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“Dispare” é a última montagem que compõe a trilogia da Cia Boto-Vermelho, iniciada em 2003 com “Elogio da Loucura”, inspirada em Erasmo de Rotterdam. Fundada em 1992, o grupo retorna com o espetáculo de 2011, para o Teatro Alcione Araújo.

O texto tão original como a encenação é de competência de Roger Mello – premiado autor de livros infantojuvenis e ilustrador – que inova na sua primeira direção. A trama envolve conceitos como identidade e multiplicidade, quantos “eus” são possíveis de se encontrar em nós mesmos. O que tenho do outro em mim e o que o outro me rouba, se desprendendo da noção de indivíduo e contemplando a pluralidade.

O espetáculo inicia com um olhar peculiar muito impactante. Três figuras encaixadas ao chão que respiram com espasmos ao som pontual do que, metaforicamente, e em correlação ao movimento proposto, conecta com a pulsação do coração. Um coração encaixado, montado e que, naturalmente, será repartido. Os “Eus” se separam e dão origem a dissociados reflexos, memórias, interpretações, pedaços de histórias. Ao longo da trajetória da incessante busca por uma identidade que é fragmentada, reflexões e provocações são o mote da dinâmica da cena. Essa temática sedutora acompanha a filosofia do homem e nas artes isso é completamente reconhecível. Quem nunca imaginou multiplicar sua vibração e expandir sua potência?

A propriedade apresentada na conjuntura cenográfica do espetáculo é reafirmada na indumentária. Cubos, os entulhos repletos de memórias, espelho (e toda sua “misticidade” cênica) são informações de forte impacto pela sua disposição num espaço amplo; cabe aos atores ocuparem a ambiente. Os intérpretes são Artur Gendankien, Ludmila Wischansky, Pedro Cavalcante e Ricardo Schöpke que através da direção de movimento do Artur sugerem um corpo disponível para que mesmo que multifacetado possa vigorar a noção de unidade interior. A minúcia é compreendida pelo espectador, no entanto, falta acabamento de uma transição para outra. Se a intenção são evoluções físicas cortantes e desconcertantes, há a necessidade de afinar a transposição de um estado pra outro; por vezes o ato que terminou solto desencadeou outros deslizes na ação, como a queda inesperada de objetos, que dispersaram a conexão inicialmente estabelecida (como o revolver seguido do pote com comprimidos). Aponto, em questão interpretativa, a ausência do processo gradativo da emoção. Há saltos emocionais em momentos díspares que não cabem ao andamento, pois ao invés de atrair o espectador pelo estranhamento daquilo que não é uma linha realista, afasta o mesmo quando este não detecta a persona, e sim o ator num estado reativo e confortável numa partitura já conhecida. A concepção ao longo do espetáculo esfria – cai uma chuva de granizo – e o fim previsível não mantém a empatia inicial.

Foto DISPARE - 15

Aliada ao ineditismo perplexo do texto, a iluminação recorta a cena com uma foice: ela não espera o espectador processar a passagem anterior, ela segue uma frequência própria e decisiva. A marcante iluminação – ainda que presumível -, não encontra reforço na identidade sonora que se assemelha a uma promessa que não se cumpre. A presença intensa do início da peça escapa pelos dedos de olhos atentos.

Permeia a peça algumas passagens capciosas e inesperadas que aproximam e espectador nessa ideia de multiplicidade; esse respiro de quebras de foco cênico e corte com a visualidade aparentemente óbvia nos resgata atiçando nosso interesse. Alguns momentos de suspensão que validam a encenação.

O espetáculo fica em cartaz até 18 de setembro na Biblioteca Parque Estadual.

 

SERVIÇO:
Local: Teatro Alcione Araújo – Av. Presidente Vargas, 1261 – Centro – Estação Presidente Vargas do Metrô
Temporada: 12 de agosto a 18 de setembro. Quartas, quintas e sextas às 19h
Valor: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia). Cadastrados nas Bibliotecas Parque têm direito à meia entrada.
Capacidade: 195 lugares
Classificação: 12 anos
Gênero: drama
Duração: 55 minutos
Sinopse: A ação de DISPARE tem início como aquela cena decisiva de filme policial em que o personagem se vê multiplicado em uma sala de espelhos. Um disparo poderia atingir o próprio assassino, seu reflexo ou o reflexo de seu reflexo. Aqui, o EU estilhaçado revela três personagens denominados EU. Os três percebem que lidar com a própria identidade vai se revelar um jogo arriscado: o embate do Homem consigo mesmo através dos tempos. As crises do “eu” serão revividas através de conflitos étnicos e territoriais, relembrando a história e manipulando o futuro. Os três ensaiam diversas formas de se matar, sem obter êxito. Tentam se lembrar de como se fazia sexo, mas não conseguem. Em DISPARE, o corpo não parece mais ser um lugar seguro. Um EU acusa os outros dois de impostores: seriam sósias, clones ou replicantes? O clima é de mistério, a única verdade é um disparo ainda não consumado. O próprio disparo pode ser uma farsa. O título insinua uma metáfora na ideia do embate com o díspar, o diferente, o outro.

Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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