resmungou “Mas ninguém fala da opressão das mulheres contra os homens!”, bem, é melhor ficar de olho. É provável que tenha alguém com uma colher atrás de você querendo abrir seu crânio.

E como o vosso humilde colunista aqui quer continuar com sua vida inútil intacta, vou compensar qualquer recaída machista minha com uma seleção de algumas das melhores quadrinhistas do mundo que eu conheço. Com o avanço da internet, as mulheres finalmente conseguiram um espaço que a indústria nunca quis abrir e agora estão se fazendo cada vez mais serem notadas.

Vamos lá conhecê-las. E nada de fiu-fiu!

 

Cynthia B. e a melhor história sobre aborto.

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Meu aborto em quadrinhos, Piauí DEZ/2014. Esse trecho foi cortado da versão online. (clique aí ou na imagem para ler tudo)

Aborto, né? Só de falar essa palavra algumas pessoas fazem o sinal da cruz três vezes. E até se a pessoa é a favor do aborto ela se sente obrigada a justificar. “Eu sei que aborto é horrível, mas imagina se você é pobre, o seu marido fugiu depois de ser confundido com o chefe do tráfico e você já tem 5 filhos, cada um com uma doença rara diferente?” É como se para fazer aborto alguma mulher precisasse contar toda uma novela. Porque IMAGINA uma mulher simplesmente não querer ter um filho. Como?

Por isso ainda é muito corajoso falar de aborto em qualquer mídia. E a jovem cartunista Cynthia B. fez isso de uma maneira informativa, cômica e ao mesmo tempo dramática. Num quadrinho publicado na revista Piauí, ela narra sua experiência numa clínica de aborto, aquele tipo de clínica de quem pode pagar. Seria de pensar que por ser um local “privilegiado” seria uma operação bem tranquila e segura, mas há toda uma tensão com possíveis batidas de polícia, além da falta de coisas bobas, mas necessárias, como remédios adequados.

Eu adoro particularmente nesse quadrinho como as figuras humanas são molengas e expressivas, o jeito dos olhos saírem do contorno do rosto e as cores. A escolha das cores foi muito boa, porque ao mesmo tempo que são coloridas, o que remete à comédia, elas são lamacentas, dando um tom mais obscuro ao relato. Espero muito que surjam mais quadrinhos longos da Cynthia B. Enquanto isso não acontece acompanhe o site dela clicando aqui.

 

Kate Beaton fazendo a festa com o passado

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É assim nos tempos de Ulisses, é assim hoje. Leia mais tirinhas no site Hark, a vagrant.

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Seria inapropriado se eu a pedisse em casamento aqui?

Não… É melhor deixar para quando nós nos encontrarmos em Paris numa noite de lua cheia, no topo da torre Eiffel.

Toda essa rasgação de seda é porque Kate Beaton é uma cartunista única. Ela escolheu um tema muito pouco usado que é a releitura histórica. Ela pega personagens históricos superconhecidos como Napoleão, e até outros desconhecidos por ignorantes como eu, e faz sátiras que muitas vezes são comentários críticos sobre os costumes antigos e os novos.

Se você gosta de humor inteligente, ou de pura bobagem descompromissada, vale a pena segui-la. Para os fãs de super-heróis, eu recomendo uma paródia do Homem-Aranha.

 

Lilli Carré e seu mundo surreal

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Trecho do livro Heads or Tails.

Eu conheci o trabalho de Lilli Carré no Cartoon Art Museum em São Francisco (me inveje) e me apaixonei. Por mais que os quadrinhos e ilustrações dela sejam calcados no surrealismo, sempre tenho a sensação de ver algo do cotidiano ali, como se tudo aquilo pudesse acontecer a qualquer momento. Uma cabeça cair de repente de um corpo, um vento nos levar pra longe ou ficarmos presos entre estantes de livros. Acho que há uma verdade em suas obras com a qual podemos nos relacionar, ainda que não consigamos apreender de primeira, ou segunda, ou terceira, ou… enfim, deu pra entender.

Infelizmente, não é fácil encontrar trabalhos dela. Nem lá fora. Ela é alternativa demais, até para a cena indie. Mas a Lilli tem site e tumblr, onde de vez em quando coloca ilustrações e pequenas animações. Vale muito a pena.

 

Vera Bee não tem erro

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As personagens principais de O fantasma de Anya curtindo um som.

Um traço leve, claro e certeiro. Vera Bee (o “Bee” é abreviação de Brosgol) tem uma compreensão de narrativa que a destaca dos demais artistas. Ela não publica histórias com frequência, mas sempre que o faz possui uma eficiência que despreza qualquer dos excessos corriqueiros de contadores de histórias atuais (incluo aí todas as mídias e meios).

E enquanto há quadrinhistas e diretores de cinema que precisam fazer o personagem explicar tudo o que está acontecendo, Vera Bee consegue se dar muito bem sem precisar de diálogos ou textos. Um ótimo exemplo é sua fábula em quadrinhos sobre a selvageria da civilização — What were you raised by wolves?. Não há uma só palavra na história toda, com exceção do título, mas as imagens conseguem dar conta de criar ritmo e coesão à narrativa.

Vera Bee não comete erros. Aqui no Brasil foi lançado seu único livro, O fantasma de Anya, pela editora Jangada. Não poderia colocar em palavras como eu recomendo essa graphic novel. Você pode ver um preview clicando aqui.

 

Marjane Satrapi e a autobiografia

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Isso aí, garota! Abaixo ao sistema!

Eu já falei dela aqui na coluna antes. A cartunista e diretora de cinema franco-iraniana ficou famosa por seus quadrinhos autobiográficos, principalmente o Persepólis. Ela contribuiu muito para as pessoas entenderem que o Oriente Médio tem muitas nuances e culturas diferentes. Os iranianos e companhia simplesmente não decidem se explodir e guerrear porque não tem nada de bom passando na televisão.

O meu trabalho favorito da Marjane é o Frango com ameixas, também lançado no Brasil. Apesar de ser baseado em fatos reais — a vida de um tio de Satrapi —, ele é mais livre e fictício já que Marjane nunca chegou a conhecer o tio e não teria como ter a pretensão de contar a realidade. É uma história bem envolvente, politicamente incorreta, irônica e uma visão interessante sobre a morte.

 

Menção honrosa

Existem tantas artistas, eu teria que passar dias escrevendo. Ficam aqui alguns nomes para você procurar: Alexandra Moraes (dos Pintinhos), Chiquinha, Catalina Bu, Bianca Pinheiro, Emily Carrol, Gingerhaze, Lucy Kinsley, Jen Wang, G. Willow Wilson, Alison Bechdel, e a lista segue.

Repare que todas essas artistas mulheres tratam dos mais variados temas e usam os mais variados estilos.

Muito igual a todos os artistas homens.

Pois é isso. Artistas mulheres e homens são todos a mesma coisa — artistas. Então, pare de pensar, “Ah! Mas mulher não sabe fazer humor!”, ou “Uma história de ação feita por uma mulher?! Nada a ver!”. É pura e grande bobagem. O que há é boa arte e má arte.

Então cague o preconceito e leia as quadrinhistas. Ou a mulher zumbi vai te pegar.

 

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Obs.: A imagem da Mulher-Maravilha que abre o post é arte de Cliff Chiang.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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