A Mostra Aurora dentro da Mostra de Cinema de Tiradentes, é uma seleção dedicada a jovens diretores, com no máximo três longas na carreira. É um ótimo espaço para se descobrir novos discursos e ouvir novos realizadores que estão formando sua visão cinematográfica.
Um dos filmes dessa mostra este ano foi “Filme de Aborto”, de Lincoln Péricles. Diretor paulista, estreante em longas e que já exibiu alguns curtas-metragens aqui em Tiradentes. Seu longa, no entanto, demonstra certa ingenuidade de visão cinematográfica e prova que o longa-metragem pode ser uma caminhada bem espinhosa e Lincoln definitivamente não estava preparado para ela.

A começar pelo título: que pode sugerir tanto que se trata de um filme que vai discutir a questão do aborto no Brasil, quanto o gênero do filme. Nessa estrutura de frase que remete à “filme de ação, de amor, de aborto…”. Ou seja, o que o título sugere, seja de um jeito ou de outro, é que vamos nos defrontar com um filme que tem o aborto como seu tema, e não sua forma, como acaba sendo ao longo da projeção.
Ter o aborto como “forma”, é minha maneira de explicar que “Filme de Aborto” é uma sequência de interrupções, não-conclusões, de abortos, ou melhor, sequências e assuntos abortados.

Em alguns desses momentos, podemos observar artifícios interessantes, como por exemplo, o uso da ficção para questionar o lugar submisso da mulher na sociedade. Em um dado momento, o casal protagonista afirma que o homem engravidou. Mas que isso não é um problema. Sendo uma gravidez indesejada em um homem ele pode tranquilamente fazer o aborto sem infringir nenhuma lei ou quebrar dogmas religiosos. Essa ficção se estende até uma cena em que o rapaz vai a uma clínica de aborto.
Este torna-se um artifício interessante para pensarmos nessa troca de lugares. Será que, nessa sociedade machista em que vivemos o aborto seria crime, ou um tabu, se fosse o homem que engravidasse?

Outro artifício interessante é o uso de depoimentos em off de jovens da periferia que falam de seus trabalhos abusivos e a falta de perspectiva de estudo, ou melhora de emprego. A questão social é bem forte no filme, principalmente por conta da experiência de vida do diretor, e se encaixa bem no assunto pois está também dentro desse leque de questões que envolvem o aborto no Brasil.

Ressaltados os movimentos interessantes que o filme faz, é preciso olhar mais atentamente aos problemas que ele carrega enquanto obra cinematográfica.
Na manhã seguinte à exibição, um debate foi realizado com a presença de Lincoln Péricles e da roteirista e atriz Talita Araújo.
Desde suas primeiras palavras na mesa de debate, o jovem diretor mostrou-se arrogante e não-grato por estar ali naquele lugar tão privilegiado culturalmente. Afirmou que seu filme deveria ser passado não em mostras de cinema, mas em escolas, para que seu assunto fosse discutido.

Infelizmente, uma obra de arte, seja ela cinematográfica, literária, plástica, não pode se apoiar numa bengala de debate pós-sessão para ganhar algum valor social, artístico ou político. Ela deve bastar-se em si e em seu discurso, seja ele qual for.
O grande problema de “Filme de Aborto” é justamente se perder num egocentrismo e não tratar de nenhum dos assuntos a que, à princípio, se propõe. Não há uma preocupação narrativa (nem mesmo em desconstruir uma narrativa clássica, ou coisa que o valha) nem estética. O filme, ou melhor, seu diretor, está tão preocupado em recusar absolutamente tudo que o cinema tem como código e linguagem, que se esquece de que tem alguém ali na plateia, assistindo e tentando embarcar na sua viagem.
Esse pensamento já havia surgido para mim durante a sessão e se confirmou completamente durante o debate.

Enquanto a roteirista e atriz Talita Araújo tentava defender o filme como feminista e disposto a discutir a questão do aborto, o diretor Lincoln Péricles apenas se preocupava em defender-se enquanto “cineasta da quebrada”, falando em um processo de “tomada” de espaço no cinema.

“Filme de Aborto” talvez tenha sido um erro de curadoria, ou mesmo um acerto, considerando que seu debate pós-projeção foi rico em participação de público e em reflexão sobre até que ponto um realizador quebra os códigos e as possíveis linguagens do cinema como algo que agrega à sua obra ou apenas ao seu ego de cineasta “diferentão, só você, exclusivo, artista marginal, Glauber da periferia”.

 

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Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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