Nesse mês me deparei com a notícia que as obras de Vincent Van Gogh estariam desaparecendo. Ao ler a notícia, vi que é por causa de um mineral específico chamado de Plumbonacrite. Esse mineral, de tom avermelhado, foi muito usado nos primeiros pigmentos indústrias no início de século XIX e era muito popular entre os artistas da época. Van Gogh foi um dos que mais usou pois, a coloração alcançada nessa tinta era muito viva e chamativa, que são traços comuns e conhecidos nas suas pinturas. Nisso, a discussão da cor e do tempo estendem esse problema da história da arte para a história do homem. Mostra que o nosso olhar pode ser algo que pode mudar por fatores naturais ou não-naturais. A notícia constata que a mesma obra que Van Gogh pintou a anos atrás está diferente do que vemos hoje.

Vamos pensar somente na ação de ver (sentido da visão) por hora, como uma questão que nos toca desde que nascemos. Ação está que é muito pesquisada entre grupos de estudos e até em notícias populares como o vestido que era preto e não dourado, se analisarmos melhor.

 

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A visão é um sentido que transmite uma experiência sensorial importante nas primeiras fases infantis. Como devemos entender, a visão e outros órgãos do corpo continuam a se desenvolver depois que nascemos. Nossa visão não é muito nítida nos primeiros dias de vida e as imagens são mais claras. Então, o que vemos na infância pode definir a nossa experiência estética no futuro? Nem tanto. Vamos imaginar uma pessoa cega e que nunca teve a possibilidade de ver desde que nasceu, e não perdeu a visão na fase adulta, como existem em alguns casos. Um cientista entrega uma determinada tecnologia para que o cego possa ver e a primeira imagem vista é a Mona Lisa de Leonardo Da Vinci. Como o cego analisaria a obra, com o que sente ou com o que olha?

 

 

Aconteceria o que deveria acontecer, a pessoa descreve e se maravilha através dos detalhes da obra, não com a sua experiência sensível. Para este cego imaginário olhar uma obra de Da Vinci seria algo maior do que a própria obra, ele estaria tendo a possibilidade de ver algo antes de experimentá-lo, sem julgar sensivelmente. Experimentar/sentir são coisas diferentes de ver pois, a experiência sensível tem caminhos mais profundos que somente olhar. Caminhos políticos, sociais e até narrativos dos quais não trataremos aqui. (Se tiver mais curiosidades eu indico o livro ‘A partilha do sensível’ de Jacques Rancière.)

Bom, como entendemos que ver é diferente de sentir vamos voltar ao Van Gogh e selecionar a sua obra intitulada de ‘Noite estrelada’. Podemos senti-la de maneiras diferentes, mas o que vemos na obra pode ser igual para todos nós. Vemos as curvas turbulentas das suas pinceladas e as cores vivas querendo sair da tela. Também sabemos que é uma obra clássica impressionista e importante para a história da arte mas, nossas impressões sensíveis sobre ela diferem através das experiência visual que tivemos durante toda a nossa vida. Vamos, em primeiro momento, afirmar que toda obra artística causa um impacto em nós, seja ela visual, intelectual ou sensível. Logo, cada imagem criada por um artista causa um impacto, deixa uma marca em cada um de nós. As obras de Van Gogh causam essa impressão, levantam questões estéticas e sentimentais em camadas diferentes.

 

 

Aqui entra a nossa dificuldade: se uma obra começa a esbranquiçar e perder a sua cor, todos os níveis de sensações e textos visuais são difusos e ganham outro sentido para quem vê. Se já percebemos que a interpretação e o sensível são aspectos pessoais que diferem em cada espectador, devemos nos questionar sobre o que vai sobrar da obra de Vincent Van Gogh. Estamos perdendo as cores que mais encantaram a ele, com as tintas extremamente coloridas com Plumbonacrite nas suas telas. Para isso só indico uma coisa, corra para Amsterdam e vá ver as obras no Museu Van Gogh. O tempo é o nosso maior inimigo para ver as coisas antes de senti-las. É nele que está o maior poder sobre o que devemos experimentar nas nossas vidas e não na visão.

 

 

Aldene Rocha
Nascido como um artista bastardo e um eterno aprendiz, se formou em belas artes por uma paixão de menino e seguiu levando ela até o além. Desenvolve trabalhos artísticos em diferentes mídias como vídeo, modificações em jogos eletrônicos, fotografias, instalações e intervenções urbanas. Participou de exposições coletivas e foca a sua pesquisa nas novas mídias aliada à teoria do cinema, na fotografia e na arte contemporânea. Mesmo não parecendo, curte uma praia e joga videogame nas horas vagas.

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