Compreender o que seria arte é algo bastante difícil quando nos deparamos com a produção artística atual. Ficamos em um senso comum, acabamos por ligar o pensamento moderno (considerando a era da criação da televisão, nos automóveis, etc.) com a construção visual da arte contemporânea (já ligada com as novas mídias e a internet). Caímos em um abismo repleto de espelhos como se fossemos bêbados cheios de cachaça e repetimos discursos fracos sem pensar. Discursos esses que se propuseram a um entendimento dos processos artísticos que surgiram a muito tempo, e que levou muitos críticos a errarem com alguns conceitos da arte.

Não devemos associar diretamente as ideias daquela época com o tempo atual. Nossas construções de sujeito e problematizações são outras: nos preocupamos com os likes do Facebook e com as atualizações da timeline. Ao considerar o discurso moderno com essa prática, geraríamos pré-conceitos limitadores e faríamos triunfar uma construção hegemônica de pensamento até mesmo europeizado. Falo isso por que a arte contemporânea é uma máquina em looping sem fim. Mas, mesmo firmando uma arte atuante em manifestação estética e conceitual, ela inviabiliza a total difusão do conhecimento para o público, fica tudo no mercado da arte.

Available online for free – Evan Roth, 2009.

O mercado seria o anverso¹ da moeda em que está a arte, dividindo o mesmo espaço sustentado por uma economia fundamentada no dinheiro. Por outro lado, o movimento da arte opera em um campo de uma prática que precisa de trocas e do espectador. Neste sistema conflui uma massa de fatores, não só presentes na arte, mas na economia mundial e suas trocas. Paramos aqui por um momento para entendermos que a arte “briga”, de certa maneira, com o mercado que tenta inserir obras que podem ser vazias e que não trazem sentido para a arte atual. Os produtos que compramos também entram nesse ciclo através da calça jeans, o livro ou o vestido daquela grife famosa, tudo é afetado pela vontade da economia. Daí algumas práticas tentam burlar e criar um novo sistema de objetos gratuitos, obras ou produtos que chegam ao consumidor final muito similar ao produto original.

Pera aí! Eu estou escrevendo sobre arte ou sobre economia?! Tudo está ligado…

Produtos que teriam um valor econômico, chegam ao consumidor final de graça. Como por exemplo, uma amostra grátis no supermercado, um MP3 do álbum novo da banda XYZ ou uma exposição de arte com entrada gratuita. Numa economia em que todos os objetos teriam um pequeno valor e agora não precisam mais ser pagos para ser adquirido. Pode-se conseguir o mesmo ou de qualidade similar. Talvez possa ser uma falha, um momento, um lapso de loucura do capitalismo ou um espasmo para o deleite dos consumidores. O que vemos é uma nova forma do grátis, não somente uma maneira de experimentar esta produção sem pagar por ela, mas ter a própria sem nenhum custo.

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Cildo Meireles – Elemento Desaparecendo/Elemento Desaparecido, Kassel, Alemanha, 2002.

Assim, se pensarmos nos dias atuais, existe uma linha histórica sobre a gratuidade e o capitalismo cognitivo que perpassa pela expansão da internet, pelos meios de comunicação e pela arte contemporânea. Anteriormente, tínhamos que comprar um livro para poder adquirir o conhecimento sobre uma matéria específica, hoje, acessando sites de busca ou o Wikipédia, recebemos os bits sem “qualquer custo”. Assim, a cultura imaterial existente permite um acúmulo de informações na rede, em uma relação de contato sobre a informação e sua difusão exacerbada, quase sem nenhum critério que agora está ao alcance de todos e sem restrições.

Nessa história entra o problema do copyright que tenta controlar a distribuição destes materiais na internet. Ter o direito do autor sobre um produto criado para permitir o controle e o investimento no capital intelectual, limita a chegada do produto para todas as pessoas. O copyright efetiva um poder sobre a informação, e valoriza o abuso monopolista. O caso é que, toda informação deveria ser livre para seu uso e reuso. Essas modalidades inferem diretamente na arte contemporânea, com uma postura de defesa do seu mercado sobre a obra de arte. É necessário articular caminhos concretos, linhas que considerem um campo relacional para a divulgação das informações artísticas criadas. Todos devem ter acesso à arte.

 

 

A ideia contemporânea é possibilitar o uso da obra artística através do copyleft. Esse conceito foi criado por um artista chamado Antoine Moureau tendo como intuito mesclar os processos artísticos com o copyleft e romper o distanciamento que o mercado causou todos esses anos ao seu público, seu real “consumidor”. As novas maneiras de apresentação da estética do gratuito é acabar com as formas modernas de arte e gerar uma mistura entre digital e analógica. Muito mais simples e próxima ao espectador. O reflexo dessa condição toma como força motriz o campo das relações convencionais da vida pois, para fazer arte temos que viver e não ser artistas. Exprimir no dia a arte e o seu processo. O copyleft vem para modelar mercados, inserir nas nossas relações parâmetros que constituem um novo estatuto do artista, e possivelmente sua real função na vida e no mundo.

 

1 – an·ver·so |é| 

1. [Numismática]  Face da moeda ou da medalha onde está a efígie ou o emblema.

2. Parte da frente de um documento ou de um .objeto. = FACE

 

“anverso”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/anverso [consultado em 17-04-2015].

Aldene Rocha
Nascido como um artista bastardo e um eterno aprendiz, se formou em belas artes por uma paixão de menino e seguiu levando ela até o além. Desenvolve trabalhos artísticos em diferentes mídias como vídeo, modificações em jogos eletrônicos, fotografias, instalações e intervenções urbanas. Participou de exposições coletivas e foca a sua pesquisa nas novas mídias aliada à teoria do cinema, na fotografia e na arte contemporânea. Mesmo não parecendo, curte uma praia e joga videogame nas horas vagas.

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